quarta-feira, 31 de agosto de 2005

PAUSA SOBRE A PAUSA

Se você não tem nada para fazer enquanto curte o recesso de SorryPeriferia, sugiro que leia o blog do Marcos Valério.

Detalhe para o post "Tara pelo sangue derramado", que contém um comentário assinado por um tal de Vives, que deixou a seguinte frase: "Põe uma foto de quando você era cabeludo aí, ô". Ao que parece, esse sujeito que anticonstitucionalissimamente assina como Vives também deixou um spam com a frase "ENLARGE YOUR PENIS".

Procurado pela reportagem de SorryPeriferia, Marcos Valério não quis comentar o assunto.

Segue a pausa.

sexta-feira, 5 de agosto de 2005

CARTA ABERTA AOS LEITORES DE SORRY PERIFERIA


Caros,

reza a lenda que momentos antes de morrer, Ludwig Van Beethoven olhou pela última vez para as partituras que forravam seu piano e encheu de lágrimas os próprios olhos. Beethoven pressentia ser aquela a última visão daquilo que mais representava sua vida, e tinha consciência do quão grandiosa ela havia sido. Momentos depois Ludwig deitou tristonho em seu leito e pereceu, com a brisa da manhã a entrar pela janela, ao som do canto triste das cotovias.

Em verdade essa lenda é uma mentira estapafúrdia inventada por mim agora mesmo com o único objetivo de parecer mais culto. Se não me engano, o dito cujo aí em cima morreu doidivanas, com um sério problema de incontinência urinária e intestinal, e me corrijam os que realmente sabem da história. Mas, convenhamos, o meu fim tem mais glamour.

Pois bem. Todo mundo tem um pouco de Beethoven. No meu caso, compartilho com o mestre um pouco da surdez e olhe lá - ah, esses malditos rolhões de cêra de ouvido. Taí uma hipótese: se já existisse naquela época essas pistolinhas d´água que os médicos usam pra limpar nossos ouvidos, talvez a história de Beethoven tivesse sido mais feliz.

Posto o intróito sem sentido, digo que convém uma pausa. Ah se convém uma pausa. Neste blog. Duas semanas, quatro talvez. Ele está cansado. Foi-se a espontaneidade, a risada boba das linhas imprevistas. Há hoje aqui uma fuga do que sempre quis fazer, que pode ser retratado por uma sucessão de posts com textos quadrados, compridos e prolixos.

Tentemos mais tarde, portanto. Voltarei, não há dúvidas, porque escrever é minha terapia automática e intransponível. É o que eu faço quando estou nervoso. É o que eu faço quando estou triste. É o que eu faço quando estou feliz. Aproveitemos o momento de anomia e reflexão pelo qual passa o editor do blog, que sente suas energias esgotadas. Utilizando um linguajar freicanéico: bad vibe.

O editor de SorryPeriferia sempre foi um autista por opção, mas sente que atingiu um extremo nas últimas cinco ou seis semanas. Uma estafa passageira e sem sentido, causada pelo absolutamente nada somado ao excesso diário de internet. Nóia. Como diria o filósofo Wander Wildner, "não consigo ser alegre o tempo inteiro". Logo, ele se recolhe ao seu porto metafísico - o copyright desta expressão não é meu - para voltar muito em breve tinindo as energias, como em tempos recentes. Assim voltará a escrever, porque mais do que nunca ele precisa disso para pagar suas contas. E então voltará, de preferência se referindo a si mesmo na primeira pessoa, porque ele abomina quem escreve sobre si na terceira, como agora está fazendo só por pirraça.

Enfim, deselegante.

Portanto, masoquista leitor, este blog volta em algumas semanas. Com um visual novo, talvez, e com idéias novas, reinventado. Para quem gosta dele, convém aguardar. Para quem não gosta, resta o consolo de poder admirar a foto acima, da insofismável Catherine Zeta-Johnes, eterno colírio que carregarei para o além-vida. Errei: além da parcial surdez, tenho de Beethoven também a minha amada imortal. Ela fica aí em cima enquanto não retorno a escrever, espantando as más energias.

A gente se vê por aí,

Lives.

segunda-feira, 1 de agosto de 2005

THIS IS THE END, BEAUTIFUL FRIEND

De Niro, Taxi Driver, 1976.

"É preferível ser rei por uma noite do que um tolo a vida inteira". Rupert Pupkin, personagem de Robert De Niro em O Rei da Comédia (Martin Scorsese, 1983).


Houve um tempo em que Hollywood fazia filmes para as pessoas pensarem nelas mesmas dentro de um contexto social, e dizendo isso pareço um velho marxista derrotado pela queda do Muro de Berlim. Mas dane-se. O Rei da Comédia, de Scorsese, é a tampa do caixão deste período, que ao meu entender surgiu forte nos anos 60, teve seu clímax durante os 70 e foi enterrado no início dos 80. Falo (ui) de um tempo em que as grandes caixas redondas recheadas de película que saíam da Califórnia - e que chegavam até àquele cinema do seu bairro que já não existe mais - tinham também o objetivo de discutir o que eram os States, apontar suas fraquezas e, em muitos casos, colidir de frente com todos os governantes estúpidos das escalas municipal, estadual e federal. Da polícia de Nova Iorque ao FBI. Os donos do poder, enfim, com as calças na mão. Falo (dane-se o cacófato) de filmes como Dr. Fantástico e Nascido para Matar, de Kubrick, Apocalypse Now e A Conversação (Coppola), Táxi Driver e O Rei da Comédia (Scorsese), M.A.S.H. (Robert Altman), Todos os Homens do Presidente (Alan Pakula), Serpico e Um dia de Cão (Sidney Lumet), Muito Além do Jardim (Hal Ashby), entre tantos outros que não assisti, não lembro ou que desconheço a existência. (só achei os nomes de Pakula e Ashby no Google, não conhecia nenhuma dos dois).

Aluguei há alguns dias O Rei de Comédia, que há muito queria ver e não achava em locadora alguma. Não ri. Não que seja mal feito, muito pelo contrário, mas o contexto em que a dita comédia se insere é angustiante. O drama de carência moral e afetiva por que passam os personagens de De Niro e de sua amiga (cujo nome não sei) é trágico. No fim, com um nó de angústia entalado na garganta, você passa dias pensando se não corre o risco de ficar como aqueles personagens, e faz algumas observações sobre a frieza com a qual os americanos tratam uns aos outros. Enfim, o cinema que te pede para pensar. Brilhante.

Scorsese, o diretor, assume nos extras que produções assim não podem ser realizadas atualmente. O contexto do cinema, segundo ele, mudou. O Rei da Comédia teria sido o último dos filmes que discutiam as carências da sociedade norte-americana do ponto de vista do homem, do ponto de vista da sociedade e, em muitos casos, do ponto de vista dos donos do poder.
De fato, não se vê mais filmes com esta toada, salvo um O Informante aqui, outro Um dia de Fúria ali. Mas nunca mais uma tendência questionadora. Depois que certos dois predinhos desabaram em Nova Iorque então, não fazer filmes que incomodem coisas da política ou da sociedade de nosso Grande Irmão do Norte passou a ser um ato de patriotismo.

Mas por quê, afinal?

Dizem que Ronald Reagan - um ex-ator, lembre-se - não queria seguir os caminhos de Nixon no que se refere a deixar-se parecer o que realmente ele era, ou seja, um tapado utópico, tal qual Nixon. Assim Reagan teria começado a seduzir os chefões de Hollywood, prática intensificada por Bush Pai, Clinton e, sobretudo agora, por Baby Bush. Agora, os donos do poder e os donos do cinema mantém relações carnais que causariam inveja a Carlos Menen, que tanto quis uma algo mais entre a Argentina e os States.

A conseqüência é esse cinemão burrocêntrico que hoje vemos por aí. Um gênio como o Scorsese fazendo algo como O Aviador, uma superprodução burocrática que não quer dizer nada a ninguém. Robert De Niro, talvez o grande ator desta toada pensante dos anos 70, hoje vive de comédia para a família republicana média assistir com o cachorro na sala.

A questão de O Rei da Comédia é a própria questão de Hollywood. Tal qual a frase de Rupert Pupkin, o personagem de De Niro, o cinema de Hollywood foi rei por uma noite, mas tolo por todo o resto de sua existência. A lamentar.

OBS: Pessoalmente acho que temos bons filmes atualmente, mas longe deste contexto político. E duvido que teremos.

sexta-feira, 29 de julho de 2005

NOTA AUTOBIOGRÁFICA DESPROVIDA DE SENTIDO

O editor de SorryPeriferia (rodeado pela argolinha) posa para fotos com colegas no Hospital de Tratamento Psiquiátrico Intensivo em 23 de abril de 1970, seis meses antes de abandoná-lo

Perguntam-me sobre minha história. Lhes contarei. Sou o fruto de uma pisadela e de um beliscão entre meus pais, uma aventura banal, fim de rastapé de interior. Nove meses se passaram e eu nasci. Tudo que sei é que desde então fiquei internado em um sanatório, donde sairia 20 anos depois. Pelo que pude apurar, não tive alta: me dispensaram porque comi a maçaneta da porta do almoxarifado. Estava com fome e não agüentava mais a péssima qualidade da comida que me davam. Eles passavam o prato de sopa cor-de-burro-quando-foge por baixo da porta do porão - onde eu dormia - ao acordar e antes de dormir. Eram as duas refeições do meu dia. Pouco comia, pois os ratos eram sempre maioria e costumavam ser mais rápidos do que eu.

Sem rumo, procurei minha mãe. Quando me viu ela disse: "Não conheço nenhum Vives. Suma daqui". Após insistência, ela vagamente se lembrou de um dia ter tido um filho. Moraria com ela por uns tempos até conseguir me arranjar na vida, o que nunca aconteceu. Todas as noites ela colocava um saco sobre minha cabeça antes de dar o beijo de boa noite. Felizmente, logo conheci minha primeira namorada, por quem perdidamente me apaixonei.

Chamava-se Rulfia, e era estivadora do porto de Mixirica da Serra - mixirica com i mesmo -, onde carregava de bigornas um navio ferreiro. Era a única estivadora mulher do porto de Mixirica da Serra. Em verdade, era a única a fazer esta função naquele local, que carregava de bigornas sempre o mesmo navio, o único a atracar no porto da cidade e que de lá nunca desatracou. Passamos a morar juntos, num chatô de sapé que ela mantinha perto do cais.
Foi com Rulfia a minha primeira noite de amor. Mas registre-se, também, que com Rulfia nunca atingí o clímax. Ela chegava cansada do porto, não gostava de fazer as preliminares e quase sempre dormia em cima de mim. Rulfia tinha crises agudas de TPM. Em uma delas, trouxe uma bigorna do porto só porque cobrei-lhe que não dormisse sobre mim durante o ato. Arremessou-me o objeto no joelho, o que me deixou levemente coxo até os dias de hoje. Mas eu amava Rulfia mesmo assim.

Porém, certo dia ela entrou no navio ferreiro com uma bigorna nos ombros e de lá nunca mais saiu. Vasculharam a embarcação toda e nada acharam. Nem sequer uma bigorna foi encontrada lá dentro, nenhuma de todas aquelas que Rulfia lá levou nos últimos dez anos, todos os dias, dez horas por dia, folgando aos domingos e dias santos. Rulfia se foi, para onde ninguém sabia, deixando uma lacuna em meus sentimentos. O mistério de Rulfia e as bigornas afugentou os habitantes de Mixirica da Serra, que abandonaram a cidade. Lá restou apenas o navio ferreiro aberto e milhares de bigornas ao lado para serem carregadas.

Vim para capital. Comecei a beber e conheci os livros. Muitos deles. Em verdade nunca soube ler, mas eu via as figurinhas. Um deles mudou a minha vida. Chamava-se Kama Sutra para Crianças: Aprenda Hoje o que Você vai Querer Fazer Amanhã, e tinha figuras tão interessantes que pela primeira vez na vida ousei querer ler. Mas nunca aprendi. Continuei bebendo, porque a bebida era o que me restara de concreto, embora líquido. Fiz dois amigos, o Mato Grosso e o Joca, que andavam jogados pela Avenida São João.

No auge de minha agonia causada pelas saudades de Rulfia e por não saber ler, prestei Jornalismo em uma faculdade de nível mediano na Avenida Paulista. E, embora analfabeto, nunca desconfiaram disso e vivem me dizendo que levo jeito pra coisa (embora talvez discorde), o que me levou a arrumar emprego no jornal-laboratório local, onde plagiei uma receita de bolo de ameixa, sem ninguém nunca ter desconfiado.

Passei a viver de frilas esporádicos em revistas de primeira, segunda e terceira categorias, o que me possibilitou fazer planos pela primeira vez na vida. Eu, Mato Grosso e o Joca nos mudamos para uma casa velha, uma palacete assobrado, e lá vivemos os grandes dias de nossas vidas. Mas um dia veio os homem com as ferramenta, o dono mandou derrubar. A casa velha, o palacete assobrado estava no nome de um tal de Aureliano Buendia, austero fazendeiro de uma cidade do interior da América Latina, casado com ninguém menos que Rulfia Vives, a carregadora de bigornas, única mulher que amei na vida. Rulfia havia fugido para a terra de seu amante, onde vive a bater suas bigornas em meio a tapetes voadores e velhas mágicas.

Nota do narrador onisciente: A última notícia que tiveram de F. Vives é que ele foi visto com outra, num Fuscão preto pela cidade a rodar, e também parado em frente ao Ibotirama, onde comia um bife de fígado com a dita cuja que, suspeita-se, seja uma americana casada de nome Catherine. Pelo que pude apurar, parece que tem muito orgulho disso.

NOT TO BE CONTINUED.

segunda-feira, 25 de julho de 2005

DAS COISAS QUE A HUMANIDADE EXAGEROU

Flagrante da família Corizza durante piquenique na Era Paleozóica: Felipe é o que mostra a bunda para a câmera

Há um momento de angústia profunda e pausa na respiração quando penso no primeiro homem que olhou para um quiabo e disse "eu vou comer isso". Apesar de minha relutância gástrica, compreendo que a humanidade um dia já padeceu de fome profunda - e ainda padece - e que o bicho-homem precisava estar aberto a novas experiências, e não é de homossexualismo que estou falando. Enfim, ele tinha que colocar qualquer coisa na boca e engolir - eu já disse que não é de homossexualismo que estou falando - tal qual um Antônio Mezenga comendo bigatinhos na floresta depois que o avião caiu.

Creio que esse raciocínio justifica não só o quiabo como também o jiló, a buchada de bode, a linguada de boi e o curanchinho do frango. Na próxima vez que você olhar torto para alguém a saborear uma jaca, pense que um ancestral seu de 75 gerações atrás pode ter comido uma similar e sobrevivido às intempéries, o que manteve de pé a perpetuação desse gene arrogante dentro de você, que te faz olhar para a jaca com cara de "isso é um tanto disgusting".

Por outro lado, percebo que houve um momento na história em que sucessivos desvios de conduta fizeram do homem o único bicho capaz de compreender que dois com dois são quatro, mas também de fazer as coisas mais imbecis como se fosse o percurso natural da vida. Por exemplo: mordo-me ao pensar no primeiro sujeito que escalou cinco quilômetros de uma montanha e, ao chegar no topo, pensou "Quebrei meus poucos dedos que não gangrenaram, mas isso foi sensacional. Porque não fazer de novo e transformar isso em uma modalidade de esporte masoquista"?

Mas o alpinismo não é nada se comparado a uma manchete que certa vez li na internet: "Flórida estuda legalizar arremesso de anões". Diz-se que na terra da Disney a prática de jogar pessoinhas à distância é tão comum que há um movimento para que tal fenômeno seja reconhecido pela Estado como um esporte. Particularmente nutro o hábito de arremessar alguns amigos em festas quando me encontro trebadaço, anões ou não, mas não encaro isso como uma modalidade esportiva, para alegria da minha amiga Karen C..

Voltemos ao quesito gastronomia e similares. Enquanto tomava capirinha no Ibotirama com três figuras interessantes no último sábado, o mais exótico deles relatou o prazer que sente ao tomar uma cachaça curtida com cobra coral falsa. Explico: coloque a pinga em vasilhame junto de uma cobra coral falsa morta. Com o tempo, o bicho vai se desmanchando e a bebida adquire gosto e coloração muito específicas. Tal fenômeno ocorre com regularidade em Minas Gerais, não com manjericão, não com pimenta: com répteis mortos.

A imagem de tal vasilhame no balcão de um boteco qualquer, ao lado do compartimento de ovos coloridos, pegou-me entre o fígado e a alma. Como diria Alberto Einstein: "Só conheço duas coisas que não têm limite: o espaço sideral e a estupidez humana".

A minha parte eu quero em pinga. Sem animais mortos.

quarta-feira, 13 de julho de 2005

QUANDO A LITERATURA É MAIS COXINHA

do enviado a Parati

Se você faz uma feira de automóveis, as pessoas vão lá para discutir automóveis. Da última perua Jaguar à repimboca da parafuseta automática daquela marca coreana cujo nome você nem se lembra. Da mesma forma, ao freqüentar uma feira de coxinhas, as pessoas discutirão coxinhas. Receitas, condimentos, recheios, coxinhas lactovegetarianas, coxinha de cupuaçu com mel, Coxinheira George Foreman. Em feira de coxinha, coxinha rules. Agora siga a bolinha pulando na legenda: em feira literária, as pessoas vão lá pra discutir literatura, não é?

Claro que não, seu burro. Pelo menos não é isso o que pensam os cocotões que organizaram a III Feira Literária Internacional de Parati, a FLIP. Em verdade, o que se viu por lá foi nada além de uma overdose propagandística de lançamentos de meia dúzia de grandes editoras.
A idéia era organizar várias mesas de discussão por dia. Pois então imagine dois ou três escritores fodões sentados em uma mesma mesa, apresentados normalmente por um outro escritor fodão. Todos com livros recém-lançados, é claro. Em cada mesa, um tema a ser discutido. Até aí, a água enche a boca - e de fato não tenho nada contra o viés comercial da coisa.

Eis quando você percebe que o presunto-de-parma vira apresuntado. Após serem apresentados, o escritor A lê um trecho de seu lançamento para a platéia que pagou 17 reais para vê-los no salão principal, ou 12 para ver tudo no telão do outro lado. É aplaudido. Depois, é a vez do escritor B ler o seu lançamento. É aplaudido. Segue duas ou três perguntas. São aplaudidas. Aí os escritores vão embora aplaudidos e, no lado de fora, sentam para autografar, sob aplausos, os livros que os espectadores compraram na livraria conveniada, com os mesmos preços de São Paulo. Observando atônitos a tudo isso, nós.

Mas ninguém nos aplaudiu.

Me desculpe, mas se é pra ouvir trechos dos livros, eu entro no Submarino e leio o primeiro capítulo de cada um. Seria melhor então criarem um serviço 0900 onde uma voz feminina sensual lesse um trecho da obra escolhida.

Não se discutiu literatura. Não sei viu pessoas preocupadas em discutir tendências, um autor, uma obra que seja. Havia sim pessoas que queriam ver e ser vistas. A FLIP não passou de uma grande masturbação mental coletiva. E, apesar de ser uma feira, sequer houve local onde se pudesse comprar livros com preços mais baratos. Necas. Tudo isso em uma cidade que fede esgoto e onde o PF mais barato custa 16 reais. Um reles pastel de palmito, 5 contos. A minha paciência jogada no lixo: não tem preço.

Por outro lado, se o xis da questão era ver figurinhas tarimbadas em situações pouco usuais, isso a gente se superou. Eu mais uma figura mui falciônica seguimos Salman Rushdie pelas vielas da cidade junto de uma loira, que ele não catou, embora a dita cuja tenha feito de tudo para isso; dei duas ombradas na Zezé Polessa em ocasiões diferentes, o que provavelmente a fez pensar que "esse cara grande tá cheio de graça pro meu lado"; vários atores de teatros cujo nome a gente não lembra, mas que sempre fazem um ponta nas Xica da Silva da vida. E até uma ex-popozuda que sempre aparecia pelada na novela Pantanal, mas cujo nome só a mãe dela de fato se recorda. Ah, e é claro, Gabriel Aveia Kwak.

Enfim, a minha parte da FLIP eu quero em pinga. Aliás, em agosto tem a Feira da Cachaça de Parati.

Faz sentido. Só bebendo pra esquecer.

terça-feira, 5 de julho de 2005

BODE VADIO

A Mulher do Próxim, de Gay Talese, está em minha cabeceira há alguns dias. Um livro que fala sobre a América e sobre o sexo. 

Para você que não o leu, isso pode significar absolutamente nada. Mas agora que atravesso a metade do livro, me sinto mais libidinoso que o Itamar Franco na Sapucaí em 93. Praticamente um Jece Valadão. Todas as taras que aprendi lendo Nelson Rodrigues e revistinhas de sacanagem na adolescência agora reverberam dias inteiros na minha cabeça - e não só na minha cabeça. 

- Só conheceu a derradeira felicidade o homem que possuiu a cunhada proibida. 

- Toda tara por amor não é tara. 

- Essa menina assanhada bem vale um crime sexual. 

- Me ama, mas me bate, porque eu não te mereço. 

- Perdoa-me, meu bem, por me traíres. 

- Quem foi que desenhou esses malditos caralhinhos voadores na parede do banheiro? 


A você, mulher comprometida, recomendo distância. 

quarta-feira, 29 de junho de 2005

BREVE HISTÓRIA DO PRINCÍPIO DA HUMANIDADE

"Oi, você vem sempre aqui?"

Primeiro não havia nada. Depois, havia Deus. E Deus disse: "faça-se a luz", e a luz foi feita. E Deus disse: "faça-se o firmamento", e o firmamento foi feito. Aí Deus gostou da idéia e fez um monte de coisa, mas ficou triste porque ninguém admirava sua obra. Coisa de artista. Foi quando no quinto dia ele botou um punhadão de argila no molde e criou Adão, bem ao estilo Ghost mesmo, só que sem a Demi Moore e sem a Unchained Melody. Mas logo a coisa degringolou, porque Adão, embora gente boa, era daqueles sujeitos grudentos. Era Deus o parceiro de Adão no pôquer, era com Deus que Adão discutia o futebol do fim de semana, era com Deus que Adão falava mal do jardineiro do Éden. Tanto encheu os pacovás que pouco tempo depois o Todo-Poderoso criou uma companhia para ele, utilizando-se para isso uma costela e um teco de carne dos glúteos adãonicos. 

E foi neste momento de reluzente inspiração que Deus criou duas coisas que mudaram os rumos da humanidade: a mulher e a hérnia de disco. Uma coisa levou a outra. Adão nunca mais foi o mesmo depois da cirurgia da retirada da costela, e ganhou de brinde uma voluptuosa hérnia. Passou a andar levemente curvado, o que piorou com o tempo. Certo dia, ele sofria tanto com a dor que acabou envergado ao lado de uma árvore, no meio do Éden. Eva, que, nua, colhia figos pelos campos, saiu correndo em direção ao pobre coitado a fim de socorrê-lo. 

Adão ouviu os passos, olhou para o horizonte e pôde enfim sentir o insofismável prazer de ser homem. Suas partes íntimas deram sinal de vida enquanto ele observava aquela escultura a correr exibindo lascivamente suas curvas sinuosas, seus seios aconchegantes e firmes pululando comoventemente envoltos pelo cabelos longos soltos sobre os ombros. O sorriso bobo e provocante. E tinham as coxas, ah as coxas. Dois generosos ramos de carnes esculturalmente delineados que se revezavam com pressa até chegar ao local onde Adão padecia. E quando isso ocorreu, Eva o abraçou, e o ergueu, e o abraçou de novo. 

Adão mordeus os lábios: 

- Até que, pra quem era uma costela há uma semana, você tá bem jeitosinha. 

Apesar do linguajar cafajeste, nove meses depois, nasciam os gêmeos Caim e Abel. Mas não nasceram no Éden, pois este ficava na região central da cidade, onde o preço do condomínio aumentou barbaridade. Desempregado, Adão foi expulso por falta de pagamento e mudou-se com a trupe para a Vila Ré, onde tratou de cuidar dos filhos. 

Em verdade, Caim e Abel se odiavam. O primeiro era Curíntia roxo. O segundo, Verdão. Um queria ser o Magaren, o outro se vestia de Jaspion. Enquanto Caim filiava-se ao PSDB, Abel comprava a boina do Hugo Chavez. Cresceram alimentando esse antagonismo. E, na idade do vestibular, Caim prestou Publicidade. Abel, jornalismo. Ambos passaram em uma faculdade de nível mediano na Avenida Paulista. 

Meses depois, durante a semana de provas, Caim matou Abel ao arremessar-lhe o História da Imprensa no Brasil na cabeça. Nascia ali o neoliberalismo, o PFL, a propaganda das Casas Bahia e a esquistossomose. 

Mas essa já é uma outra História.

quarta-feira, 22 de junho de 2005

POR ISSO CUIDADO, MEU BEM, HÁ PERIGO NA ESQUINA...


- Você sabe que terá um dia feliz quando, ao acordar, sai de roupão no quintal para checar a caixa do correio, e dá de cara com sua nova vizinha, uma morena lasciva à la Catherine Zeta-Johnes, subindo a rua com uma minissaia de provocar rachaduras nas paredes do Vaticano. Com esse frio.


- O Jornal da Gazeta desta noite - sim, o Jornal da Gazeta - dedicou uma reportagem (bem feita) de cinco minutos sobre a vida do filósofo Jean-Paul Sartre, que completaria 100 anos neste 21 de junho. Jornal do inferno são os outros.

- Somente agora, aos 24 anos de idade, compreendi de maneira ampla e límpida o significado da palavra escatologia. Foi neste fim de semana, quando ouvi pela primeira vez o dueto entre Renato Russo e Gabriel o Pensador.


- Um derrame cerebral deixou o simpatissímo General Augusto Pinochet, um dos meus ídolos, a babar freneticamente pelo breve resto de sua existência. Me incomoda que meia dúzia de rancorosos ainda o acusem de ter mandado matar 3 mil pessoas há uns anos atrás. Parentes próximos dele declararam que não agüentam mais vê-lo sofrer o que vem sofrendo nos últimos dez anos. SorryPeriferia homenageia seu guru, o Velho Pinocha, com Lennon e McCartney: And in the end, the love you take is equal to the love you make.


- Fiquei olhando Faiéco subindo na camioneta e desaparecer na esquina. A noite estava limpa, vi que não ia dormir fácil com aquela história atravessada na alma e subi com ela lá pra cima do meu zigurate. Ali fiquei um bom tempo pensando nos caminhos e descaminhos dessa vida. Olha eu, Senhor, olha eu. Tanto sonho e aonde vim parar? Em cima de uma caixa d´água, perdido entre as estrelas, acuado entre a dor das coisas que não são mais e o medo daquelas que não são ainda. Nessa aflição que não sabe se é de aurora ou crepúsculo. Tanta luz naquele céu e eu não conseguia decifrar se na minha vida estava clareando um pouco ou escurecendo de vez.

Trecho de Agora Deus vai te pegar lá fora, do jornalista Carlos Moraes, livro que li há algumas semanas e que coçou devagarinho aquele vão entre o fígado e a alma que existe dentro de cada um. Chupa, Pinochet.

segunda-feira, 20 de junho de 2005

RELATO DRAMÁTICO DE UMA SUBVERSÃO DE PARADIGMA EM EXPERIÊNCIA ANTROPOLÓGICA FRACASSADA

Lá se vão alguns milhões de anos de quando aquele macaco jogou o osso pra cima e a música do 2001: Uma Odisséia no Espaço começou a ecoar pelos quatro cantos do planeta. Deduzo que Stanley Kubrick quis dizer que a música do Richard Strauss foi o primeiro hit que tocou por aí. Mas até esse domingo à noite, pelo menos, nenhuma ranhura rupestre fazendo menção a um top 100 da Era Paleozóica foi descoberta. Digo que, fosse eu um homem de Cro-Magnon nos dias atuais, deixaria para a posteridade nas paredes das cavernas a experiência que é assistir a um show qualquer de rock em uma reles cidade do interior. Sobretudo de bandinha cover. Sobretudo em Jundiaí.

Um fim de semana desses fui assistir ao show de um cover do Jimmi Hendrix, o que considerei uma experiência antropológica de vasto teor arquetipico. Junto dos nativos habituês do recinto, eu, esse candidato a Hans Staden musical.

Espalhados pelos cantos do ambiente, sobretudo as pilastradas, alguns trintões e quarentões vestidos de preto franziam a testa, com claro objetivo de parecerem maus. Na minha humilde visão antropológica, deduzi que fazem parte de uma espécie de roqueiro frustrado. "Eu não fui o roqueiro que achava que seria quando me olhava no espelho aos 15 anos. Logo, franzo a testa pra ficar com cara de mau". Ainda não compreendo essa relação, assim como não entendi essa fixação pelas pilastras do recinto.

Em grupos, de frente pra banda que ia tocar, os cabeludos e espinhentos de 15 a 18 anos. Melenas flertando com os quadris e aquela barba adolescente que ainda não é barba, e sim penugem. Camisas pretas fazendo referência a Ramones, Stratovarius Vision, Type O Negative e, é claro, Metallica. Mais clichê que isso, só avó dizendo pra não esquecer o guarda-chuva ao sair de casa.

E tem os fãs do Raul Seixas. Porque existe no mundo mais fã do Raul Seixas do que a aids e o refrigerente juntos, só pra usar uma expressão falconiana. Mas disso eu falo mais para baixo.

Quando todos estão devidamente entupidos de maconha barata e cerveja Cintra morna, eis que surge o tal cover do Jimmi Hendrix, que nada mais era um sósia do Vampeta, ex-jogador do Curíntia, com uma bandana na cabeça. Quando ele subiu no palco, o antropólogo aqui cometeu um erro grave, pelo qual a academia jamais me perdoaria: influenciei os nativos objetos de meu estudo. Em outras palavras, apontei o dedão pro ilustre e gritei:

- HEY, O JIMMI HENDRIX É O VAMPETA!

Umas dez ou quinze pessoas que estavam ao meu lado acharam simpático esse epíteto, e passaram a usá-lo com freqüência durante o show. E quando o nosso amigo terminou a interpretação vampêtica de Are You Experienced?, um coro se destacou:

- U, JIMMI PETA!! U, JIMMI PETA!! U, JIMMI PETA!!

No final, Jimmi Peta foi ovacionado pelo público, talvez como nunca fora em sua curta carreira de cover do roqueiro e sósia do Vampeta. Saiu aplaudido, porém, desconfio, desmoralizado. Apenas os quarentões com cara de mau continuavam encostados nas pilastas, catatônicos.

***

Pois bem, minha experiência antropológica pelo submundo dos shows de rock em Jundiaí não parou por aí. Quinze dias depois - esta última sexta - fui a um show de blues no mesmo local. Cheguei na metade e gostei do que vi, com exceção da estranha grande quantidade de pessoas com camisas do Raul Seixas. Até os quarentões encontados nas pilastras estavam com camisas do Raulzito, o que lhes conferiu um semblante ainda mais tristonho.

A resposta para tal fenômeno: após a banda de blues, uma banda cover de Raul Seixas, o que me fez sentir uma pontada entre o fígado e a alma. Não tenho nada contra Raul, mas certamente fãs de Raul sucks. E agora, eles iriam gritar "Toca Raul?" pra quem, uam vez que o show era sobre o próprio?

Foi então que eu, anti-antropologicamente, resolvi me vingar.

O guitarrista da banda, péssima por sinal, era exatamente o Kenny G. Não era parecido, nem tinha o ar similar: era o Kenny G. Ouso dizer até que era mais parecido que o Kenny G do que o próprio Kenny G. Foi então que, durante Ouro de Tolo, comecei a gritar:

- TOCA KENNY G!!!! TOCA KENNY G!!!

Poucos risos, muitas caretas para mim. Entre essas, alguns rangidos de dentes e até um "Filhodaputa" foi ouvido. Foi então que meus amigos elegantemente me convidaram para tomar uma Cintra morna lá fora, uma vez que "você é grande mas não é 75".

Mas eu já tinha me vingado. Gritam "Toca Raul!!!" até em velório; subverti o paradigma gritando "Toca Kenny G!" em um show cover do Raul de quinta categoria. Valorizei meu passe, embora minha antropologia tenha uma concepção muito particular.

Os únicos lá dentro que não deram bola para o "Toca Kenny G!" foram os quarentões melancólicos com suas camisas do Raul. Eles permaneceram lá, vis, impassíveis em suas pilastras. Como as pedras que choram sozinhas no mesmo lugar.