segunda-feira, 30 de abril de 2007

COMO SI FUERA ESTA NOCHE DE MARZO LA ÚLTIMA VEZ


Pá pá rá, pá pá rá rá rá rááááááá rá

Descobri algo da mais obscura relevância neste fim de semana: Ray Conniff já fez um show em Jundiaí. Muito mais que isso: fez um show na noite em que nasci, um domingo, 29 de março de 1981. Foi como se descobrisse que meu pai não é meu pai, ou que fui adotado, ou então que fui achado numa lata de lixo. Este fato mudou completamente minha concepção sobre Jundiaí, sobre Ray Conniff e, é claro, sobre mim mesmo.

Contou a mamãe Vives que foi ao hospital na manhã daquele dia ao sentir dores ligeiramente mais fortes. No hospital, o médico que acompanhou toda a minha gestação deu um tapinha nas costas dela e disse: "Dona Maria, vai pra casa brincar com as outras criança, vai. Se continuar doendo, a senhora volta".

Deu-se então que minha mãe voltou pra casa e, enquanto meu pai assistia um GP de Fórmula 1 - ele odeia Fórmula 1 - ela ficou lá, brincando com as criança, que porventura venham a ser meus três irmãos. À noite, comecei a beliscar a barriga dela e a morder com veemência o cordão umbelical, numa clara indicação de que pretendia sair dali de qualquer jeito - eu não lembro disso, mas tento aqui acrescentar algum glamour ao meu nascimento, me dêem licença.

Foi então que, ao chegar de volta ao hospital - meu pai é tão certinho que parou em todos os sinais vermelhos, para desespero da minha mãe -, eis que um novato surge e diz: "Sou eu quem vai fazer o parto". E assim o fez.

No dia seguinte, véspera do 17º aniversário da Revolução Redentora de 1964, surge no quarto do hospital o médico que havia sumido:

- Sabe que é, dona Maria, eu tava no show do Ray Conniff lá na Esportiva. Não dava pra perder, né?

Logo, tem-se o seguinte quadro: o médico que acompanhou todo o penar de minha mãe, que tinha toda a ginga e malemolência de um F. Vives dentro dela, não estava lá na hora H, com o desentupidor de pia em mãos, para me tirar de dentro dela. Estava é no clube, com uma cerveja na mão esquerda e o dedinho para cima, apalpando as ancas gordas de sua esposa com a outra, embalado pela melodia de Besame Mucho.

Depois dessa, passo a me considerar um ser transcendental, algo entre o Walter Mercado e o Reverendo Soares. Esperem de mim que eu salve o mundo ou, mais provável, que contribua para terminar de levá-lo ao buraco. Se me perguntarem qual o meu signo, respondo, batendo no peito: "Áries, com ascendência em Ray Conniff". Agora entendo aquela vez que transformei água em Cachaça Pitu. Sou um enviado divino.

O melhor de tudo é que descubro tudo isso meses depois de colocar esta singela fotinho do Ray aí ao lado, com a peruca em cor diferente de sua barba, com um poodle no colo. Depois da Ibrahim Sued, é o mentor deste blogue. Ou, como não cantaria Bob Dylan: The answer my friend, is blowing in Jundiaí, the answer is blowing in Jundiaí.

segunda-feira, 16 de abril de 2007

UM POST SÉRIO E OUTRO DA MAIS PURA FANFARRONICE

1) A sacanagem é roxa

Hoje um sujeito entrou numa universidade dos States, deu uns tiros, matou meio mundo e amanhã você vai (felizmente) esquecer da crise aérea. A notícia ruim é que a catástrofe de hoje vai pautar os jornais até que um novo evento deste porte ocorra. Ossos do orifício.

Lembro quando mataram o menino João Hélio. A direita se manifestou dando porrada na esquerda. Colunistas, blogueiros, jornalistas e jornaleiros, todos, até as capivaras de direita baixaram o cacete na esquerda. Motivo: o raciocínio que, segundo eles, é tipicamente esquerdista, que é compreender o assassinato dessa criança como um problema social.

Primeiro ponto, quem pensa deste modo é, de fato, uma anta inenarrável. Problema social é ser assaltado na Praça da Sé por um menino com uma faquinha de manteiga. Arrastar uma criança até a morte é delinqüência, e delinqüentes temos no Brasil, nos States, na Escandinávia, no Japão ou em qualquer outro lugar que exista polegares opositores e telencéfalos altamente desenvolvidos.

Eu disse faquinha de manteiga e repito: hoje em dia temos tanta razão em ter medo que uma criança pode assaltar você usando apenas um artefato deste tipo. Explico: na hora você vai titubear. Ele tem uma faquinha de manteiga, mas vai que tira do bolso uma bazuca dos Changeman... É melhor entregar a carteira logo de uma vez. Portanto, assalta-se ao se aproveitar do medo acumulado da violência que todos temos.

Porém, ao mesmo tempo, eu pergunto: quantas pessoas foram até a mídia dizer que o assassinato de João Hélio é um problema social, um problema advindo da omissão da classe média e afins? Muito poucas.

O que ocorreu em Virgínia hoje deve ter enfoque parecido naqueles jornalões dos States que estão mais à direita que a Nova Zelândia no mapa-mundi. Explico: sempre vai ter gente aproveitando o gancho para achar que isso é coisa de alguma preto muçulmano e bicha que tentou se vingar dos WASP felizes ("e ainda tinha gente que era contra a guerra no Iraque"). Foi assim com o atentado de Oklahoma, por exemplo.

Ou, como diria Roberto Baggio para si mesmo durante a decisão por pênaltis na final da Copa de 94: "O pior cego é aquele que não consegue enxergar". A lamentar.

--------

2) Tem gente que não bebe e está morrendo

Morreu a nadadora brasileira Maria Lenk, a primeira mulher sul-americana a participar dos Jogos Olímpicos (em Berlim, 1936). Nadava ela na piscina do Flamengo nesta manhã quando passou mal, o que a obrigou, a partir de hoje, a nadar nas águas da quarta dimensão.

Aí eu pergunto: quantas pessoas você conhece que morreram no bar? Não lembro de nenhuma. Aí a mulher vai dar suas braçadas matinais e passa mal (ela tinha 92 anos, é claro, mas isso não importa). É por isso que eu não pratico esportes, só bebo. Quem pratica esportes não imagina o risco que está correndo.

domingo, 8 de abril de 2007

OS MISERÁVEIS


Victor Hugo, o pai da criança, em pose de enxaqueca

Nada mais agressivo e arrogante do que um sujeito cético. Quando as coisas não dão certo, quando aqueles planos imaginados durante muito tempo vão pelo ralo, sempre aparece um que te assistia da arquibancada, com um sorriso amarelo, a levantar a plaqueta do "Eu já sabia". De um sujeito que é cético por natureza não se espera absolutamente nada além do ceticismo (e, por conseqüência, da frustração). Ele não constrói, apenas critica - com ou sem razão, tanto faz - quem tenta construir. E, quando não dá certo, ele vem soprar na tua orelha a arrogância absoluta do "Eu avisei".

Nunca li Nietzsche. Li sim, uma vez, um livro que explicava Nietzsche. Como não tenho a pretensão de me mostrar mais culto do que o real - isto aqui é apenas um blogue -, podem me corrigir se estiver errado: Nietzsche é de uma amargura inenarrável. Negava absolutamente tudo. O homem, para ele, era um mané em potencial. Nietzsche, Deus existe? "Morreu". Nietzsche, e o ser humano? "Um fracassado". Nietzsche, e a mulher do Wagner? "Uma vadia". Nietzsche, e o Curíntia? "Não tem estádio".

Imagino o menino Nietzsche ganhando um Ferrorama de Natal. Antes da mãe botar o peru na mesa, o rapazote já juntou os trilhos rumo ao abismo atrás do sofá. Quando a máquina se esfacela no chão, Friedrich acaricia o buço já volumoso e ri de própria miséria. É isso: uma máquina (foda-se a cacofonia) de Ferrorama aos pedaços atrás do sofá é um retrato de toda a teoria filosófica de Nietzsche (sou exagerado, nunca disse o contrário).

Digo isso porque acabo de reler Os Miseráveis. Nietzsche é o anti-Victor Hugo. O filósofo bigodudo transforma todos os sentimentos humanos em esterco, os bons e os ruins. O romancista francês vai amiúde entre os mais pobres, os rudes, os marginalizados e tira deles as mais sensíveis atitudes do bicho homem. É isso que eu queria dizer: Os Miseráveis é o que de melhor pode existir entre todos os sentimentos humanos. O pior dos homens guarda consigo a melhor das sensações, apenas não sabe como usá-los, porque a vida assim não permite. É o que faz de Os Miseráveis uma obra tão empolgante, tão cheia de vida e, por conseguinte, tão inesquecível: ela põe fé nas virtudes do ser humano em contraponto de suas fraquezas. Logo, acredita nele.

(alguém pode reclamar que estou colocando um filósofo e um romancista no mesmo barco, o que pode gerar distorções. E estou mesmo, uma vez que o que interessa aqui são os sentimentos humanos, e não a origem de onde elas são debatidas, seja no romance, na filosofia ou em qualquer outra área)

É aí que está a grande lição de Jean Veljean, o protagonista do livro. Eis o princípio do enredo: condenado a cinco anos nas galés (um sinônimo glamouroso de prisão) por roubar um pão quando faminto, Jean Valjean acaba preso por 19 anos, acumulados pelas várias tentativas de fuga. Ao sair, todos o repelem por ser ele um um ex-presidiário. É então que um padre bondoso o acolhe por uma noite. Asfixiado pelos calos das galés, João Valjean rouba os talheres de prata da casa de seu hospedeiro. Quando pego pela polícia, Valjean é levado até a casa deste mesmo padre, que diz aos policiais que a prataria não foi roubada, e sim que dera a ele. Quando soltam Jean Valjean, a lição do padre muda completamente sua vida e o transforma em um sujeito que leva ao extremo sua bondade e suas virtudes.

A hombridade talvez seja a maior das virtudes, porque dela vêm naturalmente muitas outras. Veja bem, quando falo de hombridade, não estou falando de chegar no bar, virar um litro de uísque e dar cadeirada em todo mundo. Não. Falo da macheza que independe do sexo da pessoa: aquele sentimento de se fazer a coisa correta na hora correta, por mais dolorosa que seja, e criar, cultivar e lutar por seus princípios. No fundo, é isso que fica. É o exemplo de Jean Valjean. É o que todos deveríamos seguir.

Sim, Os Miseráveis é um livro infanto-juvenil e contém todos os exageros e cacoetes que um herói pode proporcionar. Mas nada disso anula o âmago da questão: enquanto, por exemplo, Nietzsche rugia com os intestinos, Victor Hugo escrevia com o coração - e pode rir deste clichê. Que me perdoem os céticos e os patrulheiros da cultura excessiva, mas Os Miseráveis é um dos dez grandes livros que li na vida. Victor Hugo bem valheria um aperto de mão.

domingo, 1 de abril de 2007

OSSOS DO ORIFÍCIO

Domingo à tarde. TV ligada, Sbesteira insistindo no Domingo Legal. Na tela, videos caseiros de gente querendo ser famosa. Eis quando se apresenta uma morena de Porto Alegre:

- Oláááááá, meu nome é Fulana*, sou modelo, faço jornalismo, teatro e A-DO-ROOOOOO jantar.

Procurado por nossa reportagem, o jantar não quis prestar declaração.


*não gravei o nome da dita cuja, lamentavelmente.

quarta-feira, 21 de março de 2007

A MORFOLOGIA DA SINTAXE ENQUANTO GÊNERO GRAMATICAL E OUTRAS PATAQUADAS DO LÉXICO NESTE BLOGUE

Foi ao escrever o texto (teoricamente) jornalístico que escrevo toda semana que, ao final, uma sobrancelha minha se ergueu, calhando de me coçar a testa. Tal peculiaridade física é, no meu caso, sinônimo de estupefação. O assunto era bom, a causa era boa, mas o artigo ficou com cara de velhinha fazendo feira ao meio-dia, sob um sol saariano: ô dó. Faltaram duas coisas: tesão e vírgulas. Horror inenarrável.

Ocorreu-me então que tenho verdadeira comoção por vírgulas. Meu blogue por um aposto. Posso até escrever uma frase que, no fundo, ficaria mais fácil de ser lida caso não tivesse tantas vírgulas, mas, como de praxe, recheio-na com esses pontinhos que, intencionalmente ou não, dão a ela um ar aristocrático (e que, nesta frase que você acabou de ler, e que ainda está lendo, remete a uma crise de soluços, tamanha a quantidade de interrupções). Nada tão britânico quanto uma frase cheia de vírgulas, desde que, é claro, é sempre bom lembrar, as vírgulas sejam usadas com parcimônia, o que não é o caso deste parágrafo, conforme você pode perceber.

Minha adoração por vírgulas só tem paralelo ao estupor que me causa um travessãozinho matreiro ao fim de uma frase - mais ou menos como estou fazendo agora, só pra exemplificar. Esse travessão corresponde a um gesto involuntário que cometo em diálogos ao vivo e a cores: pego no braço do interlocutor quando quero acrescentar uma informação, ou então negar o que acabei de falar - e esta pegação é meramente sintática, não costuma ter conotação sequessual. Quase todos os posts deste blogue contêm estes travessões encerrando as frases - e o post abaixo deste é uma exceção.

Outra fator gramatical que, percebo, é abusado por mim, são os dois pontos para acrescentar uma informação: exatamente como estou fazendo agora. É batata: fucei a rodo neste blogue e não encontrei um mísero post que não contasse com informações colocadas após um intróito quase sempre inútil seguido por dois pontos. Este é o defeito que mais empaca texto, na minha modesta opinião: se você usar duas vezes os dois pontos muito próximos, em uma ou mais frases seqüenciais, tem-se uma quebra de ritmo brochante.

O fato é que, voltando ao primeiro parágrafo, faltou ao tal artigo o tesão e as vírgulas. Então percebi que ultimamente tenho que escrever cada vez mais rápido. As vírgulas são inimigas da velocidade. São como aquelas cabras que invadem as estradas de montanha e não deixam a gente passar, nos obrigando a fazer uma pausa pra curtir um outro ritmo, o ritmo delas. E quando você não tem tempo de curtir este ritmo? Passa por cima das cabras, é claro. Isso explica o meu desapego momentâneo às vírgulas.

Organizei então uma assembléia dos neurônios que cuidam do meu léxico. Em votação unânime, pediram a volta da pausa para respiração, da pausa para a reflexão e, conseqüentemente, da volta da utilização de vírgulas com parcimônia, como nos velhos tempos. É a esquerda cerebral, que ameaça com greve de sinapses caso as exigências não sejam cumpridas.

Porém, há o movimento oposto, o dos neurônios pragmáticos, que cuidam de outras funções e cuja facção no momento tem o poder. É como um neoliberalismo mental. Esta corrente pragmática é a mesma que me obriga a almoçar em dez minutos, a acelerar mais do que devia na 23 de maio, e não ir ao bar durante a semana para conseguir acordar no horário e, sobretudo, a fazer-me utilizar exclamações muito mais do que gostaria.

É melhor explicar. Odeio exclamações. Os pontos de exclamação são como cheerleaders de colégio americano no âmbito gramatical. Uma exclamação ao fim de uma frase é um pom-pom levantado, mãozinhas acenando, gritos histéricos para a arquibancada. Nada menos elegante do que pontos de exclamação. No entanto, a cada conversa minha por messenger, eis que me pego cada vez mais usando pontos de exclamação. O ponto exclamativo é o legado de nossa miséria gramatical, é a consagração do "blz" no lugar do antigo "beleza", ou a utilização do "flw" em vez do simpático e demodé "falou". Um "flw!!!!!!" como despedida no messenger dói mais que uma traulitada nos cornos.

O impasse prossegue. Mas, como diria Frank Sinatra para Tom Jobim momentos antes daquele famoso show em Nova Iorque nos anos 60: "Vai que vai".

----------------------

O assassino era o escriba

Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente.
Um pleonasmo, o principal predicado de sua vida,
regular como um paradigma da 1ª conjunção.
Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial,
ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito
assindético de nos torturar com um aposto.
Casou com uma regência.
Foi infeliz.
Era possessivo como um pronome.
E ela era bitransitiva.
Tentou ir para os EUA.
Não deu.
Acharam um artigo indefinido na sua bagagem.
A interjeição do bigode declinava partículas expletivas,
conectivos e agentes da passiva o tempo todo.
Um dia, matei-o com um objeto direto na cabeça.

Paulo Leminski

segunda-feira, 19 de março de 2007

TUDO O QUE VOCÊ NÃO QUERIA SABER SOBRE O CINEMA EM 2006


Tom Hanks, o pior cabelo do cinema dos últimos tempos

Ano passado desenvolvi o hábito de guardar o ingresso do cinema para, em dezembro, dar neste blogue um palpite xulo, rasteiro, estúpido mesmo, sobre cada filme assistido.

Já escrevi muito sobre filmes. Em quase todas as vezes, posteriormente, concluí que as abobrinhas me possuem quando falo - ui - da sétima arte. Aliás, sobre as outras seis também. Como não diria Roberto Justus: o importante é participar.

Escrevo estas linhas ao chegar do cinema nesta chuvosa noite de domingo. Abri a gaveta que sempre jogo os bilhetes e me perguntei: "Mas pra quê guardo essas tranqueiras mesmo?". Então me veio o estalo de que já passou da hora de postar os palpites.

É necessário ressaltar que há verdadeiras tranqueiras nesta lista (não dá pra ser muito criterioso ao escolher sessão de cinema em Jundiaí, por exemplo). O critério de avaliação são as azeitonas, copiado escandalosamente do falecido e-zine FEZE, que percorreu os e-mais da Cásper Líbero no início da década.

COTAÇÃO:

Cinco azeitonas - Sensacional, provavelmente com mulher pelada no meio e muito palavrão
Quatro azeitonas - Quase tão bom quanto Cine Privê
Três azeitonas - Vale o ingresso
Duas azeitonas - É melhor ler toda a Escola de Frankfurt no original
Uma azeitona - Se alugar, você é um imbecil


Eis os 21 filmes que vi em 2006 na tela grande:


MUNIQUE - Judeus e turcos são nomes diferentes de uma mesma raça que habita uma mesma ilha, o Oriente Médio. Sensacional, mas só eu gostei. Quatro azeitonas.

MEMÓRIAS DE UMA GUEIXA - A Televisa faria melhor. Era só substituir Kyoto por Acapulco, e a japa pela Thalia. Uma azeitona.

BOA NOITE E BOA SORTE - Jornalismo é legal e bem feito só no cinema. Quatro azeitonas por lembrar porque prestamos isso no vestibular.

SYRIANA - A conquista do petróleo supre a pequeninez peniana. Quatro azeitonas.

JOHNNY E JUNE - Roqueiro que, na decadência, fica chapadão e briga com a mulher. Mas tem algum que não é assim? Duas azeitonas.

CAPOTE - O filme é melhor que o personagem. O ator principal também. Três azeitonas.

O SENHOR DAS ARMAS - O revólver, assim como o petróleo de Syriana, compensa o pau pequeno. Quatro azeitonas.

O SOL DE CADA MANHÃ - O americano típico é um imbecil e de vez em quando os States assumem isso. Vale também pelo Michael Kane. Três azeitonas.

A ERA DO GELO 2 - Juro que não lembro. Só lembro que era pior que o primeiro. Duas azeitonas, de consolação.

BOLEIROS 2 - Todos os clichês do futebol. Chato. Uma azeitona.

INSTINTO SELVAGEM 2 - Não vi o primeiro. Não quero ver depois de assistir o segundo. Uma azeitona.

O CÓDIGO DA VINCI - Tão ruim quanto o cabelo do Tom Hanks no filme. Que roubada ele foi se meter. Duas azeitonas.

ZUZU ANGEL - Patrícia Pillar quase convence. Valeu o ingresso. Três azeitonas.

ARAGUAIA - CONSPIRAÇÃO DO SILÊNCIO - Também valeu o ingresso. O destaque negativo ficou por conta do casal que se estuprou ao meu lado. Três azeitonas.

XEQUE-MATE - Descompromissado e divertido (que comentário mais Guia da Folha. A lamentar). Três azeitonas.

DÁLIA NEGRA - Recordação dos filme noir. Detalhe importante: os personagens transam após beijos de três segundos, no máximo. A ser estudado. Menos bom do que o filme acredita ser. Três azeitonas.

O ANO EM QUE MEUS PAIS SAÍRAM DE FÉRIAS - Pra entender porque o futebol pode ser tão legal, mesmo quando futebol não é o assunto. Um dos grandes filmes brasileiros de todos os tempos. Cinco azeitonas.

OS INFILTRADOS - Qualquer coisa depois de O aviador ficaria bom. Mas é acima da média. Quatro azeitonas.

PEQUENA MISS SUNSHINE - Rir e chorar ao mesmo tempo. O grande filme dos States no ano. Cinco azeitonas.

007 - CASSINO ROYALE - A fina flor da nata do supra-sumo da essência da merda. O Costinha seria melhor James Bond que Daniel Craig. Uma azeitona.

quarta-feira, 14 de março de 2007

2º CASAMENTO É UMA PRAGA, DIZ PAPA

Concordo. E digo mais: o primeiro também. Ou como diria Nataniel Jebão: "Sou a favor do casamento. Eu e minha primeira esposa fomos felizes por 20 anos até sermos apresentados".

quarta-feira, 7 de março de 2007

CAPÍTULO DAS ILUSÕES GANHADAS, EMPATADAS E PERDIDAS

Vou começar falando de futebol, mas não é do futebol que eu queria falar.

Dia desses, li uma entrevista de um ex-jogador de futebol alemão. Não lembro quem, sinceramente. Era um famoso. Pra você que entende de futebol tanto quanto de cozinha albanesa, coloco o adendo: já disse o Jô Soares (uma das poucas frases sábias dele) que a Alemanha nunca jogou futebol. Eles jogam uma coisa parecida com o futebol, muito mais feia mas que, no final, dá sempre certo. E lá ficam aqueles olhos azuis, com a taça erguida, rindo da gente.

Os alemães e seus canhões são três vezes campeões mundiais, e, ao se comparar uma partida da Copa de 1954 com outra da Copa de 1990 (duas das três em que venceram), você vai notar que mudam os nomes dos jogadores, muda-se o preto-e-branco para o colorido, mas o incrédulo jeito germânico de jogar bola está lá, a mesma correria, as mesmas jogadas, 36 anos depois.

Disse esse ex-jogador que o grande diferencial alemão estava no coletivo, dentro e fora de campo. A partir dos anos 90, a Alemanha não ganhou mais nada. O motivo, explica esse ex-jogador (ainda vou lembrar o nome dele), é que a força alemã estava no coletivo. Mas o negócio, o business, mudou o futebol, tornou-o uma experiência muito mais individual para o jogador. Não vou dizer que mudou para pior, pois há coisas que melhoraram com isso. Mas certamente o romantismo, tão caro ao esporte, já morreu faz tempo.

Lá vem um tucano ali no fundo erguer o indicador a me acusar de nostalgia da esquerda que se perdeu com a invenção do anti-mofo. Não, ignaro. Explico com uma pergunta: a coletividade entrou em decadência. Mas e o indivíduo, não?

Comecei falando de futebol alemão, mas queria falar mesmo é da política francesa - e me perdoem pelas sinapses esquisitas. As eleições que ocorrerão em abril contrapõem a "socialista" Ségolène Royal e o centro-direitista Nicolas Sarkozy. Ela tem cara de rato morto. Ele, de lagosta morta. A pergunta que ecoa é: cadê o político francês, aquele que ensinou o mundo a fazer política? Cadê o De Gaulle? Cadê o sujeito que vai subir em um Citroën Deux Chevaux bradando algo que remeta, mesmo que de longe, àquela história da bandeira de três cores e tudo aquilo que a gente aprendeu lendo, ouvindo e se encantando desde Os Miseráveis? Séculos de filosofia acabaram num Segô versus Sarkô com um Le Pen correndo por fora?

A política, como o futebol - e como o leite - se pasteurizou. Pergunte para a Segô ou ao Sarkô qual a cor do cavalo branco de Napoleão que você terá, três semanas depois, uma vaga resposta através da secretária deles de número 5 - e, pode apostar, esta resposta virá por e-mail, cuja mensagem terá em seu cabeçalho: "Obigado por entrar em contato com nossa equipe".

É o jeito moderno, é o jeito Tony Blair de fazer política. Faça uma cara limpinha, faça um joinha para as câmeras, use sua Montblanc para assinar papéis. Mas aperte-lhe as partes pudentas com veemência pedindo, for God sake, um mísero conteudinho que seja. Não sai nada. Choca o fato de que o grande líder carismático dos últimos tempos seja o Bill Clinton, o sujeito cujo maior legado foi deixar uma mancha de virilidade no vestido da estagiária.

Mas não é só na política que nos faltam os grandes personagens. Bons nomes hoje existem na música, na literatura. Nomes fundamentais cada vez menos. E é comum entre os bons de hoje a desilusão com o porvir, a catatonia do "não há nada a fazer", ou então a masturbação do passado que remete a um presente que prometia futuros melhores.

Talvez o que eu esteja dizendo não passe um amontoado de clichês, mas já não importa. Os grandes homens vão deixando de existir por mera falta de exemplos. Não há o Jean Valjean de amanhã; procure o Fausto Wolff de 15 anos que você não vai achar. O Chico Buarque que (perdão pelo cacófato), apesar de você, achava que o amanhã seria outro dia mexe mais que o Chico atual, que apenas sonha que a neve gelava e que o fogo fervia.

Então, é ao olhar para a criançada do prédio, da rua ou mesmo da própria família, que, com o sorriso dos cínicos, você se pergunta se a desilusão deles será ainda maior que a sua, caso um dia disso se dêem conta. Afinal, com o derretimento da Groenlândia, são eles vão que pegar praia em Cubatão, só pra citar uma das conseqüências da vitória dos personagens medíocres que sempre deixam tudo como está.

Mas o provável é que digam simplesmente: "Mas a vida é assim mesmo". Vai saber quem serão os ídolos dessa gurizada. Como disse Ulysses Guimarães: "Quem cuida de coisas pequenas, acaba anão"*. Sabe-se lá quando a Terra vai ficar do tamanho de Mercúrio.

*frase reproduzida na CartaCapital desta semana, sem a qual talvez jamais conheceria a pérola.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

FODA-SE A NOUVELLE VAGUE


Antoãine Dáoanel: Pedala, emo

Quem porventura já desceu a Augusta nalgum sábado à tarde sabe do que estou falando. É só passar na frente de um café que lá estarão pessoas gritando "O Trufô! O Trufô!". É um processo mental. É no cafézinho na frente do Espaço Unibanco, é na loja de discos, é o pipoqueiro, são os mendigos da calçada, todos com os dedos em riste e as sobrancelhas exclamativas a gritar "O Trufô! O Trufô!". É uma histeria coletiva, a coqueluche dos cults.

Pois vou contar minhas duas experiências com a Nouvelle Vague, gênero do cinema que tem o tal Truffô no mesmo patamar em que o Cinê Privê tem a Emanuelle e seus coitos intergalácticos.

A primeira foi há alguns anos, com o filme Acossado, de João Lucas Godard. O filme começa com o sujeito fumando e dando uns tiros por aí, pra depois sair correndo. Alguns dirão: "Mas é só isso!? Você não captou toda a angústia do homem moderno!". Pois respondo: captei sim. Fiquei tão angustiado que, tendo o controle remoto em mãos, botaria a fita pra correr.

Mas continuemos. Ainda no princípio do filme, o protagonista encontra-se com uma mulher e ambos resolvem brincar de Adão e Eva num apartamento. Porém, ao que parece, um dos dois manda muito mal, porque, ao término, a dupla acende um cigarro e ambos fazem cara de coitado para a câmera.

Aí vem o lamentável da coisa: um deles diz algo como "Você não me ama mais". Pronto, tem-se o início de uma D.R. de mais de dez minutos em uma mesma tomada de câmera. Horror inenarrável. O fumacê domina o ambiente. Ele ou ela diz: "Mas você não era assim", ou algo do tipo, e os cigarros queimam. Ao fim dos dez minutos, meus pulmões já tinham tragado toda aquela nicotina cinematográfica.

Sugestão para quando fizerem um remake: com cinco minutos de D.R., entra o Alexandre Pires no apê cantando "Tô fazendo amor com outra pessoá...." em francês. Um pouco de showbizz tropical e tudo seria diferente.

Minha segunda experiência nouvellevaguística deu-se nesta semana com Os Incompreendidos, do Trufô. Os cults gritavam pela Augusta "Antoine Dáoanel, Antoine Dáoanel!". Pois tomei coragem e aluguei o dvd pra conferir, e vou-lhes contar quem é o figura.

Antoine Dáoanel é, antes de tudo, um sujeito que corre. Aliás, é impressionante a obsessão desses diretores por pessoas que correm. O acossado corria já no início do filme. Dáoanel, o menino protagonista incompreendido, corre o filme inteiro. A mãe e o pai brigam e o menino corre. O pai do amigo dele chega em casa e o menino corre. O professor mala o repreende e o menino corre. Dizem que o Nouvelle Vague é uma resposta ao Neorealismo italiano. Pois digo que Antoine Dáonel é uma resposta ao Abebe Bikila, o maratonista etíope que, à época, zoava os cara nas competições internacionais.

O moleque corre tanto e na mesma proporção em que o sono domina o espectador. "Mas ele corre pra se libertar!", grita o cult, ali no fundo. Sim, de fato, donde conclui-se que a questão primordial da Nouvelle Vague era a falta de uma São Silvestre em Paris.

Mas há coisas boas no filme, sejamos realistas. A companheira Caren Kunsolo declarou que, pra ela, a cena que representa todo o cinema é uma na qual moleques embasbacados observam um teatro de marionetes. Uma cena bonita, de fato. Mas, como o único objetivo aqui é a difamação, enumero três grandes momentos do cinema que passam ao largo da Nouvelle Vague e que, para mim, sintetizam a sétima arte:


- CINEMA PARADISO - O velho Alfredo (Phillip Noiret) xinga, da sacada, o Totó, o menino mala, que se vira para ele e grita:

- Alfredo: vai tomar no cu!


- STALLONE COBRA - Diálogo entre o Detetive Monte e o Marion Cobretti, o Cobra (Sylvester Stallone), com a fantástica dublagem de canto de boca do SBT nos anos 80:

Det. Monte: - Muito bem, Cobra! Vamos pegar esses caras, enchê-los de balas, fazer picadinho dos miolos deles!

Cobra: - Hey... sabe qual o seu problema? Você é um sujeito muito violento. Deve ser essa goma de mascar que você usa.



BONITINHA MAS ORDINÁRIA - Fala de Edgard (José Wilker), o mocinho, ao patrão Doutor Werneck (Carlos Kroeber) e o vil Peixoto (Milton Moraes):

- Escuta, Doutor Werneck. E você também, Peixoto. (olha para Werneck). Eu não vou me casar com sua filha. Não vou, não! E saio do emprego. Você enfia os 11 anos, Doutor Werneck, a estabilidade, tudo! E fique sabendo: sou um ex-contínuo, e o senhor, um filhodaputa! (num berro maior ainda) : SEU FILHO DA PUTA!

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

SE O DIRCEU DANÇA, EU DANÇO



Recebi uma carta acalourada na redação de SorryPeriferia. A remetente é a leitora e fã Henriqueta Corazza, que disse o seguinte:

Voluptuoso Vives,

tenho tido sonhos eróticos com sua pessoa. Admiro-te incondicionalmente. Imagino todos os dias essas tuas mãos, com essa tez semi-albina, a acariciar minha pele; sonho com o calor compartilhado por nossos corpos, um doce frenesí ao imaginar o contato de tua barriga de cerveja junto da minha. Muito poderia dizer sobre a tua beleza, a tua sapiência, a tua virilidade. Mas o que mais lhe admiro é, sem dúvida, a tua insofismável modéstia.

Baseado em tudo isso, pergunto-lhe: anistiar ou não anistiar José Dirceu?

Daquela te cobiça,

Henriquetinha C.

OBS: Em anexo, uma foto com meu robe de chambre favorito. Deleite-se.



Respondo para a simpaticíssima correspondência.

Cara Henriqueta, o negócio é o seguinte: independente de gostar ou não do ex-Sr. Richfield do Planalto, tem-se um quadro jurídico peculiar. O ex-deputado e ex-gordo Roberto Jefferson foi cassado por falta de decoro que, neste caso, significou acusar a existência de um esquema denominado Mensalão sem ter conseguido prová-lo.

José Dirceu, por sua vez, teve o mandato cassado por comandar o tal esquema do Mensalão que, veja bem, não foi provado que existiu, tanto que o ex-gordo e ex-deputado foi cassado por acusação sem provas.

Aqui vale um adendo: pouca gente, tanto da direita quanto da esquerda, acredita que o tal Mensalão não tenha existido. Só que, sem provas, ninguém brinca de mocinho ou bandido. Então dá-se o seguinte: se Dirceu nunca organizou Mensalão algum, foi condenado injustamente e fim de papo. Mas se Dirceu tem culpa no cartório, tornou-se um mártir por conta da cassação injusta, tal qual um Saddam Hussein.

A conclusão é que a cassação de José Dirceu foi uma aberração jurídica, possivelmente o maior absurdo da história do Congresso Nacional na Nova República, depois, é claro, do escândalo de compra de votos para a reeleição de Fernando Henrique Cardoso, há dez anos.

Independente de gostar ou não de Dirceu - tenho uma relação dúbia quanto a isso - o fato é que a anistia é necessária, já que a cassação foi, de longe, injusta. Me pego no direito de citar Kierkegaard para encerrar a questão: "Batuque na cozinha sinhá não quer, por causa do batuque eu queimei meu pé".


Sem mais,

Vives.


OBS: Cara Henriqueta: este decote primoroso formado pelas linhas do robe de chambre me causaram um estupor hormonal sem par nestas matas. Tens a minha simpatia que, como se diz, é quase amor.