terça-feira, 30 de janeiro de 2007

O IRMÃO ADQUIRIDO

"(...) Mas o que eu queria, na presente confissão, é contar uma experiência muito pessoal. Imaginem que, certa noite, meu irmão, Mario Filho apresentou-me a Carlos Heitor Cony. É exatamente a pessoa: - Carlos Heitor Cony. Jornalista, polemista, romancista, etc. etc. Eu já o conhecia de nome e de vista. Vira-o, uma madrugada, nos Três Patetas, junto ao balcão, e de cachimbo. Até o momento em que fomos apresentados, Cony era um cachimbo. Não uma pessoa e não um artista. Um cachimbo.

Bem me lembro da nossa primeira conversa. Eis o que eu pensava - que sujeito indesejável, irrespirável e cínico. Eis a palavra - cínico. Achei Carlos Heitor Cony de um cinismo abjeto e total. E não entendia por que Mario se afeiçoara a ele e tão profundamente. Dizia-me: - O Cony! O Cony!". Em suma: - com meia hora de conversa, já não tive a menor dúvida: - era um canalha. Seu riso me ofendia e me humilhava. Na primeira pausa, aproveitei para me despedir. Saí, desesperado e nem sei por que desesperado. Afinal, não tínhamos nenhuma relação especial, nenhuma intimidade. Mas sentia uma angústica intolerável, como se a simples presença de Carlos Heitor Cony exalasse o tifo, a malária, a febre amarela.

E quantas vezes, depois disso, Mario me falou de Cony. Sim, o meu irmão continuava achando o amigo um maravilhoso ser. Eu não entendia nada. Mas senti, sempre, sempre, que Mario ia ser, e para sempre, amigo do canalha. Até que, uma madrugada, às quatro e pouco, bate o telefone. Lúcia atende: - Mario acabara de morrer. Corri para vê-lo. Na véspera, tomamos café juntos, no bar da esquina. E ele combinara, para o dia seguinte, uma chopada com o Hélio Peregrino. Debrucei-me sobre o irmão. As mãos entrelaçadas e com que estremecido amor. Tive pudor de beijá-lo.

Bem. Quero falar, não de mim, mas de Carlos Heitor Cony. Chegou, na casa de Mario, às seis da manhã. Pára diante de mim, abre os braços, grita: - "Como foi isso?". O espanto veio antes da dor. Eu via, ali, um outro Cony, absurdo, irreal, jamais concebido. E, depois, ficou ainda, algum tempo, vagando entre mesas e cadeiras - tão órfão de Mario. Foi aí e só então que entendi que a amizade os unia. O irreal, o absurdo, era o Cony cínico, o Cony pulha, o Cony obsceno; o verdadeiro Cony é o da orfandade brutal. Vi-o desabar. Afundou o rosto nas duas mãos chorou alto, chorou forte. E, naquele momento, eu me tornei seu irmão, para sempre. Era, sim, o falso canalha."

Nelson Rodrigues, 25.06.1968.

sábado, 20 de janeiro de 2007

MORALES, O PRESIDENTE QUE PENSA "ÃO"



Confesso que desenvolvi um hábito masoquista. Não chego a pedir para mulheres pisarem com salto agulha nas minhas costas, mas é tão nefasto quanto.

Todo dia, ao acordar, pego o Estadão com o porteiro do prédio e subo de volta para lê-lo.

Diariamente abro na página três para ver os tiítulos dos editoriais, a malfadada opinião do jornal. Os títulos já são de uma agrura ímpar, sempre a alertar para a esquerdização da América Latina ou a burrice do presidente Lula. Todo santo dia eu dou uma risadinha marota e digo para os meus botões: "Hoje vou ler essa porra só pra dar risada da direita paulistana".

Invariavelmente leio e, ao término, sou consumido por uma raiva pitbulliana. Mastigo o jornal, abro a janela e grito a plenos pulmões: "CANALHAS!!!!!!!!". No dia seguinte, o ritual masoquista se repete. O porteiro já me olha de esguio ao entregar o jornal. Pelo andar da carruagem, em poucos meses, ao abrir a janela para o fatídico grito, moradores do prédio da frente abrirão os braços em comemoração, como seu eu fosse um Pica-Pau descendo as cataratas.

Pois veja você que nesta quinta-feira eu não precisei apelar para a janela, tampouco mastigar o jornal. Veja o que saiu no editorial do jornal que pensa "ão" (assim, com minúsculas):

"Só podem aderir ao Mercosul países que adotem o regime democrático. (...) Mas a Bolívia, assim como a Venezuela, não é uma democracia. (...) Esta semana, o governador de Cochabamba, da oposição, foi obrigado a se refugiar em Santa Cruz e o governador de La Paz recebeu um ultimato para acabar com suas veleidades oposicionistas. Os "movimentos sociais" controlados por Morales estão se incumbindo de extirpar qualquer vestígio de democracia no país, no berro e na marra".

Ao que parece, os velhinhos que escrevem o editorial não lêem o próprio jornal. Ou então, uma segunda hipótese: eles vão embora bem antes de o jornal fechar. Assim, às cinco da tarde, quando se esquentam os tamborins na redação para o fechamento, eles já estão em casa com o pijama em riste, aguardando a Marileuza, a empregada de cor, botar a sopa do jantar na mesa.

Digo isso porque no mesmo dia, no mesmo caderno, cinco páginas adiante, estupefação. Eis a manchete:

"EVO REJEITO MANOBRA CONTRA OPOSITOR"

Na matéria constava a seguinte história: o governador oposicionista da província de Cochabamba (uma das palavras mais gostosas de se pronunciar de todos os léxicos latino-americanos), Manfred Reyes Villa, foi expulso da cidade pelos manifestantes pró-governo de Evo Morales. Reyes Villa, da elite branca, é a favor da autonomia das províncias perante o governo. Em outras palavras, ele não quer se subordinar ao governo central, como uma província (ou estado) deve fazer em uma democracia. Cansado de ser chutado, o povão invadiu o palácio querendo servir os ovos de Reyes Villa feito codorninhas de tira-gosto. O branqüelo se mandou para Santa Cruz, principal reduto da direita boliviana.

Acontece que Evo Morales não aceitou a tomada de poder dos populares. O motivo: Reyes Villa foi eleito, então ele que cumpra seu mandato. "O vice-presidente boliviano, Álvaro García Linera, qualificou de "ilegal" o governo paralelo nomeado pelos manifestantes e afirmou que reconhecê-lo significaria um rompimento constitucional", é o que diz a matéria do Estadão. Em outras palavras, exatamente o oposto do que o editorial do mesmo dia do mesmo jornal declarou. A polícia acalmou os manifestantes, que se dispersaram, e Cochabamba vive uma calmaria de Jarinu.

Apesar do orgasmo moral que tive ao notar a falha, na verdade eu fico triste. Qualquer zé mané pode dizer o que quiser no jornal, o que acaba com ares de verdade absoluta. Para os editoriais do Estadão, Hugo Chavez, Evo Morales e, agora, o equatoriano Rafael Correa, são uma espécie de Eixo do Mal Cucaracha, na qual Chavez traz para si a aura do Stalin malemolente dos trópicos a influenciar os outros índios negros favelados a tomarem a bastilha tropical.

Chavez não é um exemplo democrático, é fato, mas tem lá o seu lado bom. Morales é muito melhor. E é curioso ver o jornal como o Estado servir como paladino da democracia, logo ele que, no dia 1º de abril de 1964, organizou uma chuva de papel picado por conta do golpe dos milicos que transformaram o Brasil nisso que é hoje.

Esses milicos hoje trocaram a farda pelo pijama. O mesmo caminho poderia ser seguido pelos editorialistas do Estadão.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2007

DISSOLVAM MEU PROZAC NA CURVA DA REPRESA BILLING



Antigamente, o sujeito que levantasse o dedinho e dissesse "Estou depressivo" era logo tachado de maricão. No caso das mulheres, a cidadã que contasse pros pais que era depressiva já tomava umas traulitadas na bunda, pra deixar dessas frescuras de gente rica.

Convenhamos, nos velhos tempos as coisas eram complicadas no que tange (sempre quis usar essa expressão) a questões psicológicas. Mas, ao que parece, atualmente a coisa radicalizou para o outro oposto. Hoje em dia não ser depressivo é tão fora de moda quanto usar gravata borboleta, o que, aliás, me lembrou de uma historieta que agora passo a contar.

Um amigo me disse que assistiu certa vez um filme trash em alguma dessas madrugadas em que o sono disputa com a solidão pra ver quem te aporrinha mais. Ligou num desses canais obscuros da TV a cabo que passava a tal película, com enredo futurista.

Era mais ou menos o seguinte: no Planeta Terra, num futuro distante, todos os seres humanos eram homossexuais e se reproduziam via laboratório. Só um sujeito, o mocinho do filme, era hétero, e justamente por isso ele era discriminado e preso. Se não me engano, o objetivo do mocinho no filme era ficar com a mocinha lésbica pero no mucho, provar que as coisas tinham se invertido e voltar a repovoar a Terra pelo método convencional.

Pois bem, não sei o desfecho do imbróglio - e tão pouco quero discutir a retórica do homossexualismo do filme -, mas perceba que não contei essa história de inversão de valores ao léu.

Nos dias atuais, entro no elevador do prédio onde moro e encontro aquelas velhinhas com pinta de serem simpáticas, avós que preparam bolos de cenoura pros netos no sábado à tarde. Mas basta perguntar um "Tudo bem?" pra ter como resposta um ultrajante "Vamos indo, né?", que nornalmente desemboca em frustrações de dores na coluna, preços abusivos de remédios, filhos que só visitam a cada 15 dias, o preço do condomínio que aumentou e outros assuntos que me fazem pensar em subir de escada na próxima vez.

Vejam só, são apenas seis andares do térreo até os meus simpáticos aposentos, seis andares onde padeço de uma imoral depressão alheia que me corrói por horas seguidas. Há uma velhinha em especial - juro que ela é a cara do peru da sadia - para quem me recuso a dar bom dia, tamanha a chateação a que sou submetido caso cumpra com a formalidade.

Mas veja só, esse não é um mal que aflige somente a terceira idade. Sinto cada dia mais que, em muito pouco tempo, vou sair na rua e me deparar com jovens caindo em depressão pelas sarjetas. Na padaria, pedir um pão na chapa será uma tarefa simpática demais para que você seja bem atendido. E o chapeiro então, com um ar de quem passou a madrugada ouvindo Smiths, lhe entregará um pão murcho borrifado com margarina light a te dizer: "Toma. É o que resta da aventura desta vida".

Veja bem, o que me aflige entre o fígado e a alma é esse culto ao depressionismo - adoro neologismos depreciativos. Cada dia mais vejo pessoas engajadas no ato de entristecer-se. Anotem aí: está perto o dia em que eu vou soltar uma gargalhada no bar e ouvirei na seqüência os sacripantas da mesa ao lado a me apontar e dizer, balançando a cabeça para os lados: "Que ridículo esse sujeito feliz".

Eventualmente acordo chateado, pois tenho, segundo último censo realizado no fim do ano, por volta de 6500, 6700 problemas pra resolver, o que me deixa nem abaixo nem acima da média do restante da humanidade. Mas ficar triste é, antes de tudo, chato pacas, e em questão de horas esqueço completamente que acordei com cara de fã de Belle e Sebastian. Simplesmente não entendo como alguém não pode ficar de saco cheio de ficar triste.

Pra resumir a história: pior do que velhinhas que reclamam da coluna no elevador é só gente com 20, 30 anos que reclama de tudo e adora dar uma afogadazinha marota nas lamúrias, por mais cretinas que estas sejam. Porque, quando passarem dos 60, vão olhar pra trás e dizer o quanto foram estúpidos reclamando de tudo. Aí sim é que terão motivos suficientes pra ficar triste.

terça-feira, 16 de janeiro de 2007

TUCANOS












* Fotos da Agência Estado publicadas no Yahoo! Eleições 2006.

** Sim, também foram publicadas fotos péssimos do Lula e cia. Mas essas você costuma ver na "grande imprensa".

sábado, 6 de janeiro de 2007

UM TEXTO COMPRIDO. NÃO LEIA


A baiana Maria Creuza sempre foi muito bonita, mais do que o visual dos anos 70/80 desta foto sugere

Existe um conto de Jorge Luis Borges que tenho na conta de uma das duas grandes coisas que li na vida - qualquer dia escrevo sobre as duas juntas. Está no livro Ficções, que talvez seja a melhor seleção de contos que a humanidade já produziu, de As Mil e Uma Noites até a Zíbia Gasparetto.

Chama-se Aproximação a Almotásin.

Sem entrar no mérito dos mil detalhes do conto, o enredo relata a história de um livro cujo amálgama (nunca achei que fosse escrever essa palavra) fala de um estudante de Bombaim que se esconde nos mais inóspitos rincões do interior da Índia. Imagine o fiofó da humanidade e seus rudes habitantes. É lá que está o estudante. E é lá, no meio de tanta pobreza e pusilanimidade, que ocorre o grande estalo na cabeça deste sujeito. Segue o trecho:

De súbito - com o milagroso espanto de Robinson ante a pegada de um pé humano na areia - percebe certa mitigação dessa infâmia: uma ternura, uma exaltação, um silêncio, num dos homens detestáveis. "Foi como se tivesse cruzado armas no diálogo um interlocutor mais complexo." Sabe que o homem vil que está conversando com ele é incapaz desse momentâneo decoro; daí postula que este refletiu um amigo, ou amigo de um amigo. Repensando o problema, chega a uma convicção misteriosa: Em algum ponto da Terra há um homem de quem procede essa claridade; nalgum ponto da Terra está o homem que é igual a essa claridade. O estudante resolve dedicar sua vida a encontrá-lo.

Borges é douto em embromation, gosta de jogar agulhas em palheiros, e você que se vire com suas conclusões. A minha conclusão deste conto é muito particular, mas não vem ao caso. O que eu queria dizer aqui é que lembrei deste conto na última semana do ano, por conta de uma música.

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Estupidez não é exclusividade de nós, normais. Também os gênios eventualmente miram a boca e acertam a testa.

Permita-me exemplificar: Tom Jobim e Vinícius de Morais escreveram Chega de Saudade, que chegou com um swing completamente diferente do que era conhecido na música até então. Depois dela, mudou tudo na música brasileira, e o que não falta é gente pra contar esta história.

Porém, há em Chega de Saudade um trecho da letra que não deve nada a Amado Batista: Há menos peixinhos a nadar no mar do que beijinhos que eu darei em sua boca.

Não negue, é levemente retardado. Lembra aquele pagodão dos anos 90 - Raça Negra? - cujo refrão era "não faça assim, meu querubim".

Pois bem. Antes do Natal, comprei um CD da Maria Creuza, que considero fácil como uma das três melhores vozes femininas da MPB e, provavelmente, a mais sensual delas.

Aliás, digo e repito: só toma catuaba ou viagra quem nunca ouviu Maria Creuza no fone de ouvido a cantar o Samba em Prelúdio, do Baden e do Vinícius, ou Onde Anda Você, do Vinícius e de um sujeito chamado Hermano Silva. Chupa, Pfeizer.

Mas não enrolemos mais: ouvia eu o CD de Maria Creuza, quando a faixa sete entra com uma melodia das mais bonitas que ouvi nos últimos tempos.

O arranjo da canção era um pouco tosco, um bolero apastichado, mas a voz da cantora é formidavelmente guiada pela melodia. Esta inunda os ouvidos de tal forma que amoleceria os sentimentos até do poderoso, insistente e aniversariante coma de Ariel Sharon.

Um bolero romântico, de letra simples, melodia que explora a voz da cantora jogando-a lá em cima, despenca tuas sensações para baixo, para depois aninhá-la no colo da canção, parte em que o ouvinte está irremediavelmente complacente com a desilusão da cantora.

O nome da canção: Tortura de Amor. O autor: Waldick Soriano, uma espécie de antônimo de Vinícius de Moraes no que tange a sensibilidade musical.

Se o tal estudante vivesse no Brasil, poderia começar sua busca por Almotásin ouvindo música.


OBS: Aproximação Almotásin, do livro Ficções.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2007

sábado, 30 de dezembro de 2006

SEJA MODESTO QUANTO A SUA FALTA DE TALENTO



Fim de ano requer retrospectivas. Não falo - ui - sobre aquela sucessão de clichês pseudo-poéticos que é a retrospectiva de fim de ano da Globo. Mas sabe como é, o ano termina, você olha com um sorriso amarelo pro seu presente de Natal (uma caixa de ferramentas, um jogo de panelas, essas coisas) e fica imaginando que, há muitos anos, você esperava aquele vizinho gordo se fantasiar de Papai Noel entrar pela porta. Você se fingia de surpreso com a presença e avançava no pacote que ele tinha em mãos, como se aquilo fosse a última camisinha do bacanal. Após minutos pensando em episódios do tipo, você chacoalha a cabeça, pensa que está ficando um tanto velho e automaticamente aperta o botão "recapitular fases da vida" no teu cérebro.

Hoje peguei-me lembrando da sétima série. Aulas de História. Professora Eliana, gorda, alta e de semblante divertido, com óculos quadrados que iam das sobrancelhas até as maçãs do rosto. Apelidei-a à época de Prof. Hipopó, em homenagem à bolacha recheada de mesmo nome, que tinha um hipopótamo simpático desenhado em cada unidade - não que ela soubesse do apelido, é claro.

Foi com a adorável Prof. Eliana que tive a descoberta mais interessante da minha vida escolar: um senador da Roma Antiga endoidou de vez e botou um cavalo como senador. Gostei da atitude caprichosa do tal rei. Lembro que disse em aula que, caso um dia fosse eleito imperador do Brasil, elegeria como senador o Pretinho, antipático pequinês preto do meu vizinho, que anos mais tarde morreria por complicações das hemorróidas.

Hoje creio piamente na saúde mental deste imperador romano. Aqui em Buenos Aires, Fernando Collor foi eleito senador na esteira de nomes fantásticos, como José Roberto Arruda e Marcelo Crivella, entre outros, que só não relincham por absoluta falta de modéstia.

Era uma questão de confiança, essa do Imperador de Roma. O Senado exigia alguém em quem ele confiasse. Se ele não confiava em ninguém, por que não seu cavalo? Na pior das hipóteses, o bicho seria discreto e não faria fofoca, o que já é um grande lucro em se tratando de conselheiros.

Mas falta de bons conselhos não é exclusividade de nós latinos. Veja os States, por exemplo. O presidente George WC Bush não tem amigos. Aliás, ele mesmo tem um semblante animalesco, semi-eqüino talvez (posso imaginar a quantidade de feno que ele tem que comer para fazer aquele olhar que só os idiotas sabem fazer enquanto discursam). Se ele tivesse um conselheiro razoável, este diria a ele para intervir nesse teatrinho não muito simpático que virou o julgamento do nosso Saddam Hussein - digo nosso porque Saddam é um cara durão, como este escriba, praticamente um brother.

O raciocínio é simples: Saddam preso manteria alguns sunitas masoquistas dizendo que estão com saudades do governo dele, nada além. Agora, Saddam enforcado por um tribunal patrocinado pelos States significa transformá-lo em mártir também de muitos árabes que não vão com a cara dos invasores brancos - Saddam já é mártir de nós, tuff guys, juntamente com o Jece Valadão, que já se foi por conta de uma parada cardíaca feminista qualquer.

Enforcado, Saddam vira sonho ideológico de uma quantidade exorbitante de jovens árabes que tiveram um primo, uma tia, um vizinho morto por um míssel made in America, e que antes não viam nada de muito instrutivo nele.

Enfim, nada que um pangaré bem treinadinho não consiga entender. Ou como diria Feuerbach: o pior cego é aquele que não consegue enxergar.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

O QUE É IMORTAL NÃO MORRE NO FINAL


Não, esses são Junior e Sandy, e não um casal de pôneis

Eu fico triste. Seria capaz de encontrar com Fernando Henrique Cardoso na rua e, ao invés de esbofetear aqueles agressivos lábios de suvaco, empapar-lhe os ombros por conta de minhas lamúrias. Efe Agá, meu bom Efe Agá, explico o motivo de minha desilusão: li no jornal que a ex-atriz e ex-virgem Sandy - lembra dela? Aquela uma que tem um hamster de estimação chamado Junior - fez um show com Marcelo Bratke, um sujeito que se diz de formação clássica, onde teria cantado de Villa-Lobos a Cole Porter e Gershwin. Enfim, como diria o locutor das propagandas da Sessão da Tarde, uma rapaziada da pesada que aprontou as mais altas aventuras na música do século passado, e que costuma estar em uma órbita espacial muito além do que a navezinha da Sandy consegue chegar.

Confesso que não dormi desde então. Fiquei perambulando pela casa a vagar pelo assunto com a lamparina na mão, tal qual Diógenes. Diz Marcelo Bratke: "Escolhi a Sandy por diversos motivos: primeiro, porque é muito afinada. Além disso, ela tem um timbre de voz muito interessante. Quando ela interpreta It's Wonderful, de Gershwin, a sensação que dá é que estamos na Broadway na década de 1930" (leia a matéria completa, escrita por um repórter conhecido como notória fanchona no meio artístico).

Apertemos a tecla SAP da hipocrisia: Bratke escolheu Sandy porque ela dá ibope. Sandy, por sua vez, escolheu Bratke porque este daria a ela a chancela cult e, talvez, porque o Junior se enroscou no pescoço dela e não quis mais pensar em nada.

É por isso que eu comemoro a existência de Reginaldo Rossi, essa grande figura que faz o que convencionou-se chamar, entre meu grupo de amigos, de MPBM - Música Popular Brasileira Mesmo.

Reginaldo Rossi adorava uma flertadazinha marota com o erudito. Na canção Gênio Cabeludo, de 1972, acho, o Rei Ginaldo relatava um sonho que havia tido com Beethoven, onde este dava conselhos a ele sobre como fazer sucesso. "Beethoven também era cabeludo, desligado e ainda surdo, mas foi um grande campeão". A canção até se inicia com o PAN PAN PAN PAN que está para a música do compositor alemão assim como a marreta biônica está para o Chapolin Colorado: é a marca registrada.

Em outra canção, A raposa e as uvas, esta mais lírica, Reginaldo Rossi usa a fábula de La Fontaine (descobri isso muito mais tarde) para contar dos tempos em que ele freqüentava bailinhos com o intuito de dar um tapa na peruca da mulherada. "E tudo que a gente transava eram três, quatro cubas, eu era a raposa e você era as uvas, eu dentro do teu corpete querendo pular".

Reginaldo jamais se deu ao trabalho de pretender ser mais do que era, um cantor popular, brega e divertido, por mais que usasse referências ditas "cultas" em suas letras. E ser um cantor popularesco não faz dele uma figura ilegítima da música, muito pelo contrário. Ele faz bem o que propõe.

Sandy já não. Estava tudo bem enquanto ela cantava a tradução da primeira menstruação de Celine Dion - Eu cresci agora, sou mulher, tenho que encarar com muita fé. Era o água com açúcar que cativava as adolescentes virgens que sonhavam com príncipes encantados, e os garotos de 14 anos evangélicos que sonhavam junto ao travesseiro um dia tirar a pureza da Sandy.

Mas Sandy cresceu. Dizem até que não é mais virgem. E para mostrar ao público que ela ainda existe, enfia as cordas vocálicas onde não deveria. No fundo, é a mesma estratégia da Britney Spears que, no outono do pós-sucesso, tenta aparecer na imprensa se casando em Las Vegas uma vez por mês.

À Sandy restam as sábias palavras do filósofo Walter Benjamin: "Quem nunca come melado, quando come se lambuza". Nunca é demais ser modesto quanto a própria falta de talento.

segunda-feira, 18 de dezembro de 2006

E ERA O SAPO DENTRO DO SACO, SACO CUM SAPO DENTRO, SAPO FAZENDO PAPO, PAPO FAZENDO VENTO



Gostaria de compartilhar uma observação científica absolutamente inútil.

Subia eu a Alameda Casabranca ao voltar do trabalho na noite deste domingo (poupem-me da piada marota de que estaria bolinando a rapaziada na calçada, por obséquio) quando, ao ouvir o coachar dos sapos dentro daquilo que - dizem - é um parque, o Trianon, tive um estalo acadêmico tal quando a famosa jaca pendeu na cabeça de Newton.

Explico. Não existem sapos num raio de algumas dezenas de quilômetros do Trianon, donde conclui-se que os anfíbios ali presentes o estão desde a criação do parque, lá se vão mais de 114 anos. É notório também que a quantidade de sapos existentes por ali não deve alcançar a casa de umas humildes centenas, todos cheios de lascívia a coachar com veemência para as fêmeas nestas noites suadouras de dezembro.

Aí me ocorreu a possibilidade de que todos essa sapaiada se acasalando entre si há mais de um século provavelmente gerou uma eugenia que deixaria Joseph Mengele orgulhoso. Deve ser um tal de comer a mãe, a irmã e a tia que Freud, Jung e outros punheteiros de renome se esbaldariam em teorias conspiratórias chatíssimas.

Por fim, gostaria de terminar este post a concluir algo profundo a respeito, mas não sou cientista, psicólogo nem nazista, donde conclui-se coisa alguma. Apenas gostaria de dizer que me aguçou a curiosidade de entrar neste parque para conhecê-lo, e isso mais uma vez não tem nada a ver com aquela rapaziada que fica mostrando a bunda na calçada, por favor. Se não confiam na minha proba sexualidade - sou um cara durão, um dos dos últimos machões à moda antiga - ao menos confiem no meu bom gosto.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

AS MELHORES RESPOSTAS PARA AS PIORES PERGUNTAS

14 de dezembro, data cabalística! Foi em um 14 de dezembro que Jundiaí foi fundada, foi em 14 de dezembro que nasceram Nostradamus, Malatesta e Michael Owen, foi em um 14 de dezembro que George Washington saiu da vida para entrar em uma notal de papel.

Em comemoração esdrúxula e absolutamente sem sentido sobre esta data que não quer dizer nada para ninguém - exceto, talvez, aos também falecidos filhos de George Washington, que por um bom tempo choraram as pitangas nesta data - deixo aqui um post publicado em outro 14 de dezembro, o de 2004. Preciso dizer que estou bêbado?

*Tudo o que você queria perguntar ao autor do blogue e que nunca mais vai ter coragem de publicar:

Pergunta: Como você é grande! Sua mãe dava fermento pra você quando era pequeno? Hahaha!
R: Na verdade eu nasci em Chernobyl. Eu era uma criança normal até aquele fatídico abril de 1986. Eu brincava no reator 4 da usina quando avistei um botão com os dizeres "не выдвиньте это". Só que eu nunca falei russo e apertei. Aí saiu um pozinho verde do reator e eu nunca mais parei de crescer.

Pergunta: Tanto tempo assim internado? Mas como você machucou seu joelho?
R: Foi na Guerra do Vietnã. Eu e os rapazes subíamos o delta do rio Mekong quando fomos surpreendidos por um grupelho de charlies mother fuckers. Tomei um tiro de UZI no joelho esquerdo que me rompeu o ligamento cruzado anterior. Passei um mês internado na Santa Casa de Hanói até ser transferido para a Beneficência Portuguesa, ali pertinho da 23 de maio.

Pergunta (no elevador): Tá calor hoje, não?
R: É verdade. Isso é ruim. Na última vez que fez tanto calor assim, os ratos começaram a sair da caixa d´água do prédio e invadir os apartamentos. Eu mesmo fui mordido três vezes ao tentar expulsar uma família inteira que tomou conta do meu bidê.

Pergunta: Mas então você é o caçula dos quatro irmãos? Aposto que é o mais mimadinho, não é? Hahaha!
R: Na verdade não. Eu fui adotado. Meu pai me achou numa lata de lixo lá no Glicério. Me levou pra casa dele, onde eu recebia comida em troca de trabalhos forçados. Não que me importasse em receber a comida por baixo da porta do porão no fim da noite, mas é que os cachorros estavam em maioria e acabavam comendo a maior parte.

Pergunta: É verdade que a Cásper Líbero é uma grande faculdade de Comunicação Social?
R: Mas é claro, por que a dúvida? Inclusive quando eu comprar um buldogão velho, faço questão que ele seja adestrado por certos profissionais da casa.