quinta-feira, 20 de março de 2008

SOBRE A IMPOTÊNCIA, NÃO A SEXUAL

Até um cachorro sabe que a gente sofre quando a gente vê alguém que a gente estima, e não estou preocupado em substituir os três "gente" desta frase. Aliás, os cachorros sabem muito bem disso, e vale uma historieta que não tem nada a ver com o que eu vou dizer até o fim deste post.

Lembro de quando era pequeno e comecei a jogar bola na rua com os outros moleques. Eu tinha uns 9 anos, era o maior deles, e também o mais quieto. Quase não aparecia. Jogava razoavelmente mal, só chutava de bico e, para aproveitar alguma coisa do meu tamanho, ficava na zaga trombando em quem vinha. Assim eu era útil. Nunca fazia nada certo, mas me orgulhava de não comprometer o jogo.

Até que um dia marcamos um "contra".

Explico: "tirar um contra" era jogo de seleção. Significava que o time da nossa rua ia enfrentar alguém de verdade e não dar caneladas em nós mesmos. No caso, o "contra" era com o pessoal da rua de cima. Até as velhinhas que ficavam na calçada reclamando da dor nas costas paravam pra assistir. Uma semana inteira falando do tal "contra" do sábado, o primeiro da minha vida. E, no sábado, algumas horas antes da partida, treinávamos correndo como loucos atrás da bola.

Eis que eu faço merda. Numa disputa de lance, peguei embaixo demais da bola que, impetuosa, subiu demais e atravessou o muro, caindo na funilaria do Seu Oscar. Era sábado à tarde, o Seu Oscar não estava, como não estava mais a bola do jogo, que agora estava na funilaria do Seu Oscar. Era a única que tínhamos, era a bola do "contra".

Rapaz, foi a primeira vez que sete ou oito moleques me cercaram pra apontar o dedo na minha cara. Eu encostei na parede e gelei. "Seu fiodaputa, agora não vai ter 'contra' porque você não sabe chutar uma bola, o pessoal da rua de cima vai ralhar da gente por meses" foi o que de mais sutil eu ouvi. Criança, quando quer ser cruel, o é até o talo. Achei que pegaria mal ir embora, então segurei com dificuldade o choro e fiquei sentado de costas para o muro, ouvindo a molecada descontar toda a frustração em mim.

Um tempo depois - parecia umas seis horas, mas acho que não foi nem uma - pediram para eu ir embora, já que tinha estragado o jogo. Lembrei que subi a rua e entrei na casa da vizinha. Afinal, meninos durões como eu não apareciam em casa chorando (minha mãe era capaz de reclamar com as mães dos outros moleques, e aí adeus reputação). Abri o portão da vizinha, sentei no chão e chorei todo um rio Jundiaí-Mirim.

Porém, na casa da vizinha tinha uma pastora-alemã que eu adorava, a Poena. Ela me viu e soltou um grunhido, algo entre a solidariedade e a desaprovação, abanou o rabo e me deu uma lambida na cara com toda a sinceridade desse mundo. Rapaz, como eu precisava daquela lambida na cara. Foi preciso que um cachorro me esfregasse a língua nas bochechas para que me lembrasse, na primeira vez em que fui escurraçado em vida, que eu não era tão desprezível assim. Isso me marcou tanto que até hoje lembro o resultado do jogo: 10 a 4 pra gente. Sim, o "contra" ocorreu, os moleques da rua de cima trouxeram uma bola. Eu não vi, estava sendo lambido pela Poena.

Voltando ao que eu queria dizer, é claro que dói na gente quando vê chorando alguém que estima. Porém, mais doloroso que isso é quando não vemos, só ouvimos. Passei por isso duas vezes essa semana e, rapaz, como deu. Pelo telefone, sem a imagem da pessoa a desatar o choro por conta de dores tão injustas, tão estúpidas, parece que a dor é mais funda, sai da alma dela, atravessa os postes na rua ou os satélites da Telefônica, entra no ouvido e bate fundo também na alma da gente. Nessas horas de dor profunda é que todas as defesas que a gente aprendeu na vida caem por terra. Fica só o choro límpido, desnudo, ali entrando no seu ouvido, enquanto você torce pra que uma Poena surja do outro lado da linha pra lamber essas pessoas.

terça-feira, 11 de março de 2008

LER É CULTURA: AS LEITURAS QUE SORRYPERIFERIA RECOMENDA

Os principais lançamentos literários da temporada que você não vai ver na próxima FLIP:

PREPÚCIOS DE UMA SAUDADE: DE JUDÁ A ISRAEL, UMA HISTÓRIA DA CIRCUNCISÃO NO MUNDO HEBREU. De: Doutor Muir Dickmann: Sagrado ou profano? Místico ou anti-higiênico? A obra do sociólogo e urologista israelense Muir Dickmann opera um interessante estudo sobre um dos maiores tabus dos descendentes do Rei Davi: a extração da fimose. Após extenso trabalho de campo, onde entrevistou mais de 1300 prepúcios israelenses, o doutor Dickmann desfaz mitos, aprofunda relações conturbadas entre judeus famosos e suas fimoses e revela detalhes até agora desconhecidos da urologia ocidental. Destaque para o capítulo em que o sociólogo expõe evidências de que o Gigante Golias não tombou com uma pedrada na costeleta, e sim em uma cirurgia tardia e mal realizada de circuncisão. Editora Baba do Sharon, 350 páginas. Preço sugerido: varia de acordo com o seu plano de saúde.

CAETANO: POR DENTRO DESTA VACA PROFANA. De: Kail Iwanna: Instigado por meia dúzia de garrafas de cerveja, o jornalista cubano-cangaibense Kail Iwanna escreveu este manifesto gigante, onde declara que o compositor misógeno Caetano Veloso é mais genial que Chico Buarque, Beethoven, Sófocles e as Facas Ginsu juntos. Após uma semana de entrevistas com o ídolo e algumas sessões sexuais depois, o apaixonado jornalista Iwanna entrou em fase depressiva, que gerou o truncado capítulo 78C, em que declara: “Quando a gente gosta, é claro que a gente cuida. Caetano falou que me ama, só que é da boca pra fora”. Editora Leãozinho, 7468 páginas de amor declarado. Preço sugerido: Meia dúzia de garrafas de cerveja em botecos da Bela Cintra.

VI, VIM E... ESQUECI: RONALD REAGAN, UMA MEMÓRIA. De: João Doria Jr. : Após cair no ostracismo junto com o Movimento Cansei, o modelo, manequim, ator, promoter e bom moço João Doria Júnior tenta uma nova manobra para voltar a ocupar as manchetes: escreveu as memórias esquecidas de seu ídolo Ronald Reagan. Como Doria e Reagan nunca se encontraram, o modelo, manequim, ator, promoter e bom moço apelou para um pai de santo – branco, de classe média alta e que realiza trabalhos no Jardim Europa, é claro – para entrar em contato com o ex-presidente dos States no Além. Apesar de ainda padecer do Alzheimer no post mortem, as conversas entre o republicano e o modelo geraram 180 páginas de riquíssimo material em branco. Destaques para os trechos em que Reagan esquece que foi ator de Hollywood e para a passagem em que o ex-presidente esquece que foi presidente norte-americano. Editora Fosfosol, 180 páginas. Preço sugerido: não lembro, mas tem desconto para quem tem a carteirinha da Farmácia Popular.

SorryPeriferia: humor negro mesmo é não fazer piada.

sexta-feira, 7 de março de 2008

INCIDENTE NO SANTA CECÍLIA



Alguns fins de semana atrás, ocorreu-me um fato de singeleza sem par nestas matas, compartilhado com alguns amigos à época: quase fui atropelado por um anão.

Descia eu a Avenida Angélica rumo ao mercado com uma sacola de feira sob as axilas quando, ao atravessar a rua Barra Funda, um Toyota Corolla verde se jogou pra cima de mim que, estupefacto, não tive tempo sequer daquele flashback tradicional, pelo qual toda sua vida passa em sua mente antes de morrer. Dois segundos e uma freada brusca depois, encontrei-me parado com o Corolla verde a 20 centímetros de meus joelhos. A sacola de feira suava. Dentro do carro, um anão sobre um banco especial, com toda uma família ao lado e atrás - e não lembro se a família era também anã. O sinal estava vermelho para ele que, distraído, seguiu em frente até o pára-choque beijar minhas rótulas.

Fino leitor, por gentileza, faça com que neste momento a construção da imagem em sua mente dê uma volta de 360 graus com a cena congelada, tal qual Matrix. De um lado, eu, 1.95 de altura, tão branco quanto um pudim de padaria. Do outro, o pequeno homem com o volante em mãos. Não se trata apenas de um quase atropelamento. São, na verdade, duas filosofias de vida antagônicas, duas visões de mundo opostas que, frente a frente, conheceram o outro sem entendê-lo. Havia ali, a um quarteirão do Teatro São Paulo, todo um choque de dimensões: o PP contra o GG.

Caro leitor, por favor, simule agora uma câmera em contre-plongée . No visor, eu. Eu, minha camisa branca e minha sacola de feira. Papetes, mas isso você não está vendo porque a câmera está em contre-plongeé. Quase dois metros de altura, cabeça achatada nos pólos tal qual a letra Ó na fonte Century Gothic (tamanho 14, procura lá no Word). Há ainda a papada maciça, os ombros que, na hipótese de adotar o espantalhismo como profissão, certamente serviria de ninho para uma meia dúzia de tico-ticos, e também a barriga de cerveja, há tanto tempo cultivada. É a personificação do excesso, do exorbitante, a ode ao hiperbólico, uma herança assustosa da Rússia Soviética stalinista.

Do outro lado (agora a câmera em plongeé), o pequeno e honesto homem, vítima da desatenção momentânea e, antes dali, de todo tipo de piadas, crendices e dificuldades que o cotidiano impõe à sua vida compacta.

Pois bem, caro leitor, perceba o cenário curioso que se formou naquela esquina. Havia ali uma chance em milhões, talvez só repetida anteriormente quando o pequeno Davi Cardoso enfrentou o gigante Ronald Goliás (peraí, confundi pornochanchada com trechos bíblicos. Recapitulando: quando Davi enfrentou Golias e o derrubou com uma pedrada na cabeça). E lá estava o nosso pequeno Davi de Lilliput em seu Toyota Corolla, com a pedra em forma de acelerador que poderia derrubar aquela pantagruélica figura na sua frente, justamente o tipo que mais o humilha, que o trata jocosamente, que cria factóides de baixa conduta moral - o oprimido sempre carrega dentro de si o opressor.

Se o minúsculo homem apertasse ali o acelerador, passasse por cima de mim, desse a ré, passasse de novo, engatasse a primeira para atropelar em definitivo, se tornaria instantaneamente o libertador dos diminutos, homologando assim a vitória do mundo moderno sobre o passado a ser esquecido. O futuro é compacto, reduzido, sensível. Estatelado na faixa da Barra Funda com a Angélica ficaria o velho, o demodé, este mundo vagaroso e descordenado dos gigantes. E então todas as pessoas pequenas poderiam desembestar rumo à vitória, tal qual a Yoná Magalhães na cena final de Deus e o Diabo na Terra do Sol, e sair sem medo de ouvir anedotas nas ruas, e adaptar o mundo às suas necessidades e esperanças.

No entanto, naquela troca nada erótica de olhares assustados entre o pequeno e o grande, quem se manifestou foi o último:

- Qualé que é, fera? Tá vermelho, pô.

Assustado, o pobre pequeno disse, com a voz que saiu embargada de sua garganta playmobil:

- Desculpa, seu moço!

Nossos olhares nada eróticos se descruzaram e terminei de atravessar a rua. Ainda assustado, acendi um cigarro existencial - eu que não fumo só acendo cigarros existenciais. Quantos anos mais teremos para conhecer o desempate desta peleja? Davi fez um a zero na Terra Santa, eu empatei numa esquina do Santa Cecília. O legado das piadas de baixo calão (com trocadilho) sobreviverá.

segunda-feira, 3 de março de 2008

UM POST REPLETO DE SIMPLIFICAÇÕES ÉTNICAS

Ao que parece, os mexicanos da Colômbia, os mexicanos do Equador e os mexicanos da Venezuela tão na maior treta. Tudo porque os colômbias entraram na plantação de bananas dos equadores e esfolaram a cara de um tiozinho lá que era mó temido pela rapaziada do society de Bogotá. Aí os xicanos colombianos acusaram o xicano-mor da Venezuela de liberar uma bufunfa marota pra galera que zoa os cara nas selvas da Colômbia, galera esta a qual pertencia o tiozinho que teve as botas batidas à força no Equador.

Posto o cenário, tenho algumas indagações de suma importância que levarei às autoridades competentes:

1) O mercado financeiro está preparado para um desaquecimento no comércio de bananas?

2) O Acre, sempre na hipótese de que exista, está preparado para abrigar provisoriamente o plantio, o feitio e a distribuição de drogas para o Mundo Desenvolvido?

3) Uma possível guerra regional pode enfim provar a existência de duas Guianas e uma Suriname ao norte deste continente?

4) Os mexicanos do Brasil finalmente poderão exercer a tão sonhada liderança regional financiando arcos, flechas e espelhinhos e know-how para os três exércitos vizinhos?

5) O povo do mundo desenvolvido finalmente vai saber qual a capital dos três Méxicos vizinhos e, talvez, do México do Brasil?

6) Em caso de guerrra, estariam os mexicanos do Brasil preparados para uma imigração em massa dos mexicanos desses três países, o que promoveria conjuntos de flauta doce em massa a cantar El Condor Pása nos metrôs de Buenos Aires, digo, São Paulo?

7) Qual a posição do cantor Luiz Miguel a respeito? Ele é mais equador, mais venezuela, mais colômbia ou, como um bom tucano, apenas diz que la distancia es el olvido, pero no concibe esta razón ?

Words, words, words, doubts, doubts, doubts. Já deixei meu LP do Trio Los Panchos de sobreaviso para o caso de guerra. Aguardo o desfecho deste imbróglio como si fosse esta noche la última vez.

Agora, acabar com as Farc é fácil. Quero ver invadirem Macondo.

domingo, 2 de março de 2008

A REVOLUÇÃO DOS BICHOS SERÁ TELEVISIONADA*

Gostaria de constatar aqui a existência recente de uma nova modalidade jornalística: o jornalismo de zoológico, ou zoo-jornalismo.

Explico já dizendo de antemão que não se trata de uma crítica, e sim de mera e simples constatação. Todo portal de internet, jornal ou revista de informação tem hoje uma seção, uma coluna ou quiçá uma orelhinha de página para falar de bichinhos. O urso Knut, que foi rejeitado pela mãe e que por isso mora no zoológico de Berlim - se não é essa a história, ao menos chega perto disso -, é provavelmente um fenômeno de mídia tão grande quanto a Sasha (pela chatice), o Elian Gonzales (pelo dó coletivo) ou o joelho do Ronaldinho (pela insistência). Se colocamos a chamada indigesta sobre a criança que, para vingar os antepassados, se explodiu na Palestina, ao lado mostra-se a foto do Knut todo meigão comendo um brócoli. E tem-se aí supostamente um equilíbrio que não poucas vezes descamba para o mau gosto.

Pois bem, o Knut está para o zoo-jornalismo assim como os Beatles estão para o rock: não foi ele quem inventou a coisa, mas depois dele tudo ficou diferente. O Knut invadiu as páginas de internet e agora qualquer capivara se afogando no zoológico de Budapeste já rende uma notinha. Não precisa ser no zoológico, basta ser bichinho. Se tiver foto então, pronto, já temos a capa do Folha Ciência.

Mas o fenômeno interessantíssimo desta nova vertente jornalística é que ela abrange várias outras vertentes jornalísticas. Já digo que são pelo menos quatro: o jornalismo social ("os pandas estão no cativeiro porque o homem quase os extinguiu"), o jornalismo científico ("cientistas tentam a reprodução artifical de pandas em cativeiros"), o jornalismo popularesco ("pandas não conseguem transar") e o jornalismo de celebridades ("casal de pandas flagrado em momentos picantes no zoológico de Ibiza").

A aparição do Knut na mídia foi tão grande que até filme em Hollywood o ursinho sacripanta vai estrelar. Se ganhar o Oscar, os órgãos de imprensa vão ter correspondentes especiais em diversos zoológicos do mundo. Tudo pela informação.

* Colaborou: Caio de Almeida Quero, enviado do SorryPeriferia ao zoológico revolucionário de Havana.

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

"Uma vez um escritor me ensinou que os males do homem ocidental são a insatisfação e o desassossego. (...) O desejo de fuga desde então me acompanha, em certos períodos ressurge, rompe os limites da vida, me impele para situações escandalosas, para crises sofridas, incômodas. Assim eu fugi mais tarde do ofício para mim designado, assim fugi de tempos em tempos do meu casamento, assim me envolvi em “aventuras” ao mesmo tempo em que fugia delas, assim me livrei de ligações amorosas, de amizades, assim fugi no início da juventude de cidade em cidade, de climas íntimos e familiares para climas desconhecidos, até que o desalojamento permanente se transformou em condição natural, meus nervos se moldaram ao sentimento de perigo, e numa espécie de “disciplina” artificial comecei, por fim, a trabalhar... Hoje também vivo entre dois trens, entre duas saídas, entre duas “fugas”; como quem nunca sabe para que aventura interior perigosa vai despertar. Habituei-me a essa condição. Foi assim que ela começou."

Confissões de um burguês, Sándor Márai.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

A CARNE É FRACA E O BOI NÃO LAMBE, POIS O BOI SABE A CERCA ONDE FURA*

Minha reputação já foi melhor, e este blog já teve mais a ver. Entraram neste hebdomadário virtual procurando por:

taradas.com

travestis jundiaí (6 vezes. Tá crescendo - ui)

vitor fasano pelado

victor fasano pelado

emanuelle a rainha da galáxia

silvestre stallone pelado

karen cunsolo

jorge lafond pelado

receita de picolé chicabom

jogador do são paulo corno (esse já é habitué daqui)

gêmeos do h

adriano na hebe

duas vaquinhas

senhor sofá

roupa para os coroinhas

rafael pilha

revista manchete 25 de fevereiro nudismo

----------

Segundo consta, um jornalista paraibano radicado nos Jardins teria digitado no Google a frase "Quero comer Fernando Vives". Porém - e felizmente - nada consta no BlogCounter sobre tal expressão. Mas deixo registrado aqui a aspiração do apedeuta que, no entanto, vai ter que manter seu ideário no campo das utopias.

* Falcão

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

UM ENCOSTO CHAMADO EDIR

Quem acompanha este humilde hebdomadário virtual há algum tempo - já são quase cinco anos de linhas tortas - talvez tenha notado minhas restrições quanto a Folha de S. Paulo. Gosto tanto da Folha quanto de catapora, é verdade. Mas entre a catapora e a sífilis, cedo minha cútis a quantas bolinhas vermelhas forem necessárias.

A sífilis em questão é a TV Record e, no caso, a reportagem do rodado jornalista Afonso Mônaco, ex-Bandeirantes e que atualmente se incubiu da estupenda tarefa de tornar-se o mastim napolitano de Edir Macedo.

Contextualizemos.

Igreja Universal chega aos 30 anos com império empresarial (só para assinantes do UOL) é a reportagem escrita por Elvira Lobato no jornal em 15 de dezembro último. A jornalista destrincha em detalhes aquilo que todo mundo já sabia: a Igreja Universal do Pedágio de Deus investe a bufunfa da rapaziada em jornais, gráficas, empresas de táxi aéreo, essas coisas. Só não tem meretrício na lista porque o Oscar Maroni ainda não aceitou Jesus em seu coração. Ainda.

Depois da reportagem, fiéis edirmacêdicos de vários cantos do país começaram a processar o jornal e a repórter por calúnia, difamação, mau hálito, unha encravada e o que mais der na telha. A moça não pode sair na rua que já toma um processo evangélico. Como diriam os bispos-empresários do Fala, que eu te Escuto: "A senhora, Dona Elvira, eshtá com encoshto" (o "sh" é só pra ressaltar o sotaque padrão do Rio, tão caro a eles).

Junto disso, o jornal O Globo também publicou matéria semelhante, onde chamava de seita a Seita Universal do Reino de Deus - o jornalão carioca nem chegou a fazer a tradicional piada do Seita-Cheque. E dá-lhe adêvogados entrando nas varas - ui - com o processo em uma - odeio este cacófato - mão e a bíblia na outra.

O curioso é que a Universal não admite ser chamada de seita. Mas não poucos adeptos da Universal tratam, por exemplo, o umbandismo como seita. É o mesmo raciocínio daquela piada do velho reaça inconformado que diz: "O seu filho é uma bicha louca. O meu, homossexual, homem do nosso tempo". Como se o homossexualismo - ou a religião - só é tolerado se for da gente, porque o dos outros é coisa do demônio.

E onde entra o Afonso Mônaco nessa? Entra nesta reportagem do Domingo Espetacular, também conhecido como o Fantástico Gospel:

http://www.youtube.com/watch?v=cASUtnqYUDc.

Às vezes encontro alguém torcendo para a Record tirar a hegemonia da Globo na TV. Eu só torço pra esse jogo acabar em 0 a 0, porque o mais bonzinho ali encoxa a vó no tanque. Sou mais a ErreideTV!, a TV que mais erra no Brasil. Entre Globo e Record, eu fico com as gengivas acinzentadas da Luísa Mel. O mundo dos cachorros é agnóstico.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

JORNALISMO É OPOSIÇÃO


Garçom, desce uma pro Adriano, por favor

Programa da Hebe, segunda-feira à noite. Discute-se o escândalo dos cartões corporativos no governo federal. Convidados: o jornalista da Opus Dei Carlos Nascimento, o mini-jornalista José Nêumanne e... Adriano Cachaça, centroavante do São Paulo. E pau no governo.

Bloco seguinte. Saem os jornalistas, mas o nível "jornalístico" continua ótimo. Entra a modelo Viviane Castro, que desfilou pela São Clemente com um tapa-sexo de quatro centímetros no carnaval do Rio. A polêmica era saber se o tapa-sexo caiu ou não caiu na avenida - a escola perdeu pontos por isso. Para falar do tapa-sexo estavam Hebe, Viviane e... Adriano Cachaça, centroavante do São Paulo. E pau na São Clemente.

Como já bem disse Millôr Fernandes: jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

OBAMA NAS ALTURAS


Babá e Dadá Maravilha

Desde os tempos do Kennedy contra Nixon (e lá se vão uns 50 anos) que não havia uma disputa tão malemolente pela poltrona da Casa Branca - aquela poltrona que dá direito ao botãozinho vermelho que explodiria meio mundo e também a uma estagiária que coloque a boca em partes específicas do corpo do presidente, conforme a moça da foto da coluna da esquerda, abaixo, bem poderia provar. Mas não estou falando das idéias desse povo aí não. Este é um blogue classe média alta. Esse negócio de discutir idéias é coisa de professor pinguço ou jornalista de esquerda. Eu, que abandonei o jornalismo e que vou me filiar ao DEM (demoníacos? demagogos? demiurgos?), só falo - ui - das aparências.

Hillary Clinton, por exemplo. Se na cabeça é uma tucana clássica, fisicamente se encontra no limbo entre Claudete Troiano e a petista Marta Suplicy, com a diferença de que não possui o gingado de sobrancelhas da ministra do turismo tupiniquim (uma sobrancelha dela olha para frente; a outra, alhures, como os olhos do Mathia Pascal, personagem do Pirandello).

Mas onde eu queria chegar mesmo era em Barack Obama, o irmão gêmeo 20 anos mais novo de Dario dos Santos, o Dadá Maravilha, atacante do futebol brasileiro entre os anos 60 e 80. A fotinho aí em cima não deixa mentir. Dadá Maravilha foi o primeiro grande auto-marqueteiro do futebol mundial, uma espécie de Goebbels negro e do bem do subúrbio carioca. Dizia ele que só existem três coisas que paravam no ar: o beija-flor, helicóptero e Dadá Maravilha. Taí um bom slogan para o Obama.

Outro ponto positivo da campanha presidencial americana é o republicano Mike Huckabee que, se é um sujeito toscão, ao menos tem senso de humor, conforme atesta este video (não coloco o Youtube indeed aqui porque estraga o formato do blogue no Firefox).

Portanto, já começo aqui a campanha para termos o mesmo padrão das eleições americanas de hoje nas nossas presidenciais em 2010: Celso Pitta enfrentando Marta Suplicy, com Wagner Montes correndo por fora ao fazer piadinhas na TV. Tudo pela integração global.