quarta-feira, 3 de outubro de 2007

O PAU-DE-ARARA MORAL

É estranho mas, quando doente - e, por consegüinte, entupido de remédios - urino em uma cor mais psicodélica que todo o David Bowie em 1972. E, falando em urina, queria falar sobre o Arnaldo Jabor.

Houve um tempo em que todas as colunas do Arnaldo Jabor no Estadão continham alguma pitada de sexo. Era uma ejaculaçãozinha aqui, um gozo ali, um prazer carnal encrustado nalguma frase sobre... o Congresso Nacional. Nada contra sexo, muito pelo contrário, ainda mais quando este vem nas páginas do Estadão - fico imaginando o Doutor Ruy a abrir o Caderno 2 e enrubecer por tamanha ousadia em seu próprio jornal. Na verdade o sexo ali é a parte boa, a parte ruim é que o ato vem acompanhado do Arnaldo Jabor.

Não sei se fui claro. Veja bem, há certas partes (o livro todo, na verdade) de Amor ao Natural, do Carlos Drummond, em que o leitor é tomado de um estupor hormonal sem par nestas matas. A Pfeizer poderia pintá-lo de azul e vendê-lo na forma de pílulas. Agora, quando você abre o jornal numa terça-feira pela manhã e dá de cara com o Krust do Jornal Nacional com arroubos de Lord Byron, a construção imagética tende a ser a pior possível.

Por exemplo: minha mente é varrida com a imagem de Arnaldo Jabor prestando uma homenagem a Deusa Onã em um banheiro minúsculo, fétido. Ele abaixa os suspensórios, afrouxa a gravata borboleta (imagino todo sujeito por quem nutro algum desprezo sempre de gravatas borboletas e suspensórios, como um Nhonho), bota pra fora sua parafernália sexual e trata de descabelar o palhaço. Uma gota de suor escorre-lhe pela testa. Suas axilas encharcam. E, perto do ato final, com o olhar sintilante, ele diz, sonhando: "Me beija, FHC".

Falei no Arnaldo Jabor mas era da Veja que queria falar - e que me perdoe o fino leitor, pois este é um post todo voltado para a escatologia. A edição desta semana da revista mais significativa do mundo desde que Joseph McCarthy deixou de emitir boletins com sua opinião tripudia sobre a morte de Che Guevara - eu poderia colocar o link para a reportagem aqui, mas não vou dar alguns cliques de lambuja para a revista. A reportagem toda já soa absurda - como é praxe na Veja, aliás - mas desta vez os editores e repórteres desceram ao esgoto. A revista conta que Che Guevara, diferente da imagem que passava, foi preso abatido e maltrapilho, tentou negociar sua vida com os algozes e - o filé mignon do texto - tripudia sobre o comportamento dele quando preso e torturado, subentendendo-o como covarde.

Veja bem, não sou do time que compra camisas com a cara do Che Guevara no shopping. Mas a bile correu solta. Fosse Che Guevara ou Adolf Hitler, é de uma imoralidade tacanha debochar de quem é vítima de tortura. Imagine se um estudante da Fefelete (desses com a camisa do Che Guevara, cabelo comprido e com um O Capital debaixo do braço) pegasse um editor da Veja e o pendurasse num pau-de-arara - imagino que muitos deles sonham em fazer isso. Então está lá o Eurípedes Alcântara de cabeça para baixo e bunda ao léu. Imagine também que o cabeludo da Fefelete cola um eletrodo no pipi do diretor de redação diretamente na bateria da Veraneio, que está ligada do lado de fora. Como será que o Vejudo reagiria? Opções: 1) Gritaria, tal qual um William Wallace da ultra-direta: "Perco o pinto para entrar na História!", ou 2) Imploraria chorando por sua vida, dizendo que faria qualquer coisa para pararem com aquilo.

Sim, é claro que existe uma diferença transcendental entre Che Guevara e Eurípedes Alcântara - o primeiro é, concorde ou não com ele, o símbolo de uma geração e de uma luta. O segundo é um cidadão comum que dirige uma publicação tão ruim que, imagino, até os cachorros dos assinantes evitam buscá-la no quintal no sábado à tarde. Mas é exatamente aí que eu queria chegar: sob tortura, não existem ídolos, não existem heróis. Mesmo que se delate até a própria mãe, ninguém é capaz mesurar a dor de quem é torturado.

Todo mundo sabe que o bom senso não é praxe na Veja. A revista hoje é referência menos por seu jornalismo que por seus descaminhos ideológicos. Mas a questão já está mais para a psiquiatria que para a ideologia.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

NÃO EXISTEM GAYS NO IRÃ



Mahmoud Ahmadinejad é um sujeito simpaticíssimo e machão - tão simpático quanto uma bomba atômica, é claro. Praticamente um Charles Bronson de burca. Declarou nesta semana, por exemplo, que no Irã, país que dirige, não há homossexuais. Nem um mísero e escasso viadinho. Sabe aquele seu vizinho quieto que tem um primo do interior chamado Tony? Então, lá não tem. Nem vizinhos quietos nem primos do interior chamados Tony.

O repórter Caio Quero teve a oportunidade de confirmar o que disse o viril Mahmoud quando foi cobrir um show de bandas indies em Teerã. Para quem não conhece, Caio é uma espécie de Zeca Camargo do Cangaíba. Pois nosso enviado percorreu os becos e bocas da capital iraniana e de fato não encontrou nada que remetesse ao homossexualismo. Aquela rapaziada que fica sem camisa na praça Voluntários de Alá durante a madrugada mexendo com os carros que passam, por exemplo, confirmaram que são todos héteros. Também o Mesopotâmia Desvairada Bar e Sauna, conhecido como o melhor banho turco do Oriente Médio, não tem o registro sequer de um mísero beijinho de bochecha entre seus integrantes.

Parece que houve um boato da existência de um homossexual perto da fronteira com o Turcomenistão, mas ele teria sido achado dentro da válvula de enriquecimento de plutônio da usina nuclear local. Foi uma forma de pedir perdão a Alá - porque, como se sabe, homossexualismo é coisa do demo.

Agora, sabe o que tem no Irã aos montes? Judeus. Aos borbotões.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

DUAS SOLUÇÕES DRÁSTICAS PARA O FUTURO DA NAÇÃO

Diz-se que todo marxista das antigas que se preze deve sempre ter o apontamento para a solução do problema, seja este a dívida externa ou a unha cravada. Se não der tempo de arrumar uma solução, ao menos um discursozinho tem que ser praxe.

Imagine a cena hipotética: o barquinho de um marxista de carteirinha afunda no oceano. Enquanto ele engole litros de água salgada e óleo – porque não existe mais água do mar sem óleo – um tubarão pinta na frente dele. No exato instante em que o bichão lambe os beições e a ele dirige um olhar de cobiça gastronômica, o marxista aponta-lhe o dedo na cara e diz, antes de ser devorado: “Você me come hoje, mas amanhã um japonês de pesqueiro clandestino há de vingar-me desta opressão”.

Confesso que sou tão marxista quanto a Patrícia Marx, mas adorei a idéia (nada contra o Karl Marx, muito pelo contrário, mas é que eu sou um burguês típico, lamentavelmente, apenas com um pouquinho mais de autocrítica que meus pares de Moema e Jardins). Para tal, passei os tempos em que sumi deste blogue meditando sobre o futuro da nação. Como um daqueles caras durões de filmes western, fui a um boteco fuleiro, bati com força no balcão, entornei uma dose de conhaque Presidente e meditei – chupa, Dalai Lama.

Ao término do ritual – dois minutos depois, um pouco mais, um pouco menos – achei a solução final para dois grandes problemas do Brasil - chupa Dalai Lama de novo. A boa notícia é que, se seguidas minhas sugestões, os jornais poderiam fazer o favor de estampar outras manchetes, porque essas já encheram minha humilde e mui sincera paciência:

CRISE AÉREA – Proíbe-se o avião no Brasil. Quem quiser viajar para o estrangeiro (adoro expressões de speakers do Repórter Esso), vai ter que ir até o Paraguai para tal. Veja bem, ir até o Paraguai compreende-se pegar aquele busão que um dia foi da Viação Cometa e que sai da Praça da República toda quinta-feira à noite rumo a Puerto Iguazu. Esse negócio de grooving passa a ser um problema exclusivo do General Lino Oviedo, que andou assassinando uns caras mas que agora tem tudo pra ser o presidente paraguaio de novo. Além de avião algum tentar mais parar no ponto da Avenida Washington Luís, a nova geração das Senhoras de Santana que pretendam fazer compras em Miami terão um free shops muito mais free, que é todo o Paraguai, conforme atestariam os japas coreanos do Stand Center. Nelson Jobim, sua besta, atente para o que eu estou dizendo.

CASO RENAN – Extingue-se o Senado Federal. Mas como o prédio do Congresso é bonitinho, mantemos apenas o Eduardo Suplicy ali dentro, que duas vezes ao dia cantaria Blowing in the Wind aos turistas gringos, que a ele jogariam umas moedinhas em contribuição ao Renda Mínima. Renan Calheiros poderia voltar para as Alagoas onde se tornaria garoto-propaganda da Schincariol, a cervejaria que, dizem, comprou a fábrica de refrigerantes dele a um preço superfaturado. Fica aí uma sugestão de propaganda: o Renan chega a uma birosca com pose de malandrão. Lá dentro, repórteres, procuradores-públicos e deputados tentariam fazer das bolas dele ovinhos de codorna de tira-gosto. Ele então abre uma Nova Schin e uma morenaça com decote vem para salvá-lo. Imagina quantas jornalistas de terceiro escalão o Renan não iria comer com o sucesso da propaganda.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

MATEM O BLOGUEIRO E CHAMEM O GARÇOM

Confesso que pessoas insistentes me aborrecem. Veja por exemplo o que me ocorreu na locadora no último sábado. Havia na prateleira o filme chamado Onze Homens e Um Segredo. Ao lado, a continuação Doze Homens e Outro Segredo, ambos que já tinha visto no cinema. Mas não contente com tantos homens e tantos segredos, eis que a Warner Brothers lança o Treze Homens e Um Novo Segredo, este último já praticamente uma fofoca, porque não há sigilo que agüente tanta gente e tanto rolo de filme assim.

Pois bem, caí na toupeirice de falar para o atendente que gostei dos dois primeiros, mas que não pretendia ver o último, no que ele começa um discurso tecendo loas ao estilo do filme e que, se eu gostei dos primeiros, teria que conferir o último no cinema e cousa e lousa e maripousa.

Pois confesso que a insistência da Warner Brothers e do atendente da locadora - um moleque de uns 15 anos com pinta de quem descabela o palhaço umas 18 vezes ao dia, ali na seção de filmes de baixaria - me fez refletir sobre o fenômeno da insistência humana enquanto erro, já diria um teórico de qualquer coisa. Por exemplo: não devo insistir em manter este blogue atualizado enquanto esta entidade mística chamada cansaço prosseguir apoiada em meus ombros, dando petelecos na minha orelha assim tão impunemente.

Há explicações, é claro.

Para os místicos, a interseção de Saturno com a Ursa Maior no meio das Três Marias causou uma massa de ar polar vinda do sul, o que tem causado chuvas e trovoadas a todos os jornalistas arianos com ascendente em tijolo - o legal do horóscopo é que o ascendente pode ser qualquer coisa, daí qualquer coisa se encaixar ao horóscopo de qualquer um.

Segundo um pragmático, as férias estão chegando, logo, o período que a antecede é sempre de cansaço, já que não se tira férias há muito tempo.

Para um psicólogo, no momento estou em um conflito edipiano deturpado, com inveja do falo da minha mãe e paixão por Freud.

De acordo com Chico Buarque de Hollanda, eu ando acendendo velas nos becos e falando alto pelos botecos, o que me impede momentaneamente de continuar a blogar. Mas, daqui algum tempo, mesmo o padre eterno que nunca foi lá, olhando este inferno irá abençoar.

Já para o meu lado empreendedor, me dedicarei agora a outros projetos, como os roteiros dos filmes porno cults Morte e Vida Cicciolina, Ditão Pé-de-mesa, o verdadeiro Mito da Caverna e o especial para zoófilos gays Confúcio e o bode na sala.

Segundo Fernando Vives, Pierce Brosnan, Clint Estwood, Kojak, Benício del Toro e outros caras durões, o melhor é deixar de frescura, dizer que não tá mais a fim de escrever por uns tempos e depois voltar, como tem ocorrido em todas as férias anuais que tiro deste hebdomadário virtual.

Portanto, voluptuoso leitor, este blogue pára por algumas semanas, talvez um mês. Ou, como diria o filósofo Evandro Mesquita: Falou, bróder, te vejo na 66.

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

PEQUENA HOMENAGEM

Há pouco mais de cinco anos, tive uma infecção crônica em um dos joelhos que só não me tornou deficiente físico talvez por conta da piedade divina. Passei 44 dias dentro de um quarto de hospital absorto por uma rotina de antibióticos, exames, cirurgias e a certeza de que provavelmente não voltaria mais a andar direito.

Nessas horas algumas coisas pesam. Durante estes 44 dias, por exemplo, minha mãe esteve internada comigo. Não quis dormir nenhuma noite fora do hospital, não admitia deixar o filho sozinho numa situação daquelas. Era ela quem me ajudava a tomar banho, a comer, a pegar a comadre durante a madrugada e qualquer outra coisa que eu precisasse. Não adiantava insistir para ela dormir alguma noite fora de lá, em casa ou em algum lugar mais confortável. Ela simplesmente não conseguia. Foram 44 dias em que minha mãe viveu junto comigo, emagreceu junto comigo, dias em que eu via as minhas olheiras de cansaço estampadas nas olheiras dela.

Dois anos depois, fui a uma consulta definitiva ao médico que me tratou. O diagnóstico foi de happy end de final de novela: recuperação muito acima da média, caso para relatar aos alunos dele na faculdade como "exemplar", segundo as palavras dele. Naquele mesmo dia voltei para a província. Confesso que não ligava mais para toda aquela história - uma das maneiras de deixar de pensar nas merdas que ocorrem com a gente é minimizá-las ao ponto de quase esquecê-las.

Em casa, lembro que sentei no sofá com uma caneca de chá ou leite na mão. Minha mãe estava sentada na poltrona ao lado. Entre outros assuntos, disse que tinha voltado ao médico e contei que ele se assustara com a recuperação tão boa. Lembro que ela só disse "Que bom", e imediatamente abriu a comporta de um rio de lágrimas que eu não imaginava mais que estivessem represadas ali dentro. "Se você soubesse o quanto eu rezei para um dia ouvir isso...", disse ela, soluçando, mas soluçando mesmo. Pelo que me lembre, minha única reação foi abraçá-la e não dizer nada. Acho que não teria o que dizer.

Antes do incidente do joelho, era normal a gente brigar, dessas brigazinhas bestas que pais e filhos têm todos os dias. Depois daquilo, nunca mais tivemos meio desentendimento.

Nesta terça-feira minha mãe fez 58 anos. Para comemorar, no sábado quis trazê-la da província para passear em São Paulo. Almoçamos num restaurante alemão e passamos a tarde juntos falando besteira. Me diverti bastante, mas o importante era que ela se divertisse mais. E ela voltou pra casa feliz. Minha mãe é uma pessoa simples que age muito mais com o coração do que a razão. É dessas pessoas que mantêm o otimismo latente mesmo quando tudo insiste em dar errado.

segunda-feira, 13 de agosto de 2007

terça-feira, 7 de agosto de 2007

ALÔ, CRISTINA?

Você assume que tem algum tipo de retardo mental quando tenta ligar de sua casa para o Rio de Janeiro e acaba ligando para a Líbia.

Besouro, quando cai de costas, não se levanta nunca mais.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

NILO AMARO E SEUS CANTORES DE ÉBANO

Há algumas semanas, escrevi um post sobre a canção Leva eu, Sodade, cantada por um conjunto vocal dos anos 60 chamado Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano. Mas isso foi antes de um rapaz deixar nos comentários a dica do imeem, onde posso subir as músicas e lincá-las por aqui. Agora que faço usufruto deste programa com toda força - e também porque passei o fim de semana a ouvir o LP do conjunto - posto a música:



Os Cantores de Ébano adaptavam o som gospel dos negros do sul dos Estados Unidos para o cancioneiro popular brasileiro. Quem ouve até acredita que o Mississipi e o São Francisco não são tão distantes assim. Foram relativamente populares no início dos anos 60 e chegaram a gravar até pelo menos o fim da década seguinte. Leva Eu Sodade, Uirapuru, Romaria, Mulher Rendeira, Asa Branca e Guacyra, entre outras, foram gravadas pelo grupo (o LP que ouço é de 1979 e a viola é tocada por um jovem chamado Almir Sater).

Através deste texto do Luís Nassif descobri que Nilo Amaro morreu em 2004, em Goiânia. Uma pena. Juro que tentaria contato para uma entrevista ou algo do tipo.

Em tempo: fazia parte dos Cantores de Ébano o Noriel Vilela, que ficou famoso com o samba 16 toneladas, que ultimamente tem sido presença obrigatória em festas de bom gosto com som eclético.

Mais sobre Nilo Amaro e Seus Cantores de Ébano: http://www.luizamerico.com.br/fundamentais-nilo_amaro.php

Letra de Leva eu, sodade:

Toada

Tito Neto / Alventino Cavalcanti

Sólos de Nilo Amaro e Noriel Vilela ( grave )

* * * * * * * * * * *

Ô leva eu

(minha sodade)

Eu também quero ir

(minha sodade)

Quando chego na ladeira

Tenho medo de cair

Leva eu

Minha sodade.



Menina tu não te lembra,

(minha sodade)

Daquela tarde fagueira,

Tu te esqueces,

E eu me lembro,

Ai, que sodade matadeira,

Leva eu,

Minha sodade.


Na noite de São João,

(minha sodade)

No terreiro uma bacia,

(minha sodade)

Que é pra ver se para o ano,

Meu amor ainda me via,

Leva eu,

Minha sodade.

( Ô leva eu )