domingo, 22 de julho de 2007

O REVERSO DA IMPRENSA TAMBÉM NÃO FUNCIONOU

Um dos filmes mais chatos que vi na vida foi Magnólia, aquele um que falava, entre outras coisas, sobre coincidências bizarras. O sujeito que se joga do terraço de um prédio e, ao passar pela janela do apartamento em que vivia, recebe um tiro sem querer da mãe ou do pai, que brigavam (deste ponto em diante o filme só tende a piorar, tal qual uma novela colombiana. Não alugue). A partir disso se constrói toda a filosofia das vidas dos personagens.

Lembrei disso no acidente de Congonhas desta semana. Um avião da TAM passa o limite da pista e se choca contra um prédio que é da própria empresa. A coincidência é bizarra mas não é única. Lembro também de João do Pulo, que sofreu um acidente de carro e perdeu a perna, a ferramenta que usava para trabalhar. Morreu amargurado e com problemas de alcoolismo. O tenor José Carreras sofreu leucemia e teve a voz afetada durante algum tempo - à época diziam que ele jamais voltaria a cantar. A vida às vezes não tem a menor graça.

Mas eis que o aeroporto de Congonhas é reformado e volta às atividades normais. Na segunda, um avião da Pantanal derrapa na pista. E, no dia seguinte, ocorre a explosão da aeronave da TAM.

Primeiro foi o Datena, na TV Bandeirantes, enquanto as chamas corroíam os destroços, a esgoelar que a culpa do acidente era do governo e da Infraero, que não haviam cuidado da pista como deveria. As pessoas mal sabiam o que tinha acontecido, e lá estava ele apontando o indicador.

Depois, todo o resto. A imagens dos parentes das vítimas ao receber a noticia da tragédia era de chorar junto da TV. E estas imagens eram intercaladas por comentários sobre a incompetência do governo e da ausência de Lula para comentar a questão. Todos, a Folha, o Estadão, a TV Cultura, a Miriam Leitão (alcunhada por José Simão de “economista de churrascaria”) no Bom Dia Brasil ao William Waack, que abriu o Jornal da Globo de quarta-feira perguntando o motivo de o governo federal não ter explicado as causas da tragédia passado mais de um dia inteiro.

Na quinta-feira, a própria TAM diz que a pista não teve nada a ver com o sucedido. Dois acidentes na mesma semana no mesmo aeroporto não passaram de coincidência, tanto como o fato deste avião da TAM que deixou o aeroporto e bateu num prédio da própria empresa. O governo não se manifestou porque não sabia o que havia ocasionado o acidente, e não tinha outra alternativa a não ser esperar. O Jornal da Globo deveria ter feito o mesmo. Não fez.

Veja bem, o governo não é tão defensável assim. É possível que a reforma em Congonhas não foi lá essas coisas. Pior: o lobby das empresas aéreas fez com que ela fosse concluída antes do previsto. O governo falha nesta questão e não é pouco, e deve ser cobrado por isso. Mas o acidente não foi culpa de Lula e de seus assessores, como foi amplamente divulgado por 48 horas seguidas pela imprensa.

A mídia se farta de reformas gráficas, de mudanças, de campanhas de publicidade. Porém, no fundo, a essência continua a mesma: jornalismo é como salsicha. Se soubessem como é feito, ninguém comprava mais jornal, nem lia revista, ou site, ou qualquer coisa do gênero.

domingo, 15 de julho de 2007

CAPÍTULO DAS VERDADES INEXORÁVEIS E MINIMALISTAS III

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.

João virou tucano, Teresa agora é lésbica,
Raimundo tornou-se porteiro no centro, Maria tem depressão da meia idade,
Joaquim morreu de cirrose e Lili está fazendo amor com outra pessoa, mas meu coração vai ser para sempre seu.

(Carlos Drummond e Alexandre Pires)

quarta-feira, 11 de julho de 2007

A GEOGRAFIA ATRAVÉS DOS MOTÉIS VAGABUNDOS

No bairro do Santa Cecília, ao descer a rua Martim Francisco, pode-se avistar a sacada do Hotel Bagdá, duas quadras antes do Hotel Nápoli que, por sua vez, está a dois quarteirões do Motel Montreal, na Apa. Todos estão a no máximo três esquinas do Hotel Edên, assim, com o acento errado no "e" errado, como se o léxico tivesse sido expulso do paraíso junto com Adão e Eva.

Não existe um Motel Jundiaí.

segunda-feira, 9 de julho de 2007

CAPÍTULO DAS VERDADES INEXORÁVEIS E MINIMALISTAS II

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.
Eu só fui campeão de futebol de botão da minha rua.
Bicampeão, aliás.
Fernando Pessoa, nem isso.

Chupa.

domingo, 8 de julho de 2007

NOSTALGIA DA MODERNIDADE

A adolescência é o período em que o sujeito convive atolando as frustrações na própria garganta mais que em outras fases da vida. Os mais velhos marejam os olhos ao falar de seus 15 anos, e se ouve falar todo dia o sobre o insofismável prazer de ser um adolescente. Porém, quando você tem 15 anos, reza toda noite para pular para os 18, talvez para os 25. Porque você é feio, ou porque lhe falaram que você é feio, porque você tem espinhas, porque você é péssimo ao escolher roupas, não entende nada de balada ou, provavelmente, porque você é um ser humano em formação e, portanto, cheio de defeitos - não que os adultos sejam perfeitos, muito pelo contrário. Defeitos estes que serão lembrados por seus semelhantes de sua idade, mais que por suas qualidades, porque eles tentarão a todo custo provar que são alguém, mesmo que para isso tenham que mostrar ao restante da humanidade que são melhores que você. Mas não se iluda, você não é vítima, é só parte da engrenagem, porque você faz o mesmo com outros adolescentes a quem crê piamente serem piores do que você. A adolescência é a arte de tratar a própria insegurança tornando o seu semelhante mais inseguro que você.

O ser humano é bicho e o bicho que vive em comunidade precisa de um líder. Todo mundo quer ser um líder de alguma coisa, e para sê-lo você precisa se justificar perante os outros, exatamente como age uma comunidade de babuínos. Triste é o momento em que um ser humano se compara a um babuíno. Porque, nas fases de euforia, o bicho homem só consegue enxergar o símio como um animal modorrento. É nas horas de angústia que você olha para a jaula do babuíno e o observa a descascar uma banana, descompromissado com qualquer coisa, e resmunga: “Esse filhodaputa é que é feliz, porque não tem o fardo da responsabilidade”.

Em algum lugar do passado, o homem e o macaco tiveram um ancestral comum, mas depois fizeram parte de galhos distintos da árvore genealógica. E então você se pergunta: “Eu peguei o galho errado. Tudo o que eu queria era estar descascando uma banana e caçando pulga na cabeça daquela fêmea da jaula 16, sendo observado por um idiota cheio de compromissos como eu”. Eis a derradeira decadência do mundo moderno: o homem foi à Lua, cravou a bandeira civilização para arder-se em inveja por seu parente selvagem distante.

Quando adolescente, você vai sofrer ao fazer merda, mas sempre haverá a válvula de escape da inexperiência, sempre haverá um consolo, um refúgio, uma rede de segurança ao cair do picadeiro. Mas e se você falhar quando adulto? E se você falhar quando não deveria, quem vai te segurar quando cair feito melancia da sacada um prédio? Então você vai ao limite para não virar esta melancia. Talvez você consiga. E se conseguir, no seu aniversário de 40 anos, alguém vai dar um tapinha em suas costas para dizer “Parabéns, meu caro. Você conseguiu. Passou boa parte de sua vida preocupado com coisas que não são suas. Mas a civilização é assim mesmo. Cravamos uma bandeira na Lua em nome disso. É o que nos destoa dos babuínos”.

Há alguma coisa muito errado nisso tudo, ou eu que estou completamente bêbado. Talvez uma coisa não exclua a outra.

segunda-feira, 2 de julho de 2007

CAPÍTULO DAS VERDADES INEXORÁVEIS E MINIMALISTAS

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, estou bêbado.

(não foi Álvaro de Campos)

segunda-feira, 25 de junho de 2007

O TRAVESTI É O LOBO DO HOMEM

Cheguei a São Paulo há pouco mais de seis anos. Era então um menino assustado com essas coisas de cidade grande. Pessoas estranhas, sujeira, barulhos, pombas mirando nas cabeças por todos os lugares. Fiquei três dias para o trote na faculdade e voltei à Província, onde passaria o carnaval. Na Quarta-Feira de Cinzas à noite, apoiei a mala nas costas, entrei no ônibus rumo a São Paulo e fui pensando nos caminhos e descaminhos dessa vida. Na capital passaria o resto da vida, teria que fazer inúmeros adaptações, deixar os costumes do passado e planejar coisas de gente grande.

Ainda remoía as dúvidas existenciais ao sair do metrô Marechal Deodoro, na escadinha que vai dar na Avenida São João, quando dou de cara com dois travestis de dois metros de altura - eles sempre têm dois metros de altura. Um confidenciava ao outro:

- Menina, vou te contar, esse carnaval eu cansei de chupar pau e dar o cu!!!! Foi uma loucuuuuuuuuuuura!!!

Ergui as sobrancelhas e caminhei em silêncio na direção de minha casa. Tranquei a porta do apartamento, respirei fundo e desde então nunca mais tive uma dúvida existencial.

sábado, 23 de junho de 2007

segunda-feira, 11 de junho de 2007

DE QUE CALADA MANEIRA A RCTV FECHA ASSIM SORRINDO


Hugo Chavez, em pose Nacional Kid


Perguntam minha opinião sobre a canetada do Hugo Chavez, que deixou o povo venezuelano mais triste por não poder mais assistir as novelas da RCTV no horário nobre. Na verdade ninguém perguntou porra nenhuma, mas eu precisava começar o texto de uma maneira glamourosa. Não me aborreçam.

Primeiro, a CartaCapital da semana passada (não está mais nas bancas, me desculpem) veio com quatro ou cinco matérias de fôlego a comentar a influência da mídia na Venezuela, no Brasil, na França e nos States. Não concordo muito quanto ao que diz o texto sobre a crise do Renan Calheiros - o senador que engravidou uma "maria emenda", versão política das "marias chuteiras" que infestam os treinos dos clubes de futebol - mas o restante das análises poderiam ser bem utilizadas nas faculdades de jornalismo.

A questão é a seguinte: Hugo Chavez sofreu um golpe de estado em 2002, que teve apoio descarado da RCTV (acho que não preciso lembrar o ilustre leitor de que golpes de estado não faz parte da constituição de país algum). Assim que prenderam o presidente venezuelano, a tal emissora teceu loas ao novo governo. Mas, por uma série de detalhes que não vêm ao caso, Chavez iniciou um processo de retomada do poder que durou algumas horas, período o qual a RCTV não deu um mísero escasso boletim sobre a situação política do país. E, após a retomada do poder constitucional, a emissora foi tão simpática a ele quanto um oficial alemão dos anos 30 era para um judeu.

Há algum tempo atrás, conheci no bar alguém que visitou a Venezuela recentemente - não consigo lembrar quem era, provavelmente eu estava bêbado. Essa pessoa (acho que era mulher. Já é um começo) disse que a dita rede transmitia jornais em horários nobres com entrevistas com psicólogos que tentavam provar que Hugo Chavez tem problemas mentais sérios, e daí pra baixo (ai do Lula se a Veja descobre essa tática...).

Logo, a fronteira entre fazer oposição e incentivar o golpismo foi ultrapassada há muito tempo. A RCTV quer derrubar o governo de qualquer jeito, e não se deve renovar uma concessão pública a quem não aceita um governo legal vigente e o combate como se fosse uma guerra. Como bem lembrou a análise da revista, se fosse uma emissora de TV dos Estados Unidos que promovesse um golpe militar, teria sua concessão cassada na hora, sem grande furor.

Hugo Chavez tem lá seus problemas. Herdou alguns defeitos de Fidel Castro, fala demais e dá clara indicações de que pretende permanecer no poder por muito tempo. Porém, é o que de melhor ocorreu na Venezuela desde os tempos em que Bolívar dançava merengue na fronteira com as Guianas.

Agora, que a imprensa brasileira ia baixar o cacete no cancelamento da concessão você já sabe, sobretudo os donos dos veículos de comunicação, através de seus jornalistas favoritos. Mas o mais absurdo de tudo isso é ver os Repórteres sem Fronteiras se declararem contra o cancelamento da concessão. Mino Carta sempre diz que o Brasil é o único país do mundo em que jornalista chama patrão de colega. Pelo visto, o editorial dos Repórteres Sem Fronteira corrige o jornalista, provando que, além de não estarmos sozinhos na proliferação da cólera, malária, tuberculose e grande elenco de problemas sanitários, fomos pioneiros também na globalização de jornalistas puxa-sacos.

sexta-feira, 1 de junho de 2007

A TÍTULO DE INFORMAÇÃO

Por gentileza - adoro expressões de falsa educação - alguém aí saberia dizer se é possível colocar links de áudio em blogue? Em caso positivo, como é que se faz? Quero enfiar músicas aqui até as gravadoras me atolarem em processos impagáveis. Só paro quando falir.

Ah, e não me refiro a algum sistema que toque a música logo quando o blogue é acessado (caras durões como eu não fazem esse tipo de coisa). Eu só queria botar a opção pra quem quiser apertar o Play mesmo.

Grato.