sexta-feira, 29 de setembro de 2006

OSSIÊ CRISTOVAM BUARQUE: I´M JUST A POOR BOY, NOBODY LOVES ME

A lábia do senador Cristovam Buarque (PDT) não é de se jogar fora, o que não quer dizer que ele consiga sair de seu mísero ponto nas pesquisas. Aliás, a pontuação dele nos ibopes da vida parece ser diretamente proporcional a sua capacidade de argumentação: Cristovam começou a campanha com 2% e, depois de dois meses de disse-me-disse no rádio, na TV e em todo lugar, caiu para um ponto. Pra quem só tem um projeto para a presidência - o de educação - tal pontuação não é rasa e não é funda, é apenas a parte que parece lhe caber deste latifúndio eleitoral. 

Cristovam tem um projeto de educação que, de fato, provavelmente ninguém tenha similar no país. Lembro que tomei contato com os projetos educacionais dele em uma entrevista que deu para a Revista Bundas lá se vão seis, sete anos. Eu, moleque de 18, 19 anos prestes a prestar vestibular e que vinha de uma escola pública que me obrigou a passar de ano, achei aquele careca de Brasília políticamente maneirão - porque fisicamente ele não faz o meu tipo, como todos os outros homens, aliás. O problema é que, com o passar do tempo, minhas sinapses se ocuparam de outras coisas que o projeto educacional de um senador do Distrito Federal, de modo que não me lembro dos argumentos que achei sensacional à época. Tinha algo a ver com a padronização do ensino no âmbito federal: Cristovam dizia que, se um banco estatal como o Banco do Brasil pode ter o mesmo atendimento em São Paulo e no Piauí, uma escola também poderia. 

O problema de Cristovam Buarque surge em todas as outras áreas: ele não tem projeto pra mais nada. Perguntaram para ele certa vez sobre suas intenções para melhorar o turismo no nordeste do país, e ele: "Precisamos elevar o nível educacional dos guias turísticos para atender os turistas melhor". Talvez algum desejo reprimido por alguma professora do ginásio explique a tara do pedetista - mas que fique claro, seria bom se outros políticos tivessem tal tara. 

A política econômica dos sonhos de Cristovam Buarque é de tirar a fome de um etíope: ele já disse mais de uma vez que ama de paixão o Pedro Malan, ex-ministro da Economia de FH e office-boy dos grandes bancos, chegando a declarar, nos tempos de presidência tucana, que, se eleito em 2002, Lula deveria manter a equipe econômica anterior - aquela uma que atolou o Brasil numa baita crise de populismo cambial às vésperas das eleições de 98, paralisando o país por quatro ou cinco anos. 

Logo, apesar de conseguir certa fama de bonzinho, Cristovam Buarque não é exatamente flor passível de uma fungadinha. E a insistência monotemática na educação e a pouca atenção destinada a ele pelos adversários me faz lembrar daquela música do Queen, Bohemina Rapsody, cuja uma passagem dá título a este post. Any way the wind blows.

segunda-feira, 25 de setembro de 2006

DOSSIÊ HELOÍSA HELENA: A HIPÓTESE DE, ESTANDO NO INFERNO, ABRAÇAR O CAPETA

Mistura de Garoto Enxaqueca com Beth a Feia, Heloísa Helena construiu a carreira política na base do corpo-a-corpo com as camadas mais marginalizadas da população, o que é bom, e na base de frases feitas, o que é ruim. Sempre se disse a favor do calote da dívida externa, da queda acentuada dos juros e da reforma agrária ampla, que são propostas da esquerda clássica, mas também adora uma conversinha de tiazona católica papa-missa, que não poucas vezes ultrapassa o limite do conservadorismo joãopaulosegúndico. Não pode ouvir falar em aborto, por exemplo, proposta básica das feministas que normalmente simpatizam com a esquerda. Quando candidata à prefeitura de Maceió em 1996, tentou processar a candidata rival, Kátia Born (PSB), por "conduta sexual inadequada" - reza a lenda que Kátia gosta que a chamem de Vantuir. Naturalmente, a processada foi a própria Heloísa Helena, que também tomou nabo no pleito - no bom sentido, é claro. 

Mino Carta define a candidata do PSOL como udenista. Faz sentido. Quando da cassação de José Dirceu no ano passado, um avalanche de discursos moralistas da oposição invadiu o Congresso, geralmente vindos do PSDB e do PFL. Mas entre estes estava a senadora HH. Não digo que Dirceu seja inocente, mas não havia meia prova contra ele para que fosse cassado, apenas a suspeita. Foi uma cassação política, caça às bruxas, um vexame republicano. O discurso de Helena pedindo a cabeça do petista foi digno de um Carlos Lacerda, de mera promoção política, quando um sujeito sensato votaria contra a cassação por falta de provas. 

Enfim, falta a Heloísa Helena profundidade e escrúpulos - eu ia dizer que falta estrógeno, mas isso seria maldade e portanto não vou fazer. A favor dela, é bom dizer que há gente boa no PSOL, e que o voto nela seria ao menos um sinal de protesto. Ou, como diz aquele sambão do Nelson Sargento: "Nosso amor é tão bonito, você finge que me ama, eu finjo que acredito".

DOSSIÊ SORRYPERIFERIA DE PRESIDENCIÁVEIS

                                        José Serra: "Meus assessores lêem SorryPeriferia" 

Há coisas realmente inesquecíveis em uma campanha eleitoral, e não é do rabo de cavalo do Osmar Lins "Peroba Neles" que estou falando. Veja, por exemplo, a sabatina que a Folha de S. Paulo - eleito o melhor jornal do mundo por uma convenção de marmotas com retardo mental do Vale do Jequitinhonha - realiza todo pleito (que palavra feia essa, pleito). O negócio tem lá o seu glamour, pois a tal sabatina nunca está solitária nas linhas do jornal - sempre conta com a companhia de ao menos um adjetivo pomposo como na expressão "a já tradicional sabatina de presidenciáveis", usada a torto e nunca a direito. 

Embora queira também dizer "debate", sabatina é uma palavra que costuma delegar algum poder a uma das partes envolvidas. Por exemplo: uma professora sabatina o aluno, o mestre o pupilo, o chefe os empregados. Mas a soberba folhuda é tão magnânima que o jornalão se dá ao luxo de sabatinar os candidatos à presidência da República, como se ela fosse, assim, porta-voz da sabedoria, senhora de todos os segredos do jornalismo, a Mister M da nação - a sabatina folhuda é nada mais que uma entrevista coletiva com o candidato realizada por jornalistas da casa. 

Como SorryPeriferia é um blog a serviço do Brasil, também ousa fazer coisa parecida com os quatro principais candidatos pleiteantes a sentar no trono do Planalto e na privada do Palácio do Alvorada. Não uma sabatina, já que o editor dele não é mãe de candidato, mas uma espécie de, aproveitando o gancho de momento, dossiê da candidatura de cada um. 

As Eleições 2006 prometiam ser as mais chatas desde que houve disputa pra eleger o síndico da primeira caverna coletiva de cro-magnons. Mas a tal compra do dossiê que não provou nem que José Serra é careca deu certa malemolência tropical à disputa, que andava em ritmo de Corcel 73 na Bandeirantes. 

Amanhã, neste espaço, um perfil de Heloísa Helena, a maior defensora de frascos e comprimidos da eleição. Nos dias seguintes, Cristovam, Alckmin e Lula, na ordem que me der na telha. 

SorryPeriferia: não dá para não ler. E você nem precisa da senha do UOL para isso.

segunda-feira, 18 de setembro de 2006

HOMEM É HOMEM, MENINO É MENINO, MACACO É MACACO E VIADO É VIADO

"(...) As afirmações de Freud escandalizavam cada vez mais o meio médico vienense e foram a razão por que vários de seus colegas abandonaram a Associação Internacional de Psicanálise. O principal motivo do escândalo era o modo desenvolto como Freud divulgava seu pensamento ainda mal acabado sobre o problema sexual das crianças, que ele afirmava serem sujeitas a desejo sexual e que o objeto desse desejo freqüentemente eram os próprios pais. Além do complexo de Édipo, em que o filho deseja sexualmente a mãe (na tragédia grega desse nome, Édipo se casa com sua mãe, sem o saber), Freud admitiu também o Complexo de Eletra, como a inveja que a menina tem do pênis do menino, e chamou a criança de um "perverso polimorfo". Distinguiu na sexualidade três fases pelas quais passa o seu desenvolvimento: as fases oral, anal, genital, que normalmente se sucedem nessa ordem, mas com casos de regressão e fixação. Sua reputação sofreu ainda mais quando publicou em "Fragmentos da análise de um caso de histeria", as perversões sexuais de uma jovem cliente, - na ficha médica "Dora" -, sem a sua permissão". 

quinta-feira, 14 de setembro de 2006

SONHOS

SONHOS 

Isto deveria virar uma seção fixa deste hebdomadário virtual. 

1. Sonhei que andava por um pântano desconhecido quando uma mosca branca gigante, do tamanho da palma da minha mão, horrenda, passou a zumbizar em meu ouvido. Dei-lhe umas traulitadas nos cornos e uma voz ou algo do gênero veio me dizer que eu tinha acabado de matar o deus das moscas, e que isso acarretaria mudanças profundas. Fiquei assustado, achando que todos os mosquitos do mundo iriam tentar se vingar de mim, e uma sobrancelha se levantou em preocupação. Imagine, nunca mais uma noite de sono bem dormida, logo eu que durmo 12 horas e reclamo porque preciso de mais. O fato é que as moscas na verdade tinham uma semelhança profunda com o candomblé e outra religiões africanas: ao invés de tentar a vingança, elas passaram a me adorar como o novo deus delas. A esquete sonífera termina comigo andando rápido tentando me desvencilhar da horda de moscas que me seguiam pelo pântano, assim, como seu eu estivesse fedendo. Acordei com três picadas de pernilongo. 

2. Sonhei que estava trabalhando à noite, como sempre faço, quando recebo um telefonema da Polícia Federal me convidando para trabalhar com eles. Um amigo - não sei quem - tinha me indicado, assim, como se trabalhar para a PF fosse jornalismo, onde se indica seus amigos. O problema é que no dia seguinte bem cedo eu teria que embarcar para a cidade de São Paulo de Olivença, no Amazonas, fronteira com a Colômbia, para fiscalizar o tráfico de drogas e a pesca ilegal de tilápias - aposto o dedo mindinho do meu office-boy Felipe Mucosolvan Corizza que não há uma só tilápia em todo o Amazonas, até porque deve ser peixe de mar (eu sempre como tilápia na praia). O sonho termina com meus pais procurando itinerários de ônibus urbanos em São Paulo de Olivença para que eu conseguisse chegar até os locais de trabalho sem maiores dificuldades. 

Como diria Aristóteles: é sonhando merda que se aduba a mente.

quarta-feira, 13 de setembro de 2006

Teresa era uma bela menina de dezoito anos que bebia, cheirava e gastava muito de dinheiro, pois seus pais eram ricos. De farra, decidiu ter uma filha, que chamou de Maria. Logo cansou-se do bebê, passou-o para os pais e foi viajar pelo mundo. Sentindo-se indesejada, Maria passou a irritar os avós, embora ela mesma não visse nada demais no seu comportamento. Quando fez oito anos, os avós a mandaram para outra filha no Rio de Janeiro. Esta, professora, casada com um rico homem de negócios, ficou muito contente, pois era infértil. Logo, porém, Maria começou a trocar os pés pelas mãos, a dizer coisas na hora errada, a atrapalhar a vida do casal de meia-idade. Antes de remetê-la de volta aos avós, os pais-tios da menina levaram-na a uma psicanalista. Esta não demorou muito para descobrir que Maria era uma bela menina, absolutamente normal e que apenas se sentia rejeitada, pois nunca fora amada por ninguém. Maria adora ir à psicanalista, que a trata bem. Outro dia, jogaram um jogo de cartas infantil - Maria tem dez anos - e a médica permitiu que Maria ganhasse todas as partidas. Num determinado momento, disse à menina: 

- Mas você é uma craque mesmo, hein, Maria? 

A princípio, a garotinha espantou-se. Depois olhou profundamente nos olhos da psicanalista até convencer-se de que ela falava sério. Então deu um largo sorriso e exclamou: 

- Eu sou uma craque mesmo, não é verdade? - Alçou os braços e começou a dançar pelo consultório - Eu sou uma craque. 

Ao fim da sessão, deu um beijo na psicanalista e, com lágrimas correndo pela face, pediu: 

- Será que a senhora poderia dizer para a titia que eu sou uma craque? 

Imagino que as crianças que pedem esmolas à noite pelas ruas sofram mais do que Maria. Por outro lado, a dor é incomensurável. Quando dói na gente, dói mais que todas as dores do mundo. Qual será a circunferência da dor de uma menina rejeitada prestes a ser abandonada? 

A Milésima Segunda Noite, Fausto Wolff.

domingo, 3 de setembro de 2006

O MOVIMENTO ESTÁ PARADO

Se você acreditou naquela teoria do Super Homem que o alemão bigodudo dizia, lamento informar que o Super Homem nunca veio. Era um devaneio de um sujeito que queria comer a própria irmã. O mais próximo a que chegamos do Super Homem foi o Christopher Reeve, que já morreu. 

Um tal de Diógenes certo vez saiu andando com uma lanterna acesa em plena luz do dia. Disse ele que queria iluminar o primeiro Homem que surgisse em sua frente na Grécia Antiga. Homem na essência da palavra. Mas ele não viveu pra ver a luz elétrica nem o shopping Frei Caneca, então o sentido do que ele queria dizer ficou entalado no porão da História. 

A guerra purifica a raça humana, pois só os mais fortes sobrevivem. A teoria do Humanitismo. Se dois grupos humanos atravessam uma plantação de batatas suficiente apenas para um deles, os dois grupos deverão se degladiar. Ao vencedor, as batatas. 

Ao vencedor as cabritas. Uma espécie de cabra das montanhas que vive no fiofó do mundo tem muito mais machos que fêmeas. Como estão mais valorizadas, na época do acasalamento, as cabras sobem correndo as montanhas mais altas e perigosas. Os machos se desembestam atrás. Alguns cansam e desistem. Outros caem e morrem. Outros não suportam ao frio. Mas sempre tem um que consegue chegar ao topo, no meio da neve, com quase nada de suas forças. E lá a fêmea enfim cessa seus caprichos e copula com o que dele restou. Como é humana a cabra das montanhas. 

O homem não possui instinto social. O homem é o lobo do homem. O homem busca sempre a vingança. É o único meio d´ele conseguir a superioridade ante o rival. O maior sofrimento que o homem pode ter é ser desprezado. 

E agora, uma foto de um homem passando o protetos solar em um porco: 

quarta-feira, 30 de agosto de 2006

TUDO QUE LHES PROMETI SERÁ COMPRIDO


Nos anos 20, a atriz Mae West, dentro de um decote que deixava seus seios brigarem entre si por espaço, dançava entusiasticamente com um rapaz empolgado, quando a ele perguntou: 

- Meu caro, você está com um revólver no bolso ou está tentando dizer que me ama? 

Cai o pano.

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

AS DEZ MELHORES CANÇÕES DE CHICO BUARQUE

Quem trabalhou na Abril ou simplesmente foi criado lendo coisas por lá editadas acaba acostumando a ranquear tudo que aparece pela frente. Talvez este seja um costume pra lá de ridículo, mas é apenas mais na minha lista de costumes ridículos. 

Tentei organizar uma lista das músicas do Chico Buarque que mais gosto - eis como aproveitei meu domingo, o que considero muito bem aproveitado, diga-se. Separei apenas as músicas que considero sensacionais, excluindo as que ganharam a classificação "muito boa" para baixo. Fiquei com 27 em mãos, o que é só mais uma prova da genialidade do moço que ganhou o clichê "Ninguém entende as mulheres como Chico Buarque" como uma de suas boas definições. 

Eis o resultado: 

10) CONSTRUÇÃO (1971) - Fosse pra eleger as melhores músicas do Chico, essa provavelmente formaria uma trinca junto de Apesar de Você e Roda Viva. Mas como a lista é sobre as que eu mais gosto, entra em décimo lugar, porque é artisticamente impecável, mas não apaixonante como outras. Todas as frases da canção terminam com uma palavra proparoxítona de três sílabas. Essas palavras se alternam nas três partes da música, formando uma construção poética e musical de forte impacto. Como se não bastasse, é a história de um pedreiro que se achava importante demais em sua construção. Só que, ao cair da obra, ele morreu na contramação atrapalhando o sábado, grande lição sobre a relatividade da importância da própria vida. Coisa de gênio, sem dúvida. E fica ainda melhor agregada com Deus lhe Pague no final, relatando o desencarnar da alma do pobre coitado. 

9) GENI E O ZEPELIN (1977-78)- Canção para a peça Ópera do Malandro. Conta a história de uma secretária da beira do cais (pegou o eufemismo?) que dá para rigorosamente todo mundo. Mas eis que chega um zepelim disposto a destruir a cidade, que é um horror (sempre imagino Cubatão como cenário). O comandante, um sujeito boa pinta, desce e diz que só não vai explodir o local se aquela formosa dama lher servir. Essa dama é a Geni. Só que ela, que dá pra todo mundo, não se empolga com o sujeito, o que em muito explica o clichê do Chico realmente entender as mulheres como ninguém (isso é uma provocação, não joguem tomates na tela do PC). A cidade, que sempre joga pedra na Geni, vai aos prantos pedir pra ela passar uma noite com o sujeito. Ela cede aos apelos, mas no dia seguinte todo mundo volta a ralhar com ela. Uma crônica fantástica sobre a porção filhodaputa que mora nalgum canto dentro de todos nós. 

8) JOÃO E MARIA (com Sivuca, 1977) - Agora eu era o herói, e o meu cavalo só falava inglês, cantava Chico e Nara Leão. A melodia medieval composta pelo Sivuca mede a exata sensibilidade de letra de Chico. Um casamento perfeito, como o daquelas duas crianças do enredo da história que brincavam de rei e rainha, contada pelo narrador relembrando os tempos de nostalgia perdida - o tempo passou e ambos nunca mais se viram. Mulheres costumam se desmanchar com essa música. Chupa, Lionel Ritchie. 

7) ATÉ O FIM (1978) - Quando eu nasci veio um anjo safado, um chato de um querubim. Uma versão musicada do gauche da vida do Drummond, muito mais bem humorada. Vai ao fundo com o jargão "quando chove merda não garoa", já que nada dá certo para o protagonista. Mesmo assim, o jeito é continuar. E ele vai até o fim. Inesquecível. 

6) CAÇADA (1972) - Pouco conhecida, o que é uma pena. Foi composta para o filme Quando o Carnaval Chegar, do Cacá Diegues. Tem certa sonoridade de música medieval, como João e Maria, e conta a história de um caçador a espreitar sua caça, ao mesmo tempo que é extremamente erótica: a caça pode ser uma mulher. O jogo duplo é de arrepiar: De tocaia fico a espreitar a fera / Logo dou-lhe o bote certeiro / Já conheço seu dorso de gazela / Cavalo brabo montado em pêlo. O mundo do erotismo precisa conhecer essa música. 

5) O QUE SERÁ (1976) - Para o filme Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto. A música é noventa vezes melhor que o filme, e pouco tem a ver com ele. É a música certa para crises existenciais, quando você fica triste por tudo de bom que poderia ter ocorrido nessa merda de país, e que você sabe que não vai mais ocorrer. E mesmo o padre eterno que nunca foi lá, olhando aquele inferno vai abençoar. Cantada com o Milton Nascimento, o que faz dela ainda melhor. 

4) MINHA HISTÓRIA (GESUBAMBINO) (Dalla - Palotino - versão de Chico Buarque em 1970) - Canção italiana com versão em português de Chico. Nunca ouvi a original, mas duvido que seja melhor que a em português. Um marinheiro deixou a minha mãe parada, pregada na pedra do porto, com seu único e velho vestido cada dia mais curto. O único sinal do marinheiro é a criança que ela dá a luz, o narrador da história. A mãe, frustrada com a ausência do homem que a amou por uma noite apenas, cria o filho no ambiente do cais e dá a ele o nome de Menino Jesus. Some o órgão ao fundo e vocais do MPB4, e você tem uma dos mais magníficos exemplos de sensibilidade humana. 

3) MULHERES DE ATENAS (com Augusto Boal, 1976) - Composta para a peça de mesmo nome, de Augusto Boal, histórico dramaturgo da esquerda brasileira, co-autor da música. Não estaria em nenhuma outra lista que não a minha. Tenho laços afetivos com ela. A melodia faça por si mesma, preenche todos os espaços de quem abre os ouvidos pra ela. Ao relatar a história das mulheres dos guerreiros da Atenas antiga, a letra é ora feminista, ora feminina apenas. Demoro uns bons vinte minutos pra me recompor ao ouvir esta música. 

2) APESAR DE VOCÊ (1970) - A mais singela homenagem ao ditador Emílio Garrastazu Médici. Samba clássico, aliado ao duplo sentido antológico da letra, que fala de um sujeito que tenta desencanar de um fora e que pode ser entendida como um "tua hora vai chegar" para a Ditadura Militar. Composta em 1970, passou pela censura e o single começou a vender horrores. Até que um militar menos burro entendeu que a coisa era com o Médici, e não só com um sujeito com dor de corno. Junção impecável de melodia, letra e relevância. Provavelmente a mais importante música de Chico Buarque de Hollanda. 

1) RODA VIVA (1967) - Composta para a peça de mesmo nome escrita pelo próprio Chico. Também casa com perfeição a música, e a letra com a relevância história. Um samba cíclico: por mais que as boas coisas simples da vida - o samba, a viola, a mulata, a roseira - tentassem se impor, eis que chega a Roda Viva, e carrega o destino pra lá. A Roda Viva, é claro, era a Ditadura Militar. Foi ao som dessa música que os mackenzistas idiotas do CCC - Comando de Caça aos Comunistas - se juntaram à polícia e invadiram o teatro Galpão, onde era encenada a peça, e bateram nos atores e destruíram o cenário. Roda Viva conta com a sempre bem-vinda participação especial do MPB4 nos vocais de fundo. Minha preferida desde pequeno, trilha sonora pras inúmeras rodas vivas que desde então a gente tenta jogar pra lá.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

MUITO ALÉM DO JORDI

Geralmente se reconhece o auge na decadência, nunca durante o próprio auge. É aquele caso do avô que toma duas doses de licor de ovos Dubar a mais, chama o neto de 11 anos pra conversar e diz, mentindo escandalosamente: "Na sua idade é que eu era feliz, porque com a sua idade é que eu dava no couro das menininhas pra valer". 

Todo tempo passado é melhor. Corto minhas unhas encravadas se algum rei romano alguma vez teve a sensibilidade de, no auge de seu poder, perceber que aquele fração de tempo tão ínfima para a História representava o auge de sua vida. Mas depois, no presídio, no manicômio ou no Além, o ex-rei tomava a tardia consciência. 

Pois não tenho dúvidas de que superei a expectativa de todos os reis romanos ao atingir e notar, ao mesmo tempo, que estava vivendo o auge da minha vida. Foi na noite do último sábado quando, ao morder um borrachento pedaço de pizza de atum com queijo, liguei a TV no programa do Amaury Júnior, filho do famoso Amaury Sênior, que entrevistava a economista e símbolo sexual Zélia Cardoso de Mello. Ainda não consegui medir o impacto de tal fato na minha personalidade em formação, mas duvideodó que terei um momento tão iluminado como esse pela frente. 

Desencantado com o que via na TV e pelo preço extorsivo pago pela pizza de borracha, botei no DVD o filme que havia alugado, Estado de Sítio, de Costa-Gavras, com Yves Montand fazendo o papel de um americano que treinava a polícia uruguaia para torturar presos políticos. 

O filme é espetacular, como todos do Costa-Gavras, com a exceção de Amém. Mas o que chamou a atenção é a cara de francês de Yves Montand, um baita ator, um baita cantor e um intelectual exemplar. Ouso dizer que nunca houve um francês com tanta cara de francês como Yves Montand. Aposto que se abrissem a goela dele, a campainha teria a forma da Torre Eiffel. 

Pois fui dar um google em Yves Montand pra saber quando ele foi tomar champanhe no andar de cima. Caí da cadeira: descobri que o safado nasceu com o nome de Ivo Livi, na Toscana, em 1921. O mais francês dos franceses, aquele que, de bigode, exigia automaticamente uma baguete embaixo do braço, era italiano. 

*** 
Yves Montand talvez tenha sido o sujeito mais charmoso do cinema ao lado de Marcelo Mastroianni e de Sean Connery. É uma beleza que os homens se identificam, o famoso "porra, eu queria ser assim". Perto dele, Leonardo Di Caprio é só um Makaulin Culkin mais bichinha. Les feuilles mortes (As Folhas Mortas), sucesso mundial na voz de Yves Montand, é das músicas românticas mais bonitas que se tem notícia. 

No currículo de Montand, além do combate aos nazistas e do engajamento político de esquerda durante toda a carreira, ainda há o generoso asterisco de ter mantido um tórrido affair com Marilyn Monroe nas gravações de um filme que fizeram juntos em 1950. Mais um motivo para ter a certeza de que, fosse Montand meu amigo de Orkut, eu lhe acrescentaria uma estrelinha. 

No fim da vida, intelectual já consolidado, Montand foi cotado para ser candidato à presidência da França em 1988. Era uma alternativa à esquerda de Miterrand que, como Lula, atolou a França em corrupção após pregar o contrário a vida inteira. Não se candidatou, mas acabou consolidando seu nome e carisma como opção viável para a presidência francesa nas eleições seguintes. Mas eis que chega a roda viva, e carrega o destino pra lá: um enfarte cerrou os olhos de Montand e reservou Jacques Chirrac, uma espécie de Collor de biquinho, para a França. 

Eis onde eu queria chegar: assim como eu, tenho certeza de que Yves Montand em todo momento soube apontar seu auge. Eu com minha pizza borrachenta de atum com queijo vendo a Zélia no Amaury Júnior. Ele, por tudo que está descrito acima. Agora só me falta uma Marilyn Monroe.