quarta-feira, 30 de agosto de 2006

TUDO QUE LHES PROMETI SERÁ COMPRIDO


Nos anos 20, a atriz Mae West, dentro de um decote que deixava seus seios brigarem entre si por espaço, dançava entusiasticamente com um rapaz empolgado, quando a ele perguntou: 

- Meu caro, você está com um revólver no bolso ou está tentando dizer que me ama? 

Cai o pano.

segunda-feira, 28 de agosto de 2006

AS DEZ MELHORES CANÇÕES DE CHICO BUARQUE

Quem trabalhou na Abril ou simplesmente foi criado lendo coisas por lá editadas acaba acostumando a ranquear tudo que aparece pela frente. Talvez este seja um costume pra lá de ridículo, mas é apenas mais na minha lista de costumes ridículos. 

Tentei organizar uma lista das músicas do Chico Buarque que mais gosto - eis como aproveitei meu domingo, o que considero muito bem aproveitado, diga-se. Separei apenas as músicas que considero sensacionais, excluindo as que ganharam a classificação "muito boa" para baixo. Fiquei com 27 em mãos, o que é só mais uma prova da genialidade do moço que ganhou o clichê "Ninguém entende as mulheres como Chico Buarque" como uma de suas boas definições. 

Eis o resultado: 

10) CONSTRUÇÃO (1971) - Fosse pra eleger as melhores músicas do Chico, essa provavelmente formaria uma trinca junto de Apesar de Você e Roda Viva. Mas como a lista é sobre as que eu mais gosto, entra em décimo lugar, porque é artisticamente impecável, mas não apaixonante como outras. Todas as frases da canção terminam com uma palavra proparoxítona de três sílabas. Essas palavras se alternam nas três partes da música, formando uma construção poética e musical de forte impacto. Como se não bastasse, é a história de um pedreiro que se achava importante demais em sua construção. Só que, ao cair da obra, ele morreu na contramação atrapalhando o sábado, grande lição sobre a relatividade da importância da própria vida. Coisa de gênio, sem dúvida. E fica ainda melhor agregada com Deus lhe Pague no final, relatando o desencarnar da alma do pobre coitado. 

9) GENI E O ZEPELIN (1977-78)- Canção para a peça Ópera do Malandro. Conta a história de uma secretária da beira do cais (pegou o eufemismo?) que dá para rigorosamente todo mundo. Mas eis que chega um zepelim disposto a destruir a cidade, que é um horror (sempre imagino Cubatão como cenário). O comandante, um sujeito boa pinta, desce e diz que só não vai explodir o local se aquela formosa dama lher servir. Essa dama é a Geni. Só que ela, que dá pra todo mundo, não se empolga com o sujeito, o que em muito explica o clichê do Chico realmente entender as mulheres como ninguém (isso é uma provocação, não joguem tomates na tela do PC). A cidade, que sempre joga pedra na Geni, vai aos prantos pedir pra ela passar uma noite com o sujeito. Ela cede aos apelos, mas no dia seguinte todo mundo volta a ralhar com ela. Uma crônica fantástica sobre a porção filhodaputa que mora nalgum canto dentro de todos nós. 

8) JOÃO E MARIA (com Sivuca, 1977) - Agora eu era o herói, e o meu cavalo só falava inglês, cantava Chico e Nara Leão. A melodia medieval composta pelo Sivuca mede a exata sensibilidade de letra de Chico. Um casamento perfeito, como o daquelas duas crianças do enredo da história que brincavam de rei e rainha, contada pelo narrador relembrando os tempos de nostalgia perdida - o tempo passou e ambos nunca mais se viram. Mulheres costumam se desmanchar com essa música. Chupa, Lionel Ritchie. 

7) ATÉ O FIM (1978) - Quando eu nasci veio um anjo safado, um chato de um querubim. Uma versão musicada do gauche da vida do Drummond, muito mais bem humorada. Vai ao fundo com o jargão "quando chove merda não garoa", já que nada dá certo para o protagonista. Mesmo assim, o jeito é continuar. E ele vai até o fim. Inesquecível. 

6) CAÇADA (1972) - Pouco conhecida, o que é uma pena. Foi composta para o filme Quando o Carnaval Chegar, do Cacá Diegues. Tem certa sonoridade de música medieval, como João e Maria, e conta a história de um caçador a espreitar sua caça, ao mesmo tempo que é extremamente erótica: a caça pode ser uma mulher. O jogo duplo é de arrepiar: De tocaia fico a espreitar a fera / Logo dou-lhe o bote certeiro / Já conheço seu dorso de gazela / Cavalo brabo montado em pêlo. O mundo do erotismo precisa conhecer essa música. 

5) O QUE SERÁ (1976) - Para o filme Dona Flor e Seus Dois Maridos, de Bruno Barreto. A música é noventa vezes melhor que o filme, e pouco tem a ver com ele. É a música certa para crises existenciais, quando você fica triste por tudo de bom que poderia ter ocorrido nessa merda de país, e que você sabe que não vai mais ocorrer. E mesmo o padre eterno que nunca foi lá, olhando aquele inferno vai abençoar. Cantada com o Milton Nascimento, o que faz dela ainda melhor. 

4) MINHA HISTÓRIA (GESUBAMBINO) (Dalla - Palotino - versão de Chico Buarque em 1970) - Canção italiana com versão em português de Chico. Nunca ouvi a original, mas duvido que seja melhor que a em português. Um marinheiro deixou a minha mãe parada, pregada na pedra do porto, com seu único e velho vestido cada dia mais curto. O único sinal do marinheiro é a criança que ela dá a luz, o narrador da história. A mãe, frustrada com a ausência do homem que a amou por uma noite apenas, cria o filho no ambiente do cais e dá a ele o nome de Menino Jesus. Some o órgão ao fundo e vocais do MPB4, e você tem uma dos mais magníficos exemplos de sensibilidade humana. 

3) MULHERES DE ATENAS (com Augusto Boal, 1976) - Composta para a peça de mesmo nome, de Augusto Boal, histórico dramaturgo da esquerda brasileira, co-autor da música. Não estaria em nenhuma outra lista que não a minha. Tenho laços afetivos com ela. A melodia faça por si mesma, preenche todos os espaços de quem abre os ouvidos pra ela. Ao relatar a história das mulheres dos guerreiros da Atenas antiga, a letra é ora feminista, ora feminina apenas. Demoro uns bons vinte minutos pra me recompor ao ouvir esta música. 

2) APESAR DE VOCÊ (1970) - A mais singela homenagem ao ditador Emílio Garrastazu Médici. Samba clássico, aliado ao duplo sentido antológico da letra, que fala de um sujeito que tenta desencanar de um fora e que pode ser entendida como um "tua hora vai chegar" para a Ditadura Militar. Composta em 1970, passou pela censura e o single começou a vender horrores. Até que um militar menos burro entendeu que a coisa era com o Médici, e não só com um sujeito com dor de corno. Junção impecável de melodia, letra e relevância. Provavelmente a mais importante música de Chico Buarque de Hollanda. 

1) RODA VIVA (1967) - Composta para a peça de mesmo nome escrita pelo próprio Chico. Também casa com perfeição a música, e a letra com a relevância história. Um samba cíclico: por mais que as boas coisas simples da vida - o samba, a viola, a mulata, a roseira - tentassem se impor, eis que chega a Roda Viva, e carrega o destino pra lá. A Roda Viva, é claro, era a Ditadura Militar. Foi ao som dessa música que os mackenzistas idiotas do CCC - Comando de Caça aos Comunistas - se juntaram à polícia e invadiram o teatro Galpão, onde era encenada a peça, e bateram nos atores e destruíram o cenário. Roda Viva conta com a sempre bem-vinda participação especial do MPB4 nos vocais de fundo. Minha preferida desde pequeno, trilha sonora pras inúmeras rodas vivas que desde então a gente tenta jogar pra lá.

terça-feira, 22 de agosto de 2006

MUITO ALÉM DO JORDI

Geralmente se reconhece o auge na decadência, nunca durante o próprio auge. É aquele caso do avô que toma duas doses de licor de ovos Dubar a mais, chama o neto de 11 anos pra conversar e diz, mentindo escandalosamente: "Na sua idade é que eu era feliz, porque com a sua idade é que eu dava no couro das menininhas pra valer". 

Todo tempo passado é melhor. Corto minhas unhas encravadas se algum rei romano alguma vez teve a sensibilidade de, no auge de seu poder, perceber que aquele fração de tempo tão ínfima para a História representava o auge de sua vida. Mas depois, no presídio, no manicômio ou no Além, o ex-rei tomava a tardia consciência. 

Pois não tenho dúvidas de que superei a expectativa de todos os reis romanos ao atingir e notar, ao mesmo tempo, que estava vivendo o auge da minha vida. Foi na noite do último sábado quando, ao morder um borrachento pedaço de pizza de atum com queijo, liguei a TV no programa do Amaury Júnior, filho do famoso Amaury Sênior, que entrevistava a economista e símbolo sexual Zélia Cardoso de Mello. Ainda não consegui medir o impacto de tal fato na minha personalidade em formação, mas duvideodó que terei um momento tão iluminado como esse pela frente. 

Desencantado com o que via na TV e pelo preço extorsivo pago pela pizza de borracha, botei no DVD o filme que havia alugado, Estado de Sítio, de Costa-Gavras, com Yves Montand fazendo o papel de um americano que treinava a polícia uruguaia para torturar presos políticos. 

O filme é espetacular, como todos do Costa-Gavras, com a exceção de Amém. Mas o que chamou a atenção é a cara de francês de Yves Montand, um baita ator, um baita cantor e um intelectual exemplar. Ouso dizer que nunca houve um francês com tanta cara de francês como Yves Montand. Aposto que se abrissem a goela dele, a campainha teria a forma da Torre Eiffel. 

Pois fui dar um google em Yves Montand pra saber quando ele foi tomar champanhe no andar de cima. Caí da cadeira: descobri que o safado nasceu com o nome de Ivo Livi, na Toscana, em 1921. O mais francês dos franceses, aquele que, de bigode, exigia automaticamente uma baguete embaixo do braço, era italiano. 

*** 
Yves Montand talvez tenha sido o sujeito mais charmoso do cinema ao lado de Marcelo Mastroianni e de Sean Connery. É uma beleza que os homens se identificam, o famoso "porra, eu queria ser assim". Perto dele, Leonardo Di Caprio é só um Makaulin Culkin mais bichinha. Les feuilles mortes (As Folhas Mortas), sucesso mundial na voz de Yves Montand, é das músicas românticas mais bonitas que se tem notícia. 

No currículo de Montand, além do combate aos nazistas e do engajamento político de esquerda durante toda a carreira, ainda há o generoso asterisco de ter mantido um tórrido affair com Marilyn Monroe nas gravações de um filme que fizeram juntos em 1950. Mais um motivo para ter a certeza de que, fosse Montand meu amigo de Orkut, eu lhe acrescentaria uma estrelinha. 

No fim da vida, intelectual já consolidado, Montand foi cotado para ser candidato à presidência da França em 1988. Era uma alternativa à esquerda de Miterrand que, como Lula, atolou a França em corrupção após pregar o contrário a vida inteira. Não se candidatou, mas acabou consolidando seu nome e carisma como opção viável para a presidência francesa nas eleições seguintes. Mas eis que chega a roda viva, e carrega o destino pra lá: um enfarte cerrou os olhos de Montand e reservou Jacques Chirrac, uma espécie de Collor de biquinho, para a França. 

Eis onde eu queria chegar: assim como eu, tenho certeza de que Yves Montand em todo momento soube apontar seu auge. Eu com minha pizza borrachenta de atum com queijo vendo a Zélia no Amaury Júnior. Ele, por tudo que está descrito acima. Agora só me falta uma Marilyn Monroe.

segunda-feira, 21 de agosto de 2006

JOKERMAN DANCE TO THE NIGHTINGALE TUNE

- Não te assustes, disse ela, minha inimizade não mata; é sobretudo pela vida que se afirma. Vives: não quero outro flagelo. 

- Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para certificar-me da existência. 

- Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da dor e o vinho da miséria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua consciência reouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres viver. 

Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis. 


Se vives nas sombras, freqüentas porões, 
Se tramas assaltos ou revoluções, 
A lei te procura amanhã de manhã 
Com seu faro de doberman 

Hino de Duran, Chico Buarque. 


Serão os dias mais felizes se Vives junto a mim 
Espero que decidas, é só dizer que sim 

Tenho, Sidney Magal. 


Voltei. Chupa.

quinta-feira, 3 de agosto de 2006

PARA LER DURANTE A PAUSA DESTE BLOGUE

Não consegue lembrar por que entrara na livraria. Lera muito durante anos, mas alguma coisa ocorrera no mundo. Ou fora ele que se afastara da poesia? Pior ainda: talvez a poesia não conseguisse mais tocar o seu coração ou os poetas houvessem perdido a capacidade de iluminar seu caminho. Ao acaso, tirou um livro da estante: A Milésima Segunda Noite. Lembrou das Mil e Uma Noites, na excelente tradução de Richard Burton, e agora se lembrava que fora muito feliz naquele tempo. Depois a vida - ou teria sido a realidade que às vezes confundimos com a vida? - se abatera sobre ele com toda a sua inexorável indiferença. E ele se deixara ir vivendo cercado de compromissos, obrigações, contratos, dívidas. Começou a ler a contracapa do livro que falava de um homem que de repente se via numa livraria lendo a contracapa de um livro chamado A Milésima Segunda Noite. O autor era Fausto Wolff. Já ouvira falar dele. Erea um diretor de novelas de TV. Não, ele não gostava de novelas. Ao seu lado, uma mulher bonita, dona de uma beleza vivida, mas de pazes com a vida. Ele também precisava fazer as pazes com a vida ou fazer com que a vida fizesse as pazes com ele. Observou que a mulher tinha o mesmo livro na mão e lia a mesma contracapa. 

Ela sorriu um sorriso terno e por um momento pensou que choraria, mas começou a rir baixinho e disse para o homem de olhos tristes: 

- O senhor notou que o autor está falando de nós? 

Ele não respondeu. Apenas confirmou com a cabeça. Seus olhos se encontraram, e a perplexidade dele fundiu-se com o mistério dela, e ele foi invadido por uma sensação de leveza que há muito julgara ter perdido. 

Tentou dizer alguma coisa, mas a bela mulher adiantou-se: 

- Não diga nada. Ainda temos mil e uma noites pela frente. 

Fausto Wolff, A milésima Segunda Noite.

domingo, 30 de julho de 2006

OS DEDOS DA GALHOFA E AS TECLAS DA MELANCOLIA

Tudo passa. Até uva passa, já diria Schopenhauer. Menos a onda de calor no inverno, a de frio no verão e a de furacões onde antes só havia uma chuvinha assim-assim. Parece que os planos para minha aposentadoria - viver em Ubatuba com um chapéu Panamá, dois cachorros e um monte de livros pra ler na praia - vai por água abaixo. Literalmente: com o derretimento das calotas polares, Ubatuba deve ficar a ver peixinhos, e terei que rever minha meta por alguns quilômetros, já que em 30 anos as ondas chegarão até São Bernardo. O lado positivo é que as mais altas chaminés de Cubatão podem servir como farol turístico. Imagino o Netinho cantando Milla ("Mil e uma noites no farol com você" - um poeta esse moço) na inauguração oficial do farol. Fica aí a sugestão. 

Mas não me aperreio mais com essas coisas. Procuro relaxar espancando umas criancinhas, estuprando umas velhinhas, superfaturando umas ambulâncias, essas coisas. Pena que não tenho nenhum vizinho libanês pra explodir uns misseizinhos. Porque, como diriam os israelenses, é explodindo a casa que se elimina a toupeira que morde as flores do quintal. 

Mas não é por falta de desgraça em casa que vamos falar das agruras alheias. Tentam me convencer a votar novamente no sapo barbudo, sendo que já o beijei uma vez há quatro anos e ele não virou príncipe. Logo eu que passei uma semana rouco após a vitória dele. A esperança ficou com medo. Eu também. Mas quem gosta de tucano é zoológico e o mercado financeiro, de modo que para votar precisarei do auxílio de Fábio Puentes, o mágico que faz uma pessoa comer uma cebola achando que é chocolate. 

Aí você pega seu sobrinho de cinco meses no colo, o aperta forte enquanto ele sorri, sem imaginar o tamanho da encrenca em que está se metendo. É quando você moralmente entra em posição fetal, perguntando pela Pangéia que não existe mais. E então olha pra ele, pedindo desculpas pelos deslizes da humanidade por motivos que jamais vou conseguir explicar. 

Este blogue pára por duas semanas, talvez um mês.

quinta-feira, 20 de julho de 2006

O CASO VON RICHTHOFEN: TODA A MALEMOLÊNCIA DO TRIBUNAL BRASILEIRO

Não fosse pela trágica morte de duas pessoas e o julgamento do ano que ocorre no Tribunal da Barra Funda seria a ópera bufa da década. Atolei o focinho no assunto nos últimos três dias até altas horas da noite, e provavelmente assim continuarei por mais dois dias por motivos profissionais. Tive o cuidado de separar os melhores momentos: 

Personagens: Suzane von Richthofen (mandante do crime), Daniel e Cristian Cravinhos (irmãos, o primeiro era o namorado da mandante. Ambos são os executores). 


DIA 1: O SOBRENATURAL DÁ AS CARAS NO PLENÁRIO 

- 'Suzane fumava cigarro de cravo e ouvia Bob Marley antes do crime', diz Cristian (20:27) 

- Suzane relata a perda da virgindade com Daniel: "Ele estava todo sujo de ovo", diz (20:48) 

- Sobre o depoimento de Suzane: "Havia certas coisas que Daniel só falava para Suzane quando esta se encontrava chapada pelo uso de drogas. Dizia ele que tinha um amigo da favela perto da casa dele, chamado Negão. O namorado dela dizia que ele e Negão formavam uma grande dupla do tráfico de drogas e que juntos já tinham conseguido juntar 15 milhões de reais. Este dinheiro se encontrava em um bueiro perto da entrada da favela. Mas eis que Negão morre em um confronto entre traficantes. Desde então, sempre segundo Suzane, Daniel dizia que o espírito de Negão aparecia para ele". (22:04) 


DIA 2: "A SENHORA JÁ FOI CHAMADA DE FOFOQUEIRA?" 

- Suzane e Daniel se agarravam na delegacia após o crime', diz delegada (16:10) 

- Juiz paga mico durante passagem de fotos em slides: "O aparelho é novo e ninguém sabe mexer direito", diz (19:41) 

- 'Você está falando comigo, sua velha? Te odeio!', dizia Suzane para a mãe, segundo testemunha. Advogado de defesa rebate: "A senhora já foi chamada de fofoqueira?", pergunta à testemunha (21:05) 


DIA 3: "HOJE VOU COMER UM RAVIÓLI" 

- Três moças estudantes de direito que assistem ao julgamento concluem, em conjunto: "Andreas é uma gracinha" (Andréas von Richthofen é filho das vítimas e irmão da ré) (11:00) 

- Após 20 horas digitando, estenotipista entrega os pontos e pede substituição (14:25) 

- Mãe dos irmãos Cravinhos faz depoimento emocionante; advogado de Suzane tira uma soneca com as mãos na barriga (15:37) 

- Gripado, advogado de Suzane não consegue desligar o microfone e obriga todo o tribunal a ouví-lo tossir durante o julgamento (17:45) 

- Amiga de Suzane depõe enquanto página de scraps de seu Orkut bomba com mansagens ofensivas (18:29) 

- Astrogildo Cravinhos, pai dos dois réus, vê a lanchonete lotada e declara: "Hoje eu vou comer um ravióli". (18:58) 

- "Para aumentar a audiência, o Datena quase me explodiu", diz testemunha de defesa de Suzane (20:45) 

- "A Suzane não mente" diz agente penitenciária que cuida da ré (21:14) 

- Suzane abre um sorrisão ao fim do terceiro dia de julgamento (21:35)

Retirado da Abril.com

segunda-feira, 17 de julho de 2006

DELAY

Peguei o primeiro livro para ler na vida aos nove anos de idade, tenho certeza. A professora obrigou cada um da classe a tirar um da biblioteca da escola. O nome do meu escolhido era Sem Destino, que me saltou aos olhos pelo nome chamativo de seu autor: Ganymédes José. 

Dos dez primeiros livros que li, provavelmente uma meia dúzia eram desse sujeito de nome estranho e foto com um bigodão anos 80. Já não lembro de quase nada deles, só que os livros dele eram maioria entre os poucos que li à época. A História do Galo Marquês é o único cujo parte do enredo ainda me salta à memória: um sítio onde um galo carismático era feito de almoço pela cozinheira em dia festa, causando espanto nas crianças do local. Talvez o enredo não seja tão nefasto assim e seja eu que lembro dele desse jeito, provando que tenho muito adubo na cabeça - não no sentido de fertilidade, no de estrume mesmo. 

Dia desse lembrei do Ganymédes por acaso, ao divagar sobre o Sem Destino, o filme, tradução de Easy Rider. Uma coisa levou à outra, ao livro da biblioteca da escola de 16 anos atrás de mesmo nome. Resolvi dar um Google no Ganymédes José. Quem sabe não rolaria uma visita, uma entrevista, um "por onde anda"? 

Seus livros ainda estão à venda. Mas achei em um site, escondido num texto de um amigo dele, a informação de que Ganymédes José morreu há 16 anos. Exatamente em 1990, ano em que li um livro pela primeira vez, um livro dele. 

Pior que chatear-se com coisas normalmente tão figurativas é ficar chateado com 16 anos de atraso. 

Segue o jogo.

quarta-feira, 12 de julho de 2006

SAUDADES DOS TEMPOS DO ANALFABETISMO

Há mais coisas entre uma revista e seu leitor do que sonha o nosso vão Roberto Civita, já diria o jornaleiro ao seu freguês de 14 anos, de mãos peludas e espinhas na cara, que porventura comprasse uma revista de mulher pelada. Pois bem naquele cantinho entre o fígado e a alma me cai a ficha de que quase não existem mais revistas que dão prazer ao leitor pela qualidade do assunto e da escrita. O que vende é o que nas redações convencionou-se chamar de "prestar um serviço ao leitor", que é uma maneira pomposa de rotular a má e velha auto-ajuda. 

Mas é claro que é isso, eu já sabia disso, já me diziam na faculdade. Mas só hoje, a andar pela Rua das Palmeiras e dar de cara com um pôster da Mensrelfe, - espécie de Nova Cosmopolitan para homens gordos e tarados - é que tive o insight, que pude enxergar o panorama da tristeza em toda a sua amplitude. 

Eu já sabia que a Nova prega existir visando a mulher fatal que gosta do prazer e do seu corpo, mas na verdade é lida somente por balzacas taradas com problemas na balança que tentam agarrar em definitivo o novo namorado - o de número 28 neste semestre - pela putaria desenfreada (abre aspas: se a minha mãe lesse o que acabei de escrever, diria: "Esse mal educado não foi o menino que criei". Fecha aspas). Também sabia que a Playboy é comprada somente por adolescentes que levam a revista ao banheiro com o claro, único e solitário objetivo de descabelar o palhaço. Até aí, sem novidades. 

Mas a primeira vez que vi um pôster dessa Mensrelfe, uma espécie de VIP marombada, pensei que ela não duraria dois meses. Só quem comprou o AB Shaper e fãs do Tony Little iriam comprá-la, o que corresponderia a umas cinco ou seis pessoas isoladas em vestiários sujos de academias. Acertei no varejo, errei no atacado: de fato, só marombados estúpidos querem ler a Mensrelfe, mas cerca de 56 mil pessoas o fizeram no último mês. E o número aumenta. 

Vai ver quem não deu certo fui eu. Como diria Nietzsche: "a minha parte eu quero em pinga". 

Pede perdão 
Pela duração 
Desta temporada 
Mas não diga nada 
Que me viu chorando 
E pros da pesada 
Diz que eu vou levando

terça-feira, 4 de julho de 2006

A VERDADE ESTÁ LÁ FORA (NA CAIXA DE CORREIO)

Sonhei que minhas contas da Eletropaulo começaram a chegar em casa com todos os meus exames de sangue e outros do gênero devidamente comentados com as melhorias que eu deveria fazer na minha saúde. Era um verdadeiro relatório produzido e assinado por, pasmem, Dom Paulo Evaristo Arns e assessores da Igreja. Comecei a conversar com os vizinhos, que me confirmaram assustados que também estavam recebendo as contas de luz anexadas aos exames médicos que recentemente tinham feito, mas que jamais haviam saído de casa, como os meus. No entanto, estávamos todos recebendo nossos exames de volta comentados via correio. 

Procurei me informar a respeito e descobri à boca pequena que Dom Paulo era o mentor de uma sociedade secreta que seqüestrava exames clínicos das casas das pessoas em um esquema que envolvia os correios, com o objetivo de ajudá-las a cuidar da saúde e, conseqüentemente, viver melhor. Assim as estatísticas da ONU sobre a expectativa de vida no Brasil alcançariam melhor conceito, o que traria dividendos políticos para Dom Paulo junto ao Vaticano. 

O mais interessante é que a sociedade era secreta, mas todos os exames que chegavam no correio eram assinados por Dom Paulo e asseclas. No sonho, a imprensa não comentava o assunto porque, sendo aquela uma sociedade secreta, ela nada sabia e não tinha como apurar, apesar de grande parte da população paulistana estar recebendo as contas da Eletropaulo com um plus a mais. Prova de que até o meu inconsciente compreende a imprensa brasileira como detentora de uma estupidez sem par nessas matas.