segunda-feira, 21 de agosto de 2006

JOKERMAN DANCE TO THE NIGHTINGALE TUNE

- Não te assustes, disse ela, minha inimizade não mata; é sobretudo pela vida que se afirma. Vives: não quero outro flagelo. 

- Vivo? perguntei eu, enterrando as unhas nas mãos, como para certificar-me da existência. 

- Sim, verme, tu vives. Não receies perder esse andrajo que é teu orgulho; provarás ainda, por algumas horas, o pão da dor e o vinho da miséria. Vives: agora mesmo que ensandeceste, vives; e se a tua consciência reouver um instante de sagacidade, tu dirás que queres viver. 

Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis. 


Se vives nas sombras, freqüentas porões, 
Se tramas assaltos ou revoluções, 
A lei te procura amanhã de manhã 
Com seu faro de doberman 

Hino de Duran, Chico Buarque. 


Serão os dias mais felizes se Vives junto a mim 
Espero que decidas, é só dizer que sim 

Tenho, Sidney Magal. 


Voltei. Chupa.

quinta-feira, 3 de agosto de 2006

PARA LER DURANTE A PAUSA DESTE BLOGUE

Não consegue lembrar por que entrara na livraria. Lera muito durante anos, mas alguma coisa ocorrera no mundo. Ou fora ele que se afastara da poesia? Pior ainda: talvez a poesia não conseguisse mais tocar o seu coração ou os poetas houvessem perdido a capacidade de iluminar seu caminho. Ao acaso, tirou um livro da estante: A Milésima Segunda Noite. Lembrou das Mil e Uma Noites, na excelente tradução de Richard Burton, e agora se lembrava que fora muito feliz naquele tempo. Depois a vida - ou teria sido a realidade que às vezes confundimos com a vida? - se abatera sobre ele com toda a sua inexorável indiferença. E ele se deixara ir vivendo cercado de compromissos, obrigações, contratos, dívidas. Começou a ler a contracapa do livro que falava de um homem que de repente se via numa livraria lendo a contracapa de um livro chamado A Milésima Segunda Noite. O autor era Fausto Wolff. Já ouvira falar dele. Erea um diretor de novelas de TV. Não, ele não gostava de novelas. Ao seu lado, uma mulher bonita, dona de uma beleza vivida, mas de pazes com a vida. Ele também precisava fazer as pazes com a vida ou fazer com que a vida fizesse as pazes com ele. Observou que a mulher tinha o mesmo livro na mão e lia a mesma contracapa. 

Ela sorriu um sorriso terno e por um momento pensou que choraria, mas começou a rir baixinho e disse para o homem de olhos tristes: 

- O senhor notou que o autor está falando de nós? 

Ele não respondeu. Apenas confirmou com a cabeça. Seus olhos se encontraram, e a perplexidade dele fundiu-se com o mistério dela, e ele foi invadido por uma sensação de leveza que há muito julgara ter perdido. 

Tentou dizer alguma coisa, mas a bela mulher adiantou-se: 

- Não diga nada. Ainda temos mil e uma noites pela frente. 

Fausto Wolff, A milésima Segunda Noite.

domingo, 30 de julho de 2006

OS DEDOS DA GALHOFA E AS TECLAS DA MELANCOLIA

Tudo passa. Até uva passa, já diria Schopenhauer. Menos a onda de calor no inverno, a de frio no verão e a de furacões onde antes só havia uma chuvinha assim-assim. Parece que os planos para minha aposentadoria - viver em Ubatuba com um chapéu Panamá, dois cachorros e um monte de livros pra ler na praia - vai por água abaixo. Literalmente: com o derretimento das calotas polares, Ubatuba deve ficar a ver peixinhos, e terei que rever minha meta por alguns quilômetros, já que em 30 anos as ondas chegarão até São Bernardo. O lado positivo é que as mais altas chaminés de Cubatão podem servir como farol turístico. Imagino o Netinho cantando Milla ("Mil e uma noites no farol com você" - um poeta esse moço) na inauguração oficial do farol. Fica aí a sugestão. 

Mas não me aperreio mais com essas coisas. Procuro relaxar espancando umas criancinhas, estuprando umas velhinhas, superfaturando umas ambulâncias, essas coisas. Pena que não tenho nenhum vizinho libanês pra explodir uns misseizinhos. Porque, como diriam os israelenses, é explodindo a casa que se elimina a toupeira que morde as flores do quintal. 

Mas não é por falta de desgraça em casa que vamos falar das agruras alheias. Tentam me convencer a votar novamente no sapo barbudo, sendo que já o beijei uma vez há quatro anos e ele não virou príncipe. Logo eu que passei uma semana rouco após a vitória dele. A esperança ficou com medo. Eu também. Mas quem gosta de tucano é zoológico e o mercado financeiro, de modo que para votar precisarei do auxílio de Fábio Puentes, o mágico que faz uma pessoa comer uma cebola achando que é chocolate. 

Aí você pega seu sobrinho de cinco meses no colo, o aperta forte enquanto ele sorri, sem imaginar o tamanho da encrenca em que está se metendo. É quando você moralmente entra em posição fetal, perguntando pela Pangéia que não existe mais. E então olha pra ele, pedindo desculpas pelos deslizes da humanidade por motivos que jamais vou conseguir explicar. 

Este blogue pára por duas semanas, talvez um mês.

quinta-feira, 20 de julho de 2006

O CASO VON RICHTHOFEN: TODA A MALEMOLÊNCIA DO TRIBUNAL BRASILEIRO

Não fosse pela trágica morte de duas pessoas e o julgamento do ano que ocorre no Tribunal da Barra Funda seria a ópera bufa da década. Atolei o focinho no assunto nos últimos três dias até altas horas da noite, e provavelmente assim continuarei por mais dois dias por motivos profissionais. Tive o cuidado de separar os melhores momentos: 

Personagens: Suzane von Richthofen (mandante do crime), Daniel e Cristian Cravinhos (irmãos, o primeiro era o namorado da mandante. Ambos são os executores). 


DIA 1: O SOBRENATURAL DÁ AS CARAS NO PLENÁRIO 

- 'Suzane fumava cigarro de cravo e ouvia Bob Marley antes do crime', diz Cristian (20:27) 

- Suzane relata a perda da virgindade com Daniel: "Ele estava todo sujo de ovo", diz (20:48) 

- Sobre o depoimento de Suzane: "Havia certas coisas que Daniel só falava para Suzane quando esta se encontrava chapada pelo uso de drogas. Dizia ele que tinha um amigo da favela perto da casa dele, chamado Negão. O namorado dela dizia que ele e Negão formavam uma grande dupla do tráfico de drogas e que juntos já tinham conseguido juntar 15 milhões de reais. Este dinheiro se encontrava em um bueiro perto da entrada da favela. Mas eis que Negão morre em um confronto entre traficantes. Desde então, sempre segundo Suzane, Daniel dizia que o espírito de Negão aparecia para ele". (22:04) 


DIA 2: "A SENHORA JÁ FOI CHAMADA DE FOFOQUEIRA?" 

- Suzane e Daniel se agarravam na delegacia após o crime', diz delegada (16:10) 

- Juiz paga mico durante passagem de fotos em slides: "O aparelho é novo e ninguém sabe mexer direito", diz (19:41) 

- 'Você está falando comigo, sua velha? Te odeio!', dizia Suzane para a mãe, segundo testemunha. Advogado de defesa rebate: "A senhora já foi chamada de fofoqueira?", pergunta à testemunha (21:05) 


DIA 3: "HOJE VOU COMER UM RAVIÓLI" 

- Três moças estudantes de direito que assistem ao julgamento concluem, em conjunto: "Andreas é uma gracinha" (Andréas von Richthofen é filho das vítimas e irmão da ré) (11:00) 

- Após 20 horas digitando, estenotipista entrega os pontos e pede substituição (14:25) 

- Mãe dos irmãos Cravinhos faz depoimento emocionante; advogado de Suzane tira uma soneca com as mãos na barriga (15:37) 

- Gripado, advogado de Suzane não consegue desligar o microfone e obriga todo o tribunal a ouví-lo tossir durante o julgamento (17:45) 

- Amiga de Suzane depõe enquanto página de scraps de seu Orkut bomba com mansagens ofensivas (18:29) 

- Astrogildo Cravinhos, pai dos dois réus, vê a lanchonete lotada e declara: "Hoje eu vou comer um ravióli". (18:58) 

- "Para aumentar a audiência, o Datena quase me explodiu", diz testemunha de defesa de Suzane (20:45) 

- "A Suzane não mente" diz agente penitenciária que cuida da ré (21:14) 

- Suzane abre um sorrisão ao fim do terceiro dia de julgamento (21:35)

Retirado da Abril.com

segunda-feira, 17 de julho de 2006

DELAY

Peguei o primeiro livro para ler na vida aos nove anos de idade, tenho certeza. A professora obrigou cada um da classe a tirar um da biblioteca da escola. O nome do meu escolhido era Sem Destino, que me saltou aos olhos pelo nome chamativo de seu autor: Ganymédes José. 

Dos dez primeiros livros que li, provavelmente uma meia dúzia eram desse sujeito de nome estranho e foto com um bigodão anos 80. Já não lembro de quase nada deles, só que os livros dele eram maioria entre os poucos que li à época. A História do Galo Marquês é o único cujo parte do enredo ainda me salta à memória: um sítio onde um galo carismático era feito de almoço pela cozinheira em dia festa, causando espanto nas crianças do local. Talvez o enredo não seja tão nefasto assim e seja eu que lembro dele desse jeito, provando que tenho muito adubo na cabeça - não no sentido de fertilidade, no de estrume mesmo. 

Dia desse lembrei do Ganymédes por acaso, ao divagar sobre o Sem Destino, o filme, tradução de Easy Rider. Uma coisa levou à outra, ao livro da biblioteca da escola de 16 anos atrás de mesmo nome. Resolvi dar um Google no Ganymédes José. Quem sabe não rolaria uma visita, uma entrevista, um "por onde anda"? 

Seus livros ainda estão à venda. Mas achei em um site, escondido num texto de um amigo dele, a informação de que Ganymédes José morreu há 16 anos. Exatamente em 1990, ano em que li um livro pela primeira vez, um livro dele. 

Pior que chatear-se com coisas normalmente tão figurativas é ficar chateado com 16 anos de atraso. 

Segue o jogo.

quarta-feira, 12 de julho de 2006

SAUDADES DOS TEMPOS DO ANALFABETISMO

Há mais coisas entre uma revista e seu leitor do que sonha o nosso vão Roberto Civita, já diria o jornaleiro ao seu freguês de 14 anos, de mãos peludas e espinhas na cara, que porventura comprasse uma revista de mulher pelada. Pois bem naquele cantinho entre o fígado e a alma me cai a ficha de que quase não existem mais revistas que dão prazer ao leitor pela qualidade do assunto e da escrita. O que vende é o que nas redações convencionou-se chamar de "prestar um serviço ao leitor", que é uma maneira pomposa de rotular a má e velha auto-ajuda. 

Mas é claro que é isso, eu já sabia disso, já me diziam na faculdade. Mas só hoje, a andar pela Rua das Palmeiras e dar de cara com um pôster da Mensrelfe, - espécie de Nova Cosmopolitan para homens gordos e tarados - é que tive o insight, que pude enxergar o panorama da tristeza em toda a sua amplitude. 

Eu já sabia que a Nova prega existir visando a mulher fatal que gosta do prazer e do seu corpo, mas na verdade é lida somente por balzacas taradas com problemas na balança que tentam agarrar em definitivo o novo namorado - o de número 28 neste semestre - pela putaria desenfreada (abre aspas: se a minha mãe lesse o que acabei de escrever, diria: "Esse mal educado não foi o menino que criei". Fecha aspas). Também sabia que a Playboy é comprada somente por adolescentes que levam a revista ao banheiro com o claro, único e solitário objetivo de descabelar o palhaço. Até aí, sem novidades. 

Mas a primeira vez que vi um pôster dessa Mensrelfe, uma espécie de VIP marombada, pensei que ela não duraria dois meses. Só quem comprou o AB Shaper e fãs do Tony Little iriam comprá-la, o que corresponderia a umas cinco ou seis pessoas isoladas em vestiários sujos de academias. Acertei no varejo, errei no atacado: de fato, só marombados estúpidos querem ler a Mensrelfe, mas cerca de 56 mil pessoas o fizeram no último mês. E o número aumenta. 

Vai ver quem não deu certo fui eu. Como diria Nietzsche: "a minha parte eu quero em pinga". 

Pede perdão 
Pela duração 
Desta temporada 
Mas não diga nada 
Que me viu chorando 
E pros da pesada 
Diz que eu vou levando

terça-feira, 4 de julho de 2006

A VERDADE ESTÁ LÁ FORA (NA CAIXA DE CORREIO)

Sonhei que minhas contas da Eletropaulo começaram a chegar em casa com todos os meus exames de sangue e outros do gênero devidamente comentados com as melhorias que eu deveria fazer na minha saúde. Era um verdadeiro relatório produzido e assinado por, pasmem, Dom Paulo Evaristo Arns e assessores da Igreja. Comecei a conversar com os vizinhos, que me confirmaram assustados que também estavam recebendo as contas de luz anexadas aos exames médicos que recentemente tinham feito, mas que jamais haviam saído de casa, como os meus. No entanto, estávamos todos recebendo nossos exames de volta comentados via correio. 

Procurei me informar a respeito e descobri à boca pequena que Dom Paulo era o mentor de uma sociedade secreta que seqüestrava exames clínicos das casas das pessoas em um esquema que envolvia os correios, com o objetivo de ajudá-las a cuidar da saúde e, conseqüentemente, viver melhor. Assim as estatísticas da ONU sobre a expectativa de vida no Brasil alcançariam melhor conceito, o que traria dividendos políticos para Dom Paulo junto ao Vaticano. 

O mais interessante é que a sociedade era secreta, mas todos os exames que chegavam no correio eram assinados por Dom Paulo e asseclas. No sonho, a imprensa não comentava o assunto porque, sendo aquela uma sociedade secreta, ela nada sabia e não tinha como apurar, apesar de grande parte da população paulistana estar recebendo as contas da Eletropaulo com um plus a mais. Prova de que até o meu inconsciente compreende a imprensa brasileira como detentora de uma estupidez sem par nessas matas.

segunda-feira, 26 de junho de 2006

CINCO COPAS DO MUNDO (parte dois)

1998. Na França, a Copa. Na província, o colegial. Dois mundos ligados pela tecnologia (espaço reservado para uma ode à modernidade que os mais apedeutas gostam de fazer). Era o Brasil que faria a abertura da Copa em Paris contra a Escócia de Sean Connery, que estava no Stade de France para assistir a partida e exibir a tatuagem com a inscrição "Scotland Forever" em seu braço. Eu já era fã de James Bond e bancava o durão, mas estava apaixonado por uma morena de pele bem branca, nariz empinado e pintinhas na face chamada Pâmela. Para mim todas as pessoas belas eram pâmelas, havia pâmelas em todos os lugares, e os olhos escuros e vivos dela ainda merecem lugar cativo na parede da minha memória. 

E nada como um Mundial na França para quem está perdidamente apaixonado. Lembro que a escola nos liberou mais cedo, e eu fui batucando Le vie en rose em ritmo de samba até em casa, porque no dia anterior tinha visto um cara fazer igual na TV. Até a esquina fui acompanhado pelo amigo Ednílson Naripeta, o maior nariz que conheci e cujo apelido me gabo de ter fornecido. O Brasil ganhou da Escócia por 2 a 1, com gol estranhíssimo de Cafu. Antes da peleja, os escoceses entraram em campo de kilt para saudar sua torcida. Depois do jogo, o repórter da Globo na porta do estádio fez um link ao vivo e, atrás dele, vários escoceses bêbados fizeram um bundão coletivo. 

Um mês depois, a França fazia três no Brasil, que não faria nenhum, enquanto a Pâmela tinha um affair com um jogador de vôlei da minha turma, rival de tamanho e de paixão desse reles escriba. Dizem que Ronaldinho teve uma convulsão antes da final. Eu também acabaria tendo a minha quando me peguei assim, tão desconsoladamente de coração partido. 

*** 

2002. Futebol não rima com Coréia nem com Japão. Talvez isso tenha relação com a pior fase da vida de um sujeito recém-chegado à faculdade e à cidade grande. Problemas de saúde e muito mais. A Copa passou em branco na minha cabeça. O melhor retrato daquela fase ocorreu no dia da final, após Cafu levantar a taça em Yokohama depois dos 2 a 0 na Alemanha. Queria comemorar a única coisa comemorável naqueles tempos pessoalmente difíceis. Peguei a bengala e fui devagarinho até a esquina de casa. No terceiro carro que passou buzinando, uma mulher enfiou a cabeça pra fora e gritou, olhos sarcásticos em mim: 

- Ô Alemão! Enfia essa bengala no cu! 

Voltei para casa em silêncio, divagando sobre os possíveis fatores que então me faziam inviável enquanto ser humano. 

*** 

2006. Arena de Munique lotada para ver Alemanha e Costa Rica abrirem a décima oitava Copa do Mundo. Mais ou menos assim: 

- A PORRA DAS TAGS DE PUBLICIDADE TÂO COMENDO PARTE DO HOME! CADÊ A PORRA DA WEBMASTER! NÂO TÀ ONLINE!?!?!?!? ALGUÉM TEM O TELEFONE DA WEBMASTER? OS TIMES TÂO ENTRANDO EM CAMPO! AI CARALHO!!!! QUE ZICA É ESSA COM A PORRA DO JAVASCRIPT???? O MEDIA PLAYER NÂO TÀ TOCANDO O HINO DA COSTA RICA!!! 

Desce o pano.

Foto: Flagrante de França x Brasil, 12 de junho de 1998, em Paris 

sexta-feira, 16 de junho de 2006

CINCO COPAS DO MUNDO

1990. Terceira série do primário. O Elias da Vila Ana, os piores dentes que vi na vida, entra na sala atrasado. 

- Ô ´sora, mal aí. Tava vendo essa história aí de copa do mundo. 

Sentou do meu lado, que perguntei de que raios ele tava falando. 

- É, cê não gosta de futebol, né? Tá rolando a Argentina contra uns tal de Camarão. Mundial. Na Itália. 

Vi o Elias uns cinco anos depois, era carregador de pacotes do Furgeri, mercadinho na esquina da minha casa. Eu ia comprar Mirinda laranja, que adorava. Ele me sorriu, já não tinha mais os dentes da frente. Lembrei daquele dia da terceira série, o dia em que a Argentina perdeu por 1 a 0 para Camarões na abertura da Copa de 1990, em Milão, com gol de François Oman-Biyik. Foi o dia em que comecei a gostar de futebol. Acenei com a cabeça. 

Dizem que o Elias virou bandido. 

*** 

1994. Sétima série, 13 anos nas costas, mais de 1.80 de altura, penugem na cara esboçando uma barba. Futebol e espionar casais transando na rua da minha casa eram minha vida. Nunca quatro anos demoraram tanto a passar, até aquele dia de junho em que Alemanha e Bolívia entraram em campo, e eu quase chorei. A Copa começava com um gol solitário de Klinsmann para a Alemanha, para terminar com Baggio a chutar a bola para o espaço. 

Pela primeira vez trocava figurinhas de um mundial. Cheguei a vender algumas repetidas. Em uma ocasião dessas, trouxe para casa a primeira moeda de um real. Fiquei feliz com o fato e mostrei a moeda a meu pai, que gritou: "GRANDE MERDA ESSA PORRA DE REAL, FHC TRAÍRA FILHODAPUTA!". 

Fome, miséria e imcompreensão. O Brasil era "treta" campeão. 

TO BE CONTINUED...


Foto: Flagrante de Argentina x Camarões, 8 de junho de 1990, em Milão 

domingo, 4 de junho de 2006

PROVOCAÇÕES

A primeira provocação ele agüentou calado. Na verdade, gritou e esperneou. Mas todos os bebês fazem assim, mesmo os que nascem em maternidade, ajudados por especialistas. E não como ele, numa toca, aparado só pelo chão. 

A segunda provocação foi a alimentação que lhe deram, depois do leite da mãe. Uma porcaria. Não reclamou porque não era disso. 

Outra provocação foi perder a metade dos seus dez irmãos, por doença e falta de atendimento. Não gostou nada daquilo. Mas ficou firme. Era de boa paz. 

Foram lhe provocando por toda a vida. 

Não pode ir a escola porque tinha que ajudar na roça. Tudo bem, gostava da roça. Mas aí lhe tiraram a roça. 

Na cidade, para aonde teve que ir com a família, era provocação de tudo que era lado. Resistiu a todas. Morar em barraco. Depois perder o barraco, que estava onde não podia estar. Ir para um barraco pior. Ficou firme. 

Queria um emprego, só conseguiu um subemprego. Queria casar, conseguiu uma submulher. Tiveram subfilhos. Subnutridos. Para conseguir ajuda, só entrando em fila. E a ajuda não ajudava. 

Estavam lhe provocando. 

Gostava da roça. O negócio dele era a roça. Queria voltar pra roça. 

Ouvira falar de uma tal reforma agrária. Não sabia bem o que era. Parece que a idéia era lhe dar uma terrinha. Se não era outra provocação, era uma boa. 

Terra era o que não faltava. 

Passou anos ouvindo falar em reforma agrária. Em voltar à terra. Em ter a terra que nunca tivera. Amanhã. No próximo ano. No próximo governo. Concluiu que era provocação. Mais uma. 

Finalmente ouviu dizer que desta vez a reforma agrária vinha mesmo. Para valer. Garantida. Se animou. Se mobilizou. Pegou a enxada e foi brigar pelo que pudesse conseguir. Estava disposto a aceitar qualquer coisa. Só não estava mais disposto a aceitar provocação. 

Aí ouviu que a reforma agrária não era bem assim. Talvez amanhã. Talvez no próximo ano... Então protestou. 

Na décima milésima provocação, reagiu. E ouviu espantado, as pessoas dizerem, horrorizadas com ele: 

- Violência, não!" 


* De Luís Fernando Veríssimo. Tirado do site do programa Provocações, divertimento pra horas seguidas.