sexta-feira, 7 de outubro de 2005

A IMPORTÂNCIA DE SER SIMPLISTA


Ao ministrar impactante palestra para jornalistas dissidentes da Cásper Líbero que migraram para a FIBO - Faculdades Integradas Ibotirama, na Augusta com a Fernando Albuquerque - disse o editor de SorryPeriferia que Oscar Wilde era uma bichinha.
O epíteto cunhado ao escritor inglês levou à loucura a bancada de Jornalismo Pansexual da casa, liderados pelo Professor Zigbniew Corizza, que organizou um motim como forma de protesto. Cadeiras voaram, bifes de fígado levemente faisandés foram arremessados e três prostitutas que procuravam clientes no balcão suicidaram-se pela comoção de momento.

Em verdade não há nada de errado em ser bichinha, o que também não influi no fato do grande figura humana e literária ser bom ou não. Da mesma forma, Adílson Maguila era um machão inveterado, porém péssimo boxeur.

Porque no fundo é tudo a mesma coisa. Fica aí a simplificação.

quinta-feira, 29 de setembro de 2005

ESBOÇO DE ROTEIRO PARA CURTA-METRAGEM DE QUALIDADE DUVIDOSA

Tomada 1: Duas vaquinhas pastam pelo campo em cena bucólica. Uma delas muge.

Tomada 2: Duas vaquinhas pastam pelo campo em cena bucólica. A outra delas muge.

Tomada 3: Vácuo de som, vácuo de ar. Uma luz resplancedente toma de assalto o recinto.

Tomada 4: FERNANDO VIVES!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Tomada 5: Luz some, ambiente volta ao normal.

Tomada 6: Duas vaquinhas param de pastar e entreolham-se. Vaquinha 1 levanta as sobrancelhas.

Tomada 7: Duas vaquinhas pastam pelo campo em cena bucólica. Ambas se recusam a mugir.

Tomada 8: Duas vaquinhas pastam pelo campo em cena bucólica. Silêncio.

Tomada 9: Duas vaquinhas pastam pelo campo em cena bucólica.

FIM DO ROLO

quarta-feira, 28 de setembro de 2005

O JORNAL E SUAS METAMORFOSES

Um senhor pega um bonde depois de comprar o jornal e pô-lo debaixo do braço.

Meia hora depois, desce com o mesmo jornal debaixo do mesmo braço. Mas já não é o mesmo jornal, agora é um monte de folhas impressas que o senhor abandona num banco de praça.

Mal fica sozinho na praça, o monte de folhas impressas se transforma outra vez em jornal, até que um rapaz o descobre, o lê, e o deixa transformado num monte de folhas impressas.

Mal fica sozinho no banco, o monte de folhas impressas se transforma outra vez em jornal, até que uma velha o encontra, o lê e o deixa transformado num monte de folhas impressas. Depois, leva-o para casa e no caminho e aproveita-o para embrulhar um molho de acelga, que é para o que servem os jornais depois dessas excitantes metamorfoses.

*de Histórias de Cronópios e de Famas, Julio Cortazar.

VERÁS QUE UM FILHO TEU NÃO FOGE ÀS PINGAS

Voltei

Foi ao observar vaquinhas coloridas pela Paulista que mais uma vez encontrei uma criança debaixo de meu pé direito e resolvi voltar a blogar. A vítima da vez era de ascendência japonesa e não tinha mais que sete primaveras, tendo desgarrado-se dos braços orientais da mãe apenas três passos antes de virar piche sob minha sola 47. Enquanto a progenitora esgoelava, concluí abstraidamente que o infanticídio involuntário já é tradição nestes 24 verões de existência, tanto quanto escrever neste hebdomadário virtual. Logo, entre acabá-lo de vez e voltar a enchê-lo de palavras nauseantes contra o PSDB, a Cásper Líbero ou a mãe do Corizza, optei por esta última.

Mas a dúvida que me pegou entre o fígado e a alma é: o que escrever? O fígado me deu a resposta antes da alma. Sábado passado, ao acordar de sonhos intranqüilos, o editor de SorryPeriferia pegou-se em apartamento estranho debruçado sobre um vaso sanitário de cor roxa (ou seria vinho?). Ele sabia que não devia misturar cerveja excessiva, uma garrafa de Almadén e caldinho de sururú, além do famoso cigarro que passarinho não fuma, mas resolveu pagar para ver. O resultado da nauseabunda miscigenação alcoólica foi parar no supra-citado vaso cor vinho (ou seria verde-musgo?) ao som de Paulinho da Viola que vinha da sala. A cada frase de Foi um rio que passou em minha vida, um pouco de minha dignidade se deixou levar tubulação adentro.

Agora, devidamente recuperado de tamanha falácia etílica, incubo-me da tarefa de soerguer a moral utilizando-me deste blog.

Vão-se os porres, mas o fígado fica.

Voltei.


(em breve: novo lay-out)

sexta-feira, 9 de setembro de 2005

FALANDO MACIO E CARREGANDO UM GRANDE PORRETE

Particularmente não simpatizo com cinderelas. Todas as cinderelas que conheci em vida se transformaram em abóbora à meia-noite. Prefiro muito mais uma mulher que aperte minhas bochechas e diga "Gosto de ti, mas saiba que também prefiro as putas". Nunca de alguma maluca que se aconchegue em platonices canastronas.

Penso também que príncipes encantados acabaram junto com a monarquia. Se você não conseguiu achar meia dúzia de homens da sua vida andando uma hora por dia pela Praça da Sé, o problema é com você, não com a humanidade. A recíproca também é verdadeira: mais chato que uma cinderela só mesmo um cinderelo. Casimiro de Abreu foi um sujeito muito chato.

No fundo a cinderelice é o anti-romantismo. Não enxerga quem não quer. Como o Antônio Abujamra sempre repete: a vida não dá presente a ninguém. Se você quer uma vida, aprenda a roubá-la.

quarta-feira, 31 de agosto de 2005

PAUSA SOBRE A PAUSA

Se você não tem nada para fazer enquanto curte o recesso de SorryPeriferia, sugiro que leia o blog do Marcos Valério.

Detalhe para o post "Tara pelo sangue derramado", que contém um comentário assinado por um tal de Vives, que deixou a seguinte frase: "Põe uma foto de quando você era cabeludo aí, ô". Ao que parece, esse sujeito que anticonstitucionalissimamente assina como Vives também deixou um spam com a frase "ENLARGE YOUR PENIS".

Procurado pela reportagem de SorryPeriferia, Marcos Valério não quis comentar o assunto.

Segue a pausa.

sexta-feira, 5 de agosto de 2005

CARTA ABERTA AOS LEITORES DE SORRY PERIFERIA


Caros,

reza a lenda que momentos antes de morrer, Ludwig Van Beethoven olhou pela última vez para as partituras que forravam seu piano e encheu de lágrimas os próprios olhos. Beethoven pressentia ser aquela a última visão daquilo que mais representava sua vida, e tinha consciência do quão grandiosa ela havia sido. Momentos depois Ludwig deitou tristonho em seu leito e pereceu, com a brisa da manhã a entrar pela janela, ao som do canto triste das cotovias.

Em verdade essa lenda é uma mentira estapafúrdia inventada por mim agora mesmo com o único objetivo de parecer mais culto. Se não me engano, o dito cujo aí em cima morreu doidivanas, com um sério problema de incontinência urinária e intestinal, e me corrijam os que realmente sabem da história. Mas, convenhamos, o meu fim tem mais glamour.

Pois bem. Todo mundo tem um pouco de Beethoven. No meu caso, compartilho com o mestre um pouco da surdez e olhe lá - ah, esses malditos rolhões de cêra de ouvido. Taí uma hipótese: se já existisse naquela época essas pistolinhas d´água que os médicos usam pra limpar nossos ouvidos, talvez a história de Beethoven tivesse sido mais feliz.

Posto o intróito sem sentido, digo que convém uma pausa. Ah se convém uma pausa. Neste blog. Duas semanas, quatro talvez. Ele está cansado. Foi-se a espontaneidade, a risada boba das linhas imprevistas. Há hoje aqui uma fuga do que sempre quis fazer, que pode ser retratado por uma sucessão de posts com textos quadrados, compridos e prolixos.

Tentemos mais tarde, portanto. Voltarei, não há dúvidas, porque escrever é minha terapia automática e intransponível. É o que eu faço quando estou nervoso. É o que eu faço quando estou triste. É o que eu faço quando estou feliz. Aproveitemos o momento de anomia e reflexão pelo qual passa o editor do blog, que sente suas energias esgotadas. Utilizando um linguajar freicanéico: bad vibe.

O editor de SorryPeriferia sempre foi um autista por opção, mas sente que atingiu um extremo nas últimas cinco ou seis semanas. Uma estafa passageira e sem sentido, causada pelo absolutamente nada somado ao excesso diário de internet. Nóia. Como diria o filósofo Wander Wildner, "não consigo ser alegre o tempo inteiro". Logo, ele se recolhe ao seu porto metafísico - o copyright desta expressão não é meu - para voltar muito em breve tinindo as energias, como em tempos recentes. Assim voltará a escrever, porque mais do que nunca ele precisa disso para pagar suas contas. E então voltará, de preferência se referindo a si mesmo na primeira pessoa, porque ele abomina quem escreve sobre si na terceira, como agora está fazendo só por pirraça.

Enfim, deselegante.

Portanto, masoquista leitor, este blog volta em algumas semanas. Com um visual novo, talvez, e com idéias novas, reinventado. Para quem gosta dele, convém aguardar. Para quem não gosta, resta o consolo de poder admirar a foto acima, da insofismável Catherine Zeta-Johnes, eterno colírio que carregarei para o além-vida. Errei: além da parcial surdez, tenho de Beethoven também a minha amada imortal. Ela fica aí em cima enquanto não retorno a escrever, espantando as más energias.

A gente se vê por aí,

Lives.

segunda-feira, 1 de agosto de 2005

THIS IS THE END, BEAUTIFUL FRIEND

De Niro, Taxi Driver, 1976.

"É preferível ser rei por uma noite do que um tolo a vida inteira". Rupert Pupkin, personagem de Robert De Niro em O Rei da Comédia (Martin Scorsese, 1983).


Houve um tempo em que Hollywood fazia filmes para as pessoas pensarem nelas mesmas dentro de um contexto social, e dizendo isso pareço um velho marxista derrotado pela queda do Muro de Berlim. Mas dane-se. O Rei da Comédia, de Scorsese, é a tampa do caixão deste período, que ao meu entender surgiu forte nos anos 60, teve seu clímax durante os 70 e foi enterrado no início dos 80. Falo (ui) de um tempo em que as grandes caixas redondas recheadas de película que saíam da Califórnia - e que chegavam até àquele cinema do seu bairro que já não existe mais - tinham também o objetivo de discutir o que eram os States, apontar suas fraquezas e, em muitos casos, colidir de frente com todos os governantes estúpidos das escalas municipal, estadual e federal. Da polícia de Nova Iorque ao FBI. Os donos do poder, enfim, com as calças na mão. Falo (dane-se o cacófato) de filmes como Dr. Fantástico e Nascido para Matar, de Kubrick, Apocalypse Now e A Conversação (Coppola), Táxi Driver e O Rei da Comédia (Scorsese), M.A.S.H. (Robert Altman), Todos os Homens do Presidente (Alan Pakula), Serpico e Um dia de Cão (Sidney Lumet), Muito Além do Jardim (Hal Ashby), entre tantos outros que não assisti, não lembro ou que desconheço a existência. (só achei os nomes de Pakula e Ashby no Google, não conhecia nenhuma dos dois).

Aluguei há alguns dias O Rei de Comédia, que há muito queria ver e não achava em locadora alguma. Não ri. Não que seja mal feito, muito pelo contrário, mas o contexto em que a dita comédia se insere é angustiante. O drama de carência moral e afetiva por que passam os personagens de De Niro e de sua amiga (cujo nome não sei) é trágico. No fim, com um nó de angústia entalado na garganta, você passa dias pensando se não corre o risco de ficar como aqueles personagens, e faz algumas observações sobre a frieza com a qual os americanos tratam uns aos outros. Enfim, o cinema que te pede para pensar. Brilhante.

Scorsese, o diretor, assume nos extras que produções assim não podem ser realizadas atualmente. O contexto do cinema, segundo ele, mudou. O Rei da Comédia teria sido o último dos filmes que discutiam as carências da sociedade norte-americana do ponto de vista do homem, do ponto de vista da sociedade e, em muitos casos, do ponto de vista dos donos do poder.
De fato, não se vê mais filmes com esta toada, salvo um O Informante aqui, outro Um dia de Fúria ali. Mas nunca mais uma tendência questionadora. Depois que certos dois predinhos desabaram em Nova Iorque então, não fazer filmes que incomodem coisas da política ou da sociedade de nosso Grande Irmão do Norte passou a ser um ato de patriotismo.

Mas por quê, afinal?

Dizem que Ronald Reagan - um ex-ator, lembre-se - não queria seguir os caminhos de Nixon no que se refere a deixar-se parecer o que realmente ele era, ou seja, um tapado utópico, tal qual Nixon. Assim Reagan teria começado a seduzir os chefões de Hollywood, prática intensificada por Bush Pai, Clinton e, sobretudo agora, por Baby Bush. Agora, os donos do poder e os donos do cinema mantém relações carnais que causariam inveja a Carlos Menen, que tanto quis uma algo mais entre a Argentina e os States.

A conseqüência é esse cinemão burrocêntrico que hoje vemos por aí. Um gênio como o Scorsese fazendo algo como O Aviador, uma superprodução burocrática que não quer dizer nada a ninguém. Robert De Niro, talvez o grande ator desta toada pensante dos anos 70, hoje vive de comédia para a família republicana média assistir com o cachorro na sala.

A questão de O Rei da Comédia é a própria questão de Hollywood. Tal qual a frase de Rupert Pupkin, o personagem de De Niro, o cinema de Hollywood foi rei por uma noite, mas tolo por todo o resto de sua existência. A lamentar.

OBS: Pessoalmente acho que temos bons filmes atualmente, mas longe deste contexto político. E duvido que teremos.

sexta-feira, 29 de julho de 2005

NOTA AUTOBIOGRÁFICA DESPROVIDA DE SENTIDO

O editor de SorryPeriferia (rodeado pela argolinha) posa para fotos com colegas no Hospital de Tratamento Psiquiátrico Intensivo em 23 de abril de 1970, seis meses antes de abandoná-lo

Perguntam-me sobre minha história. Lhes contarei. Sou o fruto de uma pisadela e de um beliscão entre meus pais, uma aventura banal, fim de rastapé de interior. Nove meses se passaram e eu nasci. Tudo que sei é que desde então fiquei internado em um sanatório, donde sairia 20 anos depois. Pelo que pude apurar, não tive alta: me dispensaram porque comi a maçaneta da porta do almoxarifado. Estava com fome e não agüentava mais a péssima qualidade da comida que me davam. Eles passavam o prato de sopa cor-de-burro-quando-foge por baixo da porta do porão - onde eu dormia - ao acordar e antes de dormir. Eram as duas refeições do meu dia. Pouco comia, pois os ratos eram sempre maioria e costumavam ser mais rápidos do que eu.

Sem rumo, procurei minha mãe. Quando me viu ela disse: "Não conheço nenhum Vives. Suma daqui". Após insistência, ela vagamente se lembrou de um dia ter tido um filho. Moraria com ela por uns tempos até conseguir me arranjar na vida, o que nunca aconteceu. Todas as noites ela colocava um saco sobre minha cabeça antes de dar o beijo de boa noite. Felizmente, logo conheci minha primeira namorada, por quem perdidamente me apaixonei.

Chamava-se Rulfia, e era estivadora do porto de Mixirica da Serra - mixirica com i mesmo -, onde carregava de bigornas um navio ferreiro. Era a única estivadora mulher do porto de Mixirica da Serra. Em verdade, era a única a fazer esta função naquele local, que carregava de bigornas sempre o mesmo navio, o único a atracar no porto da cidade e que de lá nunca desatracou. Passamos a morar juntos, num chatô de sapé que ela mantinha perto do cais.
Foi com Rulfia a minha primeira noite de amor. Mas registre-se, também, que com Rulfia nunca atingí o clímax. Ela chegava cansada do porto, não gostava de fazer as preliminares e quase sempre dormia em cima de mim. Rulfia tinha crises agudas de TPM. Em uma delas, trouxe uma bigorna do porto só porque cobrei-lhe que não dormisse sobre mim durante o ato. Arremessou-me o objeto no joelho, o que me deixou levemente coxo até os dias de hoje. Mas eu amava Rulfia mesmo assim.

Porém, certo dia ela entrou no navio ferreiro com uma bigorna nos ombros e de lá nunca mais saiu. Vasculharam a embarcação toda e nada acharam. Nem sequer uma bigorna foi encontrada lá dentro, nenhuma de todas aquelas que Rulfia lá levou nos últimos dez anos, todos os dias, dez horas por dia, folgando aos domingos e dias santos. Rulfia se foi, para onde ninguém sabia, deixando uma lacuna em meus sentimentos. O mistério de Rulfia e as bigornas afugentou os habitantes de Mixirica da Serra, que abandonaram a cidade. Lá restou apenas o navio ferreiro aberto e milhares de bigornas ao lado para serem carregadas.

Vim para capital. Comecei a beber e conheci os livros. Muitos deles. Em verdade nunca soube ler, mas eu via as figurinhas. Um deles mudou a minha vida. Chamava-se Kama Sutra para Crianças: Aprenda Hoje o que Você vai Querer Fazer Amanhã, e tinha figuras tão interessantes que pela primeira vez na vida ousei querer ler. Mas nunca aprendi. Continuei bebendo, porque a bebida era o que me restara de concreto, embora líquido. Fiz dois amigos, o Mato Grosso e o Joca, que andavam jogados pela Avenida São João.

No auge de minha agonia causada pelas saudades de Rulfia e por não saber ler, prestei Jornalismo em uma faculdade de nível mediano na Avenida Paulista. E, embora analfabeto, nunca desconfiaram disso e vivem me dizendo que levo jeito pra coisa (embora talvez discorde), o que me levou a arrumar emprego no jornal-laboratório local, onde plagiei uma receita de bolo de ameixa, sem ninguém nunca ter desconfiado.

Passei a viver de frilas esporádicos em revistas de primeira, segunda e terceira categorias, o que me possibilitou fazer planos pela primeira vez na vida. Eu, Mato Grosso e o Joca nos mudamos para uma casa velha, uma palacete assobrado, e lá vivemos os grandes dias de nossas vidas. Mas um dia veio os homem com as ferramenta, o dono mandou derrubar. A casa velha, o palacete assobrado estava no nome de um tal de Aureliano Buendia, austero fazendeiro de uma cidade do interior da América Latina, casado com ninguém menos que Rulfia Vives, a carregadora de bigornas, única mulher que amei na vida. Rulfia havia fugido para a terra de seu amante, onde vive a bater suas bigornas em meio a tapetes voadores e velhas mágicas.

Nota do narrador onisciente: A última notícia que tiveram de F. Vives é que ele foi visto com outra, num Fuscão preto pela cidade a rodar, e também parado em frente ao Ibotirama, onde comia um bife de fígado com a dita cuja que, suspeita-se, seja uma americana casada de nome Catherine. Pelo que pude apurar, parece que tem muito orgulho disso.

NOT TO BE CONTINUED.

segunda-feira, 25 de julho de 2005

DAS COISAS QUE A HUMANIDADE EXAGEROU

Flagrante da família Corizza durante piquenique na Era Paleozóica: Felipe é o que mostra a bunda para a câmera

Há um momento de angústia profunda e pausa na respiração quando penso no primeiro homem que olhou para um quiabo e disse "eu vou comer isso". Apesar de minha relutância gástrica, compreendo que a humanidade um dia já padeceu de fome profunda - e ainda padece - e que o bicho-homem precisava estar aberto a novas experiências, e não é de homossexualismo que estou falando. Enfim, ele tinha que colocar qualquer coisa na boca e engolir - eu já disse que não é de homossexualismo que estou falando - tal qual um Antônio Mezenga comendo bigatinhos na floresta depois que o avião caiu.

Creio que esse raciocínio justifica não só o quiabo como também o jiló, a buchada de bode, a linguada de boi e o curanchinho do frango. Na próxima vez que você olhar torto para alguém a saborear uma jaca, pense que um ancestral seu de 75 gerações atrás pode ter comido uma similar e sobrevivido às intempéries, o que manteve de pé a perpetuação desse gene arrogante dentro de você, que te faz olhar para a jaca com cara de "isso é um tanto disgusting".

Por outro lado, percebo que houve um momento na história em que sucessivos desvios de conduta fizeram do homem o único bicho capaz de compreender que dois com dois são quatro, mas também de fazer as coisas mais imbecis como se fosse o percurso natural da vida. Por exemplo: mordo-me ao pensar no primeiro sujeito que escalou cinco quilômetros de uma montanha e, ao chegar no topo, pensou "Quebrei meus poucos dedos que não gangrenaram, mas isso foi sensacional. Porque não fazer de novo e transformar isso em uma modalidade de esporte masoquista"?

Mas o alpinismo não é nada se comparado a uma manchete que certa vez li na internet: "Flórida estuda legalizar arremesso de anões". Diz-se que na terra da Disney a prática de jogar pessoinhas à distância é tão comum que há um movimento para que tal fenômeno seja reconhecido pela Estado como um esporte. Particularmente nutro o hábito de arremessar alguns amigos em festas quando me encontro trebadaço, anões ou não, mas não encaro isso como uma modalidade esportiva, para alegria da minha amiga Karen C..

Voltemos ao quesito gastronomia e similares. Enquanto tomava capirinha no Ibotirama com três figuras interessantes no último sábado, o mais exótico deles relatou o prazer que sente ao tomar uma cachaça curtida com cobra coral falsa. Explico: coloque a pinga em vasilhame junto de uma cobra coral falsa morta. Com o tempo, o bicho vai se desmanchando e a bebida adquire gosto e coloração muito específicas. Tal fenômeno ocorre com regularidade em Minas Gerais, não com manjericão, não com pimenta: com répteis mortos.

A imagem de tal vasilhame no balcão de um boteco qualquer, ao lado do compartimento de ovos coloridos, pegou-me entre o fígado e a alma. Como diria Alberto Einstein: "Só conheço duas coisas que não têm limite: o espaço sideral e a estupidez humana".

A minha parte eu quero em pinga. Sem animais mortos.